Além do Fim da Interface

Explorando o futuro das nossas interações


O termostato que sabe a hora que você chega em casa e ajusta a temperatura sozinho. A geladeira que prepara a sua lista de compras e controla a sua dieta. O carro que recebe informações do tráfego na cidade e dirige pela melhor rota por você. Sensores em tudo. Tudo conectado a grandes bases de dados e à internet. O futuro aponta para objetos, casas, cidades inteligentes.

A internet das coisas é a “the next big thing” no universo de experiência do usuário. Tudo está ou estará conectado. Mas como nós, seres humanos, nos conectamos a tudo isso e controlamos tudo isso? Vejo muito sendo dito sobre esta rede sendo alimentada por dados que entregamos de forma passiva, natural (?), invisível, através de todo tipo de sensores. O que não podemos esquecer é a necessidade que sempre existirá de algum nível de controle, interações ativas, intencionais. É nessa hora que geralmente entra um aplicativo no smartphone, o comando de voz, a telinha touch no termostato, alguma interface em que é possível alterar as ações das coisas. E isso não me soa muito compatível com um futuro tão evoluído.

Interfaces

Interface é um meio, físico ou virtual, que promove a comunicação entre dois ou mais agentes. Há um tempo atrás o movimento “the best interface is no interface” ganhou atenção no que se refere a interfaces gráficas digitais. Como referência, você pode ver este post do designer Golden Krishna. Particularmente, achei sua análise limitada, apoiada em exemplos de uso errôneo de interfaces para resolver problemas relativos a interações com objetos físicos, casos em que as interfaces poderiam ser facilmente eliminadas. Não que eu não acredite na ideia, pelo contrário. Realmente transformamos nosso ímpeto de projetar interfaces em telas em um vício do qual precisamos nos livrar e lembrarmos de projetar experiências, antes de projetar interfaces.

Mas e as interações com coisas intangíveis, como informação? Como você estaria lendo este texto se não fosse através de uma interface? Como ler um livro digital, como consumir uma notícia? Como trocar mensagens com seus amigos e visualizar as fotos do fim de semana? Ou ainda, como controlar ativamente alguma funcionalidade digital, como a temperatura no seu termostato inteligente — passando para ele um novo dado?

Como consumir e interagir com informação digital sem interfaces?

Se quisermos pensar nessa possibilidade de verdade, precisaremos observar as tecnologias que já estão se desenvolvendo agora com um olho no futuro. A tecnologia evolui para que as interações sejam as mais naturais possíveis: o input de dados passou por teclado, mouse, touch, voz, sensores. O output (resposta da máquina) passou por telas com gráficos, som, vibração, realidade aumentada. Até que chegamos, talvez no limite do natural: a interação cérebro–máquina. Na minha visão, esta sim é a “the next big thing”.

Brain Computer Interface (BCI)

Provavelmente, você já ouviu falar pelo menos da aplicação de BCI na medicina, para pacientes impedidos fisicamente de se comunicar. Esses pacientes fazem input de dados diretamente do cérebro para o computador através de eletrodos que captam a atividade cerebral. Existem também diversos experimentos com soldados que perderam uma perna ou um braço controlando próteses apenas com o pensamento, e no Brasil vimos o primeiro chute da Copa de 2014 dado por um exoesqueleto controlado pela mente.

Agora vamos além da aplicação medicinal. Imagine que você presencia um acidente de trânsito e, apenas com sua atividade cerebral, seu Google Glass já tirou uma foto da placa do veículo envolvido. O MindRDR faz isso para você. Em jogos, uma experiência mais imersiva é possível pela leitura das emoções do jogador e envolvimento das mesmas no jogo. Existe até uma conferência de NeuroGaming. Os carros autodirigíveis já são uma realidade, mas dificilmente entregaremos total controle aos mesmos. Imagine que você possa intervir quando necessário somente com um pensamento. O Think and Drive, um projeto de estudantes de engenharia na Índia, permite alguns controles simples diretamente do cérebro para dirigir um carro. As possibilidades de controle de utensílios da casa pela mente são infinitas e bem mais empolgantes do que controlar os mesmos através de um aplicativo no celular.

Já entendemos que BCI pode ser utilizado para comandos, para input de dados nas máquinas. Mas e o retorno de dados da máquina para o cérebro, a informação que eu quero obter? Experimentos vêm sendo realizados com diferentes formas de estímulos ao cérebro. O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis (responsável pelo primeiro chute da Copa) tem pesquisas avançadas no campo. Uma das mais recentes liga, através de BCI, cérebros de dois ratos para completar tarefas. Um dos ratos recebe informações do outro através de impulsos elétricos (neurofeedback) no seu cérebro e entende que deve agir.

neste experimento realizado em humanos, estímulos magnéticos não-invasivos são utilizados para comunicação cérebro-cérebro. Eles estão jogando um jogo com uma tarefa simples de atirar para salvar uma cidade. O primeiro sujeito sabe o momento em que o botão deve ser pressionado para atirar, mas somente o segundo sujeito tem acesso a este botão. A informação é coletada do cérebro do primeiro sujeito através de um EEG (eletroencefalograma) e introduzida no cérebro do segundo sujeito através dos estímulos magnéticos na região motora, causando a resposta desejada pelo primeiro sujeito (o movimento do dedo para apertar o botão).

A natureza, a qualidade e a quantidade dos dados que uma máquina consegue passar para o cérebro através de estímulos ainda é extremamente limitada. Estes estímulos ocorrem em nível inconsciente e é difícil imaginar sua aplicação para recebermos informações mais complexas do que comandos motores, como conteúdo no nível consciente. Mas por mais distante que estas ideias estejam, sabemos que a evolução da tecnologia é uma questão de tempo.

O futuro das interações

No momento em que BCI e neurofeedback forem uma realidade presente nas nossas vidas, vamos experimentar uma revolução na forma como interagimos com as coisas, uns com os outros, com o mundo. Abre-se um mar de dúvidas:

  • Quais serão os novos conhecimentos necessários para projetarmos experiências? Biologia, neurosciência, além da psicologia?
  • Qual linguagem será falada entre softwares e cérebro, a semântica, o protocolo?
  • Como separar pensamentos involuntários de comunicações intencionais?
  • Se eu posso passar uma informação para uma máquina e a máquina pode passar a informação para o meu cérebro, ela poderá passar essa informação para outros cérebros também. Será o início da telepatia?
  • Dado que possamos nos comunicar telepaticamente, a linguagem (o idioma) ainda será necessária? Ou passaremos a trocar simplesmente dados das nossas sinapses de forma direta?
  • O input de dados da rede para o cérebro será consciente ou inconsciente? Quais a implicações de ser inconsciente?
  • Será feito o download da informação no cérebro e então o usuário simplesmente tem aquele conhecimento na sua memória? Assim sendo, teríamos a capacidade de distinguir entre lembranças de experiências que vivemos e informações que “baixamos”?
O download da informação diretamente para o cérebro em The Matrix (1999)
  • O potencial de conhecimento humano vai aumentar exponencialmente com o simples download de informações? Qual será o limite do cérebro? Haverá a busca pela otimização de nossos “discos rígidos”?
  • Será possível hackear a transferência destes dados? Roubar ou implantar informações que o usuário não deseja no seu cérebro? Como garantir a segurança das informações transmitidas?
  • Se até hoje não temos uma legislação que regule decentemente o uso da internet, como as leis vão se comportar diante de problemas que podem envolver interações com BCI?

Pode parecer ficção científica (lembre-se de que muito do que você já viu nos antigos filmes sci-fi é hoje uma realidade banal). Sequer sabemos se BCI será bem aceita pela humanidade para além de propósitos medicinais. Não é possível afirmar se esta é uma experiência que os usuários vão considerar agradável e desejável. Mas minha aposta é de que algum dia estas tecnologias estarão, sim, difundidas. Será somente nesse momento que, talvez, não existirá a necessidade de interfaces gráficas digitais. Teremos apenas eletrodos conectando diretamente nossos cérebros à grande rede e aos mais diversos softwares dos mais diversos devices. Então tudo será unicamente experiência.

ux globo.com

Keep learning, keep designing