‘O Rebu’ é a prova de que sabemos fazer séries de qualidade

O recurso narrativo “quem matou?” — ou, se preferirmos, o whodunnit à brasileira — se tornou familiar aos espectadores do nosso país, sobretudo, por meio da teledramaturgia produzida pela Rede Globo. Talvez o caso mais famoso seja o da novela Vale Tudo, que parou o país em 1989 com o mistério “Quem matou Odete Roitman?”. Exemplos mais recentes, embora menos populares, incluem as novelas Celebridade (2001) e A Favorita (2008). Com exceção desta última, os autores usualmente optam por lançar mão do mistério nos capítulos finais a fim de fisgar a atenção do espectador, quase sempre cansado com a longa duração dos folhetins. Mas, e se o “quem matou?” deixasse de ser um recurso utilizado no arco final da narrativa para se tornar o argumento da trama, isto é, o eixo em torno do qual todos os personagens da novela circulam do seu primeiro ao último capítulo? Esta foi a proposta de Bráulio Pedroso em 1974 com O Rebu, telenovela de 112 capítulos que ganhou um bem-vindo remake pela Globo quarenta anos depois.

A segunda versão de O Rebu foi ao ar em 2014 na Globo, na faixa que ficou conhecida como “novela das onze”. Da trama da década de 1970 foi mantido apenas o argumento principal, de modo que os personagens foram atualizados e, diferentemente da versão original, logo no primeiro capítulo sabemos quem foi assassinado: Bruno Ferraz (Daniel de Oliveira), cujo corpo surge boiando na piscina de Ângela Mahler (Patricia Pillar), uma magnata do ramo da construção civil e anfitriã da festa. A narrativa é não-linear e os espectadores acompanham ao longo dos capítulos, em geral, somente dois dias na vida dos personagens: a noite da festa, quando o homicídio ocorre, e o dia subsequente, durante o qual a polícia investiga os convidados. Há algumas inserções de flashbacks anteriores à noite do crime que visam explorar o perfil psicológico dos protagonistas, mas estes são utilizados oportunamente, sem jamais destoar do foco principal da trama, isto é, o assassinato.

O roteiro, assinado por George Moura e Sérgio Goldemberg, é instigante desde o primeiro capítulo e apresenta ganchos interessantíssimos. A trama captura com facilidade a atenção do espectador e é bem-sucedida ao apresentar satisfatoriamente um amplo leque de personagens. Aqui, contudo, começam a aparecer alguns problemas: em vez de focar as atenções nos convidados — e, portanto, suspeitos -, os quais já são muitos, o roteiro decide também se ocupar com personagens secundários, como os policiais que investigam o crime. Trata-se, acredito, de uma consequência da opção da emissora carioca por um formato equivocado: a história de O Rebu poderia ser muito mais interessante, objetiva e até mesmo palatável para o público da televisão aberta se tivesse sido pensada como uma minissérie e não como uma telenovela. O resultado desta escolha da Globo resulta numa trama que, por vezes, se dispersa quase que forçosamente, apresentando sequências que não escondem o objetivo de “encher linguiça” a fim de se atingir o tempo desejado de exibição do capítulo pela emissora. Desta forma, o roteiro e a montagem, espetaculares se avaliados num panorama geral, ficam, por vezes, comprometidos pela opção equivocada de formato — ainda assim, reitero, conseguem segurar o interesse do espectador de modo satisfatório, mesmo na metade final, quando já começam a dar sinais de perda de fôlego.

A estética de O Rebu, em especial a fotografia de Walter Carvalho, marca claramente sua diferença para os folhetins das faixas de horário tradicionais da Rede Globo. A obra anseia em ser mais cinematográfica do que televisiva, apresentando uma paleta de cores frias e movimentos de câmera impensáveis para uma produção folhetinesca até a década de 2000, por exemplo. Neste sentido, O Rebu eleva a qualidade das produções televisivas da Globo para outro patamar, dialogando ora com uma estética das séries dramáticas estadunidenses, ora com diretores clássicos como Alfred Hitchcock, Martin Scorsese e Billy Wilder. A produção de arte, por sua vez, também colabora decisivamente com todos estes aspectos aqui mencionados. O que não agrada neste aspecto é a forçosa tentativa de incluir a tecnologia na história, com diversas sequências mostrando a fictícia repercussão de acontecimentos da festa no facebook. Embora a rede social ainda seja extremamente popular no momento que escrevo este texto, esta escolha da direção soa não apenas inatural, como também, de certa forma, já datada.

Nem só inspirações estéticas norte-americanas e flertes com as redes sociais, contudo, marcam a novela de 2014. Os diálogos de O Rebu possuem aquele quê de folhetim brasileiro, pecando, por vezes, pelo excesso de dramaticidade ou pela desnecessária exposição daquilo que as imagens nos contam por si só. Infelizmente, trata-se de outra consequência da escolha da Globo em formatar a obra como telenovela, ambicionando atingir um público mais amplo, ainda que deslocada para uma faixa de horário na qual se pressupõe uma audiência mais madura. A questão é que, em virtude de sua não-linearidade e dinâmica ágil, O Rebu se torna uma trama, no mínimo, inconveniente de ser acompanhada diariamente num horário fixo. A sensação que temos ao assistir a novela em sequência no streaming é que o formato ideal seria — e peço desculpas ao leitor por insistir neste ponto — de uma minissérie de poucos capítulos, fosse ela exibida diária ou semanalmente. Isto explica, certamente, a audiência muito abaixo daquela esperada pela Globo.

Se O Rebu decepciona pelo formato inadequado, a novela compensa com todas as qualidades aqui já mencionadas e muitas outras. O trabalho de casting é notoriamente brilhante e teve o cuidado de misturar figurinhas carimbadas do elenco global com nomes desconhecidos do grande público. Mesmo os atores da Globo, contudo, entregam uma performance que em nada lembra as atuações típicas da teledramaturgia da casa, de modo que conseguem, mesmo apesar de já conhecidos, sumirem atrás dos personagens que interpretam. É o caso de Patrícia Pillar (em um dos melhores trabalhos de sua carreira), Tony Ramos e Cassia Kis Magro, por exemplo, o experiente trio de protagonistas cujo trabalho é impecável. Daniel de Oliveira, este menos presente nas produções televisivas que os anteriores, também entrega uma atuação digna de seus trabalhos no cinema nacional. Alguns outros nomes não tão inspirados durante as gravações, como a dupla de policiais vivida por Dira Paes e Marcos Palmeira ou Sophie Charlotte, não comprometem, embora destoem visivelmente da entrega ao papel de outros artistas.

Um último destaque que merece espaço é a escolha da trilha sonora, completamente fora dos padrões das produções televisivas contemporâneas. New Order, The Cure, Nina Simone, Gloria Estefan e Tame Impala são alguns dos nomes responsáveis por embalar as cenas da trama de 2014. Dentre os artistas nacionais, destacam-se Angela Ro Ro, Chico Buarque, Jorge Ben Jor, Maysa, Milton Nascimento e Caetano Veloso. Trata-se de uma mescla bastante interessante e nada óbvia que resulta em sequências memoráveis e contagiantes. ‘Bizarre Love Triangle’, do New Order, canção que diz muito sobre a trama principal em torno do assassinato, por exemplo, é tocada repetidas vezes ao longo dos capítulos sem nunca perder seu charme. Uma pena não terem aproveitado a música para a abertura!

Enfim, O Rebu se apresenta como uma obra de caráter bastante singular na teledramaturgia brasileira e representa um passo importante da Rede Globo na direção de obras que priorizam qualidade, revelando um esmero com detalhes antes negligenciados pela emissora. Embora tenha sido formatada como novela, a produção é, quase que paradoxalmente, uma prova definitiva de que sabemos, sim, como fazer séries e minisséries de qualidade. O leitor neste momento pode se perguntar: vale dedicar meu tempo a este “quem matou?” de 36 episódios? Sim, certamente! Apesar de suas escolhas equivocadas aqui expostas, O Rebu é uma produção muito mais bem acabada, interessante e fascinante do que grande parte de séries e filmes estadunidenses distribuídos por streaming que se tornam populares no Brasil somente por serem, bem… estadunidenses.

O Rebu está disponível na Globoplay.

“Ne me demandez pas qui je suis et ne me dites pas de rester le même” Michel Foucault

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