Walking Cycles: ensinando rabiscos a andar

walk

Uma das coisas mais legais que um animador faz na vida é ensinar um personagem a andar.

Ele coloca seu personagem de perfil e faz 4 desenhos:

breakdown-of-walk-cycle
  1. 01. com o pé direito avançando
  2. 02.com o pé direito servindo de apoio e o esquerdo levantando
  3. 03.com o pé esquerdo avançando
  4. 04.com o pé esquerdo servindo de apoio e o direito levantando

E se o desenho fizer isso direitinho, sempre que repetir esses 4 frames ele vai sair andando por aí.

Mas o animador não pára por aí.

(pausa para soltar a trilha do post. “WALK LIKE AN EGYPTIAN” — Bangles)

Na verdade, apesar de parecer que ele está apenas fazendo seu personagem andar, sua intenção é mais ambiciosa. Ele está criando vida e personalidade porque a caminhada é muito mais do que simplesmente colocar um pé na frente do outro. De todos os movimentos que o animador vai presentear seu personagem, esse provavelmente é um dos primeiros e dos mais explorados.

A parte mecânica, dos ossos e dos músculos, acaba movimentando também muitas outras partes do corpo, cada uma com sua movimentação específica. Cabelos balançam de um jeito, seios de outro, roupas e acessórios de outro. E tudo isso é uma oportunidade para o personagem mostrar sua personalidade. Basta pensar na Gisele Bündchen na passarela, no John Travolta em Grease ou no Silly Walk do Monty Python para entender que andar é 10% deslocamento e 90% pura expressão.

E é por isso que a internet está cheia de “Walk Cycles”, ou “Ciclos de caminhada”. São estudos de personagens, o laboratório dos animadores. Uma espécie de centro de treinamento de rabiscos onde eles aprendem a andar em 4 frames principais, mas ganham vida justamente nos outros frames que ficam entre esses (os inbetweens).

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Eu que não sou animador nem nada, fico fascinado por esses pequenos loops porque enxergo partos. Animação é uma das coisas mais mágicas que um ser humano consegue fazer (faz uma no cantinho das páginas do caderno e mostra para um índio para ver se ele não vai te olhar de um jeito diferente). É brincar de Deus. E os walking cycles são os videos do parto. Rabisco ganhando vida.

Introdução feita, queria te mostrar 2 coisas. A primeira é esse simulador de caminhada que mostra como o sexo, o peso e o humor de uma pessoa altera a mecânica do andar. São 3 pontos nos braços, 3 pontos nas pernas e 3 pontos na espinha. E apesar de não ter nenhum personagem desenhado, você enxerga direitinho, com uma riqueza de detalhes incrível, uma pessoa andando de maneiras diferentes. mexa nos sliders.

Faz pensar na sua própria maneira de andar não faz? O quanto você anda do seu jeito por causa do seu biotipo e o quanto você pode expressar através da sua postura e da sua atitude. Aposto que da próxima vez que você se levantar, vai estar muito atento ao modo como você anda.

Bom, e agora que você já brincou com a parte “mecânica”, separei alguns walking cycles para você conferir o revestimento de talento que o animador coloca sobre isso, criando personalidades através de posturas e atitudes e também fluidez e veracidade trabalhando em uma série de micro-movimentações detalhadas ao extremo, como por exemplo, o desenho que os mamilos de uma mulher fazem quando ela anda. Na maioria das vezes eles nem vão aparecer: a intenção é tornar o balanço dos seios mais real, mesmo por debaixo de uma blusa. É o que faz a diferença entre um balanço básico e pobre, que seria apenas pra cima e pra baixo, e uma movimentação natural, assimilada com alegria por nossos cérebros que acreditam facinho que é uma mulher de verdade, só desenhada.

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Para ver uma infinidade de walk-cycles você pode visitar o “Walk-Cycle Depot” ou conferir o nosso board de estudos de personagens no Pinterest do UoD (quase 9 mil referências para você perder umas horas por lá. Siga!).

Como diria Jessica Rabbit…

“Você não imagina como é difícil ser uma mulher com a aparência que eu tenho. Eu não sou má. Apenas me desenharam desse jeito”.


Originally published at Update or Die!.

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