Não olhe agora, mas tem gente usando a sua causa em causa própria

Cena de beijo gay na novela, discurso de veículos em favor da diversidade mas cadê os atores/atrizes feios que existiam na minha infância porque eram talentosos?), reportagens sobre atos terroristas com linguagem e edição de cinema, reporter que pergunta “isso é muito sofrimento para você?”, gente que prega igualdade de direitos e oportunidades usando estratégias de compensação.

Sua causa, seus valores, suas crenças, sua luta… tudo isso tem se transformado em uma única coisa: entretenimento.

E por que? Porque “entertainment is where the money is”, como bem sabe qualquer empreendedor.

Claro, sempre existiu essa hipocrisia. Mas tenho a sensação de que hoje a coisa saiu do controle. De um lado, um monte de gente querendo fazer mais e mais e mais dinheiro. E de outro, toda uma geração (geração no sentido de todos nós que estamos vivos agora) com um grau de ingenuidade absurda e que acredita mesmo que basta alguém se dizer “pela causa” para ser, de fato, por ela.

Não. A única causa, não se iluda, é a própria. Zero de altruísmo. Mil de vontade de projetar uma imagem pegando carona na causa vigente.

Ou será que esses temas todos “entraram na moda de repente, ao mesmo tempo” e todas as marcas, veículos e engajados de plantão tiveram uma iluminação divina e simultânea, para esse despertar coletivo?

Não me entenda mal. Acho realmente louvável a vontade de se criar um mundo melhor e mais justo. E é justamente por isso que me irrito tanto quando percebo marcas, veículos e pessoas usando a sua causa… em causa própria. Para aparecer.

Pegar carona na tragédia alheia para ficar bem na foto é uma das coisas mais baixas que um ser humano pode fazer.

Diversidade, gênero, racismo, assédio. Tudo isso é sério demais para se usar em causa própria.

Quer ser engajado de verdade? Então FAÇA alguma coisa que vá além desse verniz raso do “eu também tô nessa!”.

Se eu fizesse parte de alguma dessas minorias eu ficaria PUTO se alguma marca ou amigo começasse a usar, o que para mim é sofrimento e dificuldade, só para passar por moderninho.

Bom, chega. Vamos ao comercial da Pepsi com a modelo Kendall Jenner. Você já deve estar ouvindo um monte sofre ele por aí.

Fora que é um roteiro requentadíssimo.

E tantos outros.

Já acumulo mais de 3 décadas como publicitário e não sou hipócrita. Sei exatamente a ilusão que sempre fez parte desse ofício. Mas tá demais.

Li hoje de manhã uma expressão ótima: “Don’t commodify the Struggle”.

“Don’t commodify the Struggle”.

Detectou uma hipocrisia? Boicote. Seja marca, veículo ou amigo.


Originally published at Update or Die!.

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