Conheça a banda Aline, os “Smiths franceses”

Quem disse que os franceses não sabem fazer rock de qualidade? Bom, para começar, Serge Gainsbourg se revira com um de seus Gitanes na boca onde quer que ele esteja toda vez que alguém solta uma assertiva infundada dessas. Na verdade, há diversas bandas francesas de rock que merecem nossa atenção. Indochine e Téléphone são dois exemplos clássicos, mas a lista continua caso o leitor ambicione conhecer artistas mais recentes: Archimède, BB Brunes, La Femme, Kyo… Hoje, contudo, desejamos apresentar ao leitor o som da banda Aline, responsável por dois excelentes álbuns de pop rock alternativo lançados na década que acabou de se encerrar.

A banda, que já se chamou Young Michelin e teve de mudar de nome para evitar problemas com a mundialmente famosa fabricante de pneus, foi uma das principais revelações do cenário alternativo francês no ano de 2013, o que lhes rendeu o título de melhor álbum pela revista Magic. O disco em questão, intitulado Regarde Le Ciel, consegue encantar facilmente qualquer um que esteja procurando por uma sonoridade dos anos 80 reimaginada para o século XXI.

A bateria marcante do grupo, plasmada aos riffs de guitarra e ao uso de sintetizadores, torna a audição do disco de estreia do grupo um verdadeiro deleite, uma viagem no túnel do tempo. Nada boba, a crítica musical francesa não demorou a encontrar um paralelo mais do que óbvio para a sonoridade do grupo: “Aline, des Smiths à la française” botaram nas manchetes. O rótulo não poderia ser mais preciso (e elogioso): se a voz de Roman Guerret em nada lembra os falsetes anasalados de Morrissey, a guitarra de Johnny Marr e o baixo de Andy Rourke parecem emulados perfeitamente pelo grupo francês. Ficou curioso? Dê uma chance e ouça o single ‘Je bois et puis je danse’ logo abaixo.

https://www.youtube.com/watch?v=sBjBXoCffxo

O som da Aline parece tentar reinventar os Smiths de modo mais decisivo em outras canções com menos apelo pop, criando um universo paralelo no qual podemos contemplar o que seria do clássico grupo britânico se Morrissey e companhia tivessem nascido do outro lado do Canal da Mancha. Inclusive, não surpreende que o grupo tenha convidado Stephen Street, o produtor dos Smiths e de diversos álbuns da carreira solo de Morrissey, para comandar a gravação do segundo disco, La vie électrique, lançado em 2015. Basta ouvir as primeiras notas do single que dá nome ao álbum para identificar a nitidez da influência da guitarra de Marr sobre os franceses.

Se formos analisar as letras escondidas sob o bem arranjado pop rock da Aline, notaremos ainda outra característica que nos remete ao grupo britânico oitentista: a melancolia expressa por versos taxativos sobre a dificuldade de ser feliz e a frequente aparição da temática dos relacionamentos. Guerret, naturalmente, não possui a mesma aptidão do ex-vocalista dos Smiths ao compor, mas qualquer comparação dessa natureza seria até injusta. O que realmente importa é que os versos se adequam à melodia perfeitamente, criando este contrapondo que sempre soa maravilhoso quando bem executado: uma letra tristíssima embalada por arranjos que soam exatamente o contrário.

Quer um outro ótimo exemplo da pegada Smiths da banda? Ouça ‘Elle m’oubliera’ (‘Ela me esquecerá em tradução livre), oitava faixa do LP Regarde Le Ciel. Além de apresentar versos melodramáticos como “Moi, j’aurai beau dire les mots elle n’entend pas / Pleurer des larmes de sang qu’elle n’en voudrait pas / Un tas de cendres me glisse entre les doigts / Elle m’oubliera”, a canção já entrega nos dez primeiros segundos a influência da banda de Morrissey com um arranjo que lembra inequivocamente ‘Some Girls are Bigger Than Others’, faixa de encerramento do seminal The Queen is Dead, de 1986. Até o efeito fade in o grupo francês fez questão de manter!

https://www.youtube.com/watch?v=G-ucAvjmZmM

A decisiva influência dos Smiths pode ser encontrada em diversas canções da Aline, mas isto não torna o trabalho do grupo francês uma mera imitação. Com muita personalidade, Guerret leva a banda para searas que os Smiths jamais pensaram em explorar durante sua curta duração, em especial no segundo disco La vie électrique, mais eclético e pop do que o LP de estreia. Esperamos que a sina dos ingleses não se repita, entretanto: Aline está há cinco anos sem apresentar novos trabalhos e nunca mais se falou do grupo na mídia francesa. Em uma busca profunda na internet, também não é possível encontrar atualizações a respeito do grupo. O site oficial, felizmente, indica que a banda permanece em atividade, embora sem atualizações a respeito de shows, futuros lançamentos ou qualquer coisa do tipo.

Convencido a dar uma chance ao grupo francês, leitor? O mais recomendável é ouvir logo os dois álbuns da banda na íntegra, Regarde Le Ciel e La vie électrique, a fim de aproveitar tudo o que a Aline pode oferecer. Ficou com preguiça ou está sem tempo? Não tem problema! Além das músicas que indicamos ao longo deste texto, não deixe de conferir as seguintes: do primeiro disco, ‘Teen Whistle’, ‘Elle et moi’, ‘Regarde Le Ciel’ e ‘Voleur!’; e do segundo disco, ‘Avenue des armées’, ‘Chaque jour qui passe’ e ‘Une vie’. Aline é uma dessas gratas lembranças de que não, o rock não morreu.

“Ne me demandez pas qui je suis et ne me dites pas de rester le même” Michel Foucault

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store