Simon Sinek: Por que bons líderes fazem você se sentir seguro

Esse texto é uma transcrição do vídeo retirado do TED, traduzido por Tulio Leao e revisado por Leonardo Silva.

Há um homem chamado Capitão William Swenson que recentemente recebeu a Medalha de Honra do Congresso por suas ações em 8 de setembro de 2009.

Naquele dia, uma coluna de tropas americanas e afegãs estava tentando atravessar por uma parte do Afeganistão para ajudar a proteger um grupo de oficiais do governo, um grupo de oficiais do governo afegão, que se encontrariam com alguns anciões moradores locais. A coluna foi emboscada, e cercada por três lados e, entre outras muitas coisas, Capitão Swenson foi reconhecido por correr em meio a fogo cruzado para resgatar feridos e retirar os mortos. Uma das pessoas que ele resgatou era um sargento, e ele e um companheiro estavam se encaminhando para um helicóptero de evacuação médica.

E o que foi impressionante naquele dia é que, por mera coincidência, um dos médicos do resgate tinha uma câmera GoPro acoplada a seu capacete e registrou toda a cena na câmera. A cena mostra o Capitão Swenson e seu companheiro trazendo um soldado ferido que tinha sido baleado no pescoço. Eles o colocaram no helicóptero, e vemos o Capitão Swenson curvando-se e beijando-o antes de se virar para resgatar mais pessoas.

Eu vi isso e pensei comigo mesmo: de onde vêm pessoas assim? O que é isso? É uma emoção muito profunda, quando alguém quer fazer isso. Havia amor lá, e eu queria saber por que eu não tenho pessoas assim com quem trabalhar? Sabem, no meio militar, eles dão medalhas a pessoas que se dispõem a se sacrificar pelo bem de outros. Nos negócios, concedemos bônus àqueles que desejam sacrificar os outros para que possamos ganhar. Fazemos ao contrário, certo? Então me perguntei: “De onde essas pessoas vêm?” Minha conclusão inicial foi de que eram apenas pessoas melhores. Por isso o exército as atraía. As pessoas melhores são atraídas a este conceito de serviço. Mas absolutamente não é isso. Aprendi que é o ambiente e se o ambiente for certo, cada um de nós tem a capacidade de fazer essas coisas notáveis, e, principalmente, os outros têm essa capacidade também. Tive a grande honra de conhecer alguns dos que podemos chamar de heróis, que colocaram suas vidas em risco para salvar os outros, e perguntei-lhes : “Por que você faria isso?” “Por que você fez isso?” E todos eles dizem a mesma coisa: “Porque eles teriam feito o mesmo por mim.” É um profundo sentimento de confiança e de cooperação, Então confiança e cooperação são realmente importantes aqui. O problema com o conceito de confiança e cooperação é que são sentimentos, não são instruções. Não posso simplesmente dizer a você, “Confie em mim”, e pronto. Não posso simplesmente instruir duas pessoas a cooperarem, e pronto. Não é assim que funciona. É um sentimento.

Então de onde vem esse sentimento? Se voltarmos 50 mil anos, à era Paleolítica, aos primórdios do Homo sapiens, o que encontraremos é que o mundo era cheio de perigos, várias forças fazendo de tudo para nos matar. Nada pessoal. Quer fosse o clima, falta de recursos, talvez um tigre dente-de-sabre, todas essas coisas trabalhando para reduzir nossa expectativa de vida. Então, evoluímos e nos tornamos animais sociais, e vivíamos e trabalhávamos juntos no que chamo de círculo de segurança, dentro da tribo, que considerávamos o nosso lugar. E quando nos sentíamos seguros entre nós, a reação natural era de confiança e de cooperação. Há benefícios claros nisso. Significa que posso adormecer à noite e confiar que alguém de minha tribo estará alerta ao perigo. Se não confiamos um no outro, se não confio em você, significa que você não ficará alerta. Péssimo sistema de sobrevivência.

Os dias atuais funcionam da mesma forma. O mundo está cheio de perigos, coisas que tentam frustrar nossas vidas ou reduzir nosso sucesso, reduzir nossas oportunidades de sucesso. Talvez os altos e baixos da economia, a incerteza do mercado de ações. Talvez uma nova tecnologia que torna seu modelo de negócios obsoleto da noite para o dia. Ou talvez sua concorrência, que às vezes tenta matar você, que, às vezes, tenta tirar você do mercado, mas que, no mínimo, está se esforçando para neutralizar seu crescimento e roubar seu negócio. Não temos controle sobre essas forças. Elas são constantes e não irão desaparecer.

As únicas variáveis são as condições dentro da organização e é aí que a liderança importa, porque é o líder que impõe o ritmo. Quando um líder toma uma decisão de colocar a segurança e as vidas de pessoas de dentro da organização em primeiro lugar, de sacrificar seus confortos e sacrificar os resultados tangíveis, para que as pessoas permaneçam, sintam-se seguras e como parte do grupo, coisas extraordinárias acontecem.

Numa viagem que fiz, de avião, fui testemunha de um incidente em que um passageiro tentou embarcar antes de seu número ser chamado, e eu vi a agente do portão tratar o homem como se ele tivesse violado a lei, como um criminoso. Gritou com ele, por tentar embarcar antes de sua vez. Então eu disse algo. Eu disse: “Por que vocês têm de nos tratar como gado? Por que não nos tratam como seres humanos?” E foi exatamente essa a resposta que ela me deu: “Senhor, se eu não seguir as regras, eu corro o risco de perder meu emprego.” Tudo que ela me dizia é que não se sentia segura. Tudo que ela me dizia é que não confiava em seus líderes. A razão pela qual gostamos de voar com a Southwest não é necessariamente porque contratam pessoas melhores, mas porque estas não temem seus líderes.

Vejam, se as condições estiverem erradas, somos forçados a gastar nosso tempo e energia para nos protegermos uns dos outros, e isso, por natureza, enfraquece a organização. Quando nos sentimos seguros na empresa, naturalmente combinamos nossos talentos e nossas forças e trabalhamos sem parar para enfrentar os perigos lá fora e aproveitar as oportunidades.

A melhor analogia que posso dar do que é um grande líder é a de um pai. Se pensarem no que é ser um bom pai, o que ele faz? O que é ser um bom pai? Queremos dar oportunidades aos nossos filhos, educação, disciplina quando preciso, tudo para que possam crescer e alcançar mais do que nós mesmos conseguimos. Grandes líderes querem a mesma coisa. Querem dar oportunidade ao seu povo, educação, disciplina quando necessário, erguer sua autoconfiança, dar-lhes oportunidade de tentar e falhar, tudo para que possam ir mais longe do que jamais imaginamos que poderíamos.

Charlie Kim, que é CEO de uma empresa de tecnologia chamada Next Jump, na cidade de Nova Iorque, diz que se você passasse por dificuldades em sua família consideraria mandar embora um de seus filhos? Nunca faríamos isso. Então por que consideramos demitir pessoas dentro de nossas organizações? Charlie implementou uma política de emprego vitalício. Se você conseguir um emprego na Next Jump, você não pode ser demitido por questões de desempenho. Na verdade, se tiver problemas, eles vão lhe instruir e dar suporte, assim como faríamos com um filho, caso voltasse da escola com uma nota ruim. É totalmente o contrário.

Por isso, tantas pessoas têm ódio e raiva tão viscerais dos CEOs de bancos, com seus salários desproporcionais e estruturas de bônus. Não são os números, é o fato de terem violado a definição de liderança. Eles violaram o já estabelecido contrato social. Sabemos que eles permitiram o sacrifício de seus empregados em prol de interesses individuais, ou pior, eles mesmos sacrificaram seus empregados em prol de interesses próprios. Isso é o que nos ofende, não os números. Alguém ficaria ofendido se déssemos um bônus de 150 milhões de dólares a Gandhi? Que tal um bônus de 250 milhões de dólares a Madre Teresa? Temos algum problema quanto a isso? Nenhum. Nenhum mesmo. Grandes líderes nunca sacrificariam seu povo em prol dos números. Eles prefeririam sacrificar os números para salvar as pessoas.

Bob Chapman administra uma grande indústria no centro-oeste chamada Barry-Wehmiller. Em 2008, ela sofreu muito com a recessão e perdeu 30% dos pedidos da noite para o dia. Em uma grande empresa, isso é um problema e tanto, e eles não podiam mais bancar seus funcionários. Precisavam economizar 10 milhões de dólares. Então, como tantas empresas fazem hoje, a diretoria se reuniu e discutiu demissões. E Bob não aceitou. Vejam, Bob não acredita em “quantidade de cabeças”. Ele acredita em “quantidade de corações” e é muito mais difícil simplesmente reduzir o número de corações. Então, eles conceberam um tipo de plano de desligamento. Cada empregado, do secretário ao CEO, era obrigado a tirar quatro semanas de férias não remuneradas. Eles poderiam tirá-las quando quisessem, e não tinham de tirar tudo de uma vez. Contudo, o mais importante foi a forma como Bob anunciou o programa. Ele disse: “É melhor que todos soframos um pouco do que um de nós tenha de sofrer muito.” E a moral se elevou. Eles pouparam 20 milhões de dólares, e, principalmente, como esperado, quando as pessoas se sentem seguras e protegidas pelo líder do grupo, a reação natural é confiar e cooperar. De forma espontânea e inesperada, as pessoas começaram a trocar entre si. Os que podiam arcar com mais trocavam com os que podiam menos. Algumas pessoas tiravam cinco semanas para que outras pudessem tirar só três.

A liderança é uma escolha, não um título. Conheço muitas pessoas nos níveis mais altos de empresas que não chegam perto de serem líderes. Elas são autoridades e fazemos o que pedem porque têm autoridade sobre nós, mas não as seguiríamos. E conheço muitas pessoas que estão nas bases das empresas, que não têm autoridade e que são líderes natos, isso porque escolheram cuidar da pessoa à sua esquerda, e escolheram cuidar da pessoa à sua direita. Isso é um líder.

Ouvi uma história de alguns soldados que foram ao teatro e, conforme os costumes militares, o oficial comeu por último, e deixou seus homens comerem primeiro e, quando eles acabaram, não havia comida para ele. E quando eles voltaram a campo, seus homens lhe trouxeram parte de suas comidas para que ele pudesse comer, porque é isso que acontece. Nós os chamamos de líderes porque eles vão à frente, porque eles se arriscam antes de qualquer outro, porque eles escolhem se sacrificar para que seu povo permaneça seguro e protegido e possa prosperar e, quando isso acontece, a resposta natural é de que nosso povo irá se sacrificar por nós. Eles darão seu sangue, suor e lágrimas para ver a visão de seu líder tomar vida e, quando lhes perguntamos “Por que você faria isso? “Por que dar seu sangue, suor e lágrimas por essa pessoa?”, eles sempre respondem o mesmo: “Porque eles fariam o mesmo por mim.” E não é nessa organização que todos nós gostaríamos de trabalhar?

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