Um grito de feminismo

- Sabe, devo te dizer algo… é que eu sinto uma grande atração por ti, sinto que posso cair nos teus olhos.

- Olá, tudo bem? Obrigada.

- Espero que o que eu disse não tenha te incomodado.

- Não se preocupe, não tem problema, mas… eu tenho namorado.

- Nunca tive problema com isso. Eu só quero te conhecer melhor… Realmente sinto que cada vez que te vejo vou cair nos seus olhos.

- Obrigada!

- Você não gosta do que eu te digo?

- Cri… cri… cri…

- Ei, vamos nos ver no fim de semana.

- Cri… cri… cri…

- Então, você não gostaria de sair comigo?

- Olá, obrigada pelo convite. Mas eu não acho que meu namorado vá gostar, desculpe.

- Apenas para conversar e coisas assim…

- Ok, vamos ver em algum momento oportuno.

- Ei, tenho uma curiosidade: você gosta de mim?

- Como amigo, sim claro.

- Eu te pergunto como homem.

- Eu tenho namorado então não vejo o mundo com esse tipo de interesse.

- Não acredito que se você me responder essa pergunta aconteça algo.

- Eu já respondi.

- Responde com um sim ou com um não. Você gosta de mim como homem?

- Não quero ser grosseira contigo, mas menos ainda quero ser assediada dessa maneira. Você é meu aluno, podemos ser amigos, mas nada mais.

- Ok, não imaginei que você fosse se sentir assim…

Esse diálogo é real. Aconteceu esses dias. Parece que não tem nada de mal, não é? Mas eu me senti muito incomodada. Fiquei sem saber como reagir, porque não quero ser grosseira, nem ferir ninguém. A gente sabe como pode ser difícil se aproximar de alguém… Mas existe uma linha sobre um elogio e um abuso; e acontece muito porque parece inofensivo.

No caso que eu mostrei acima, eu falei logo de cara que tinha namorado. Para um bom entendedor já está mais do que claro que não estava aberta para iniciar uma relação. Então, em qual momento foi dado a abertura para me perguntar se eu gosto dele como homem? Que tipo de resposta alguém espera de uma pergunta como essa? É tratar o outro como um objeto, gera desconforto, vulnerabilidade, vergonha, constrangimento… Não é legal.

E talvez quem faça isso, como o protagonista da minha história, nem se dê conta do quão inoportuno é esse tipo de invasão de intimidade. Infelizmente, a cultura latina favorece o sexo fácil, e são essas pequenas atitudes que aumentam a desigualdade entre os sexos.

Não podemos ficar caladas, fingir que tudo bem “é só mais uma cantada”, porque não é só mais uma cantada é falta de respeito é invadir o espaço do outro com palavras, olhares, assobios, comentários sobre o corpo, pedidos invasivos, que não nos deixam lisonjeadas, como alguns pensam, mas abusadas e agredidas.

Por isso é tão importante que uma música popular tenha esse posicionamento, como fez o cantor sertanejo Thiago Brava que compôs e lançou a canção “Aquela Que Você Respeita”, com uma mensagem sobre a figura da mulher e os casos de preconceito e abusos.

Além da música, o vídeo dá voz às mulheres que contam um pouco de suas histórias, tabus e como é difícil e complicado ser mulher na sociedade:


Originally published at Update or Die!.

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