Guia para palestrar em eventos da sua comunidade profissional (parte I)

20 dicas práticas para você que quer palestrar (ou já palestra) em eventos da sua área profissional, especialmente tecnologia e design.

Há uns 6 anos, comecei a frequentar eventos relacionados a design, tecnologia e empreendedorismo. Conferências, meetups, desconferências, coisas do tipo.

Numa dessas desconferências da vida, houve uma brecha para palestrar, e eu aproveitei. A partir daí comecei a me interessar em desenvolver a habilidade de falar bem em público.

Segui frequentando eventos da área, tais como The Developers Conference, o Interaction South America, e em 2016, o Interaction. Tornei-me um cara que submete palestras todos os anos, e felizmente é aceito na maior parte das vezes. Em 2015, criei a UXConf BR junto ao Pedro Belleza, Rafael Helm e Daniel Wildt. Todos eles têm em comum o fato de serem considerados "eventos de comunidade tribais" (ver #2: Know What Type of Event you‘re Creating).

Com essas experiências, aprendi uma série de boas práticas que ajudam muito o desempenho de um palestrante. Esse aprendizados foram se tornando explícitos com a ajuda de profissionais de oratória e dicção (Bianca Aydos), palestrantes onipresentes como o já citado Daniel Wildt (que já palestrou muito por aí), Franz Figueroa, Alex Primo e Nancy Duarte, através do seu livro Ressonância.

Essas 10 dicas abaixo são para quem deseja expor suas idéias dentro do seu âmbito profissional, no meio acadêmico ou de empresas, para um público de especialistas ou de generalistas. Tomem a minha palavra de que segui-las não deve fazem mal a ninguém. Para mim, têm feito muito bem até aqui :)

1. Encare a platéia de frente

Para começar, uma bem simples e aprendida com o doutor Primo: nada de ficar olhando para o telão que está atrás de você, ou com o corpo virado de lado para o público. É uma questão de etiqueta. Uma das poucas ocasiões onde é ok quebrar essa regra, é se você precisar escrever alguma coisa num quadro.

Yara Senger apresentando DE FRENTE o #TheDevConf 2016.

2. Não passeie pelo palco, nem faça gestos de mais

Visualize o Axl Rose, o Mick Jagger ou o Angus Young num palco gigantesco, no auge dos seu atletismo, correndo de uma ponta à outra desse palco. Agora esqueça, pois apresentar uma palestra não tem nada a ver com isso.

Na minha percepção — e dos caras que organizam o TED, pois basta observar que os palestrantes nunca saem do tapete vermelho, e raramente ficam zanzando dentro dele — ficar andando de um lado para ou outro só passa a ideia de nervosismo… e você não quer passar essa ideia, mesmo estando nervoso(a), certo? Risos. Nervosos. A mesma coisa para gestos excessivos com as mãos ou com os braços, que acabam atraindo muita atenção.

Ao invés disso, siga a ideia do mestre Wildt e se movimente estrategicamente, como no xadrez. Exemplos:

Assim são as coisas hoje. Lá em 2012…
(Nesse momento você dá um passo para trás.)
Como desenvolvedor, sou uma pessoa que que pensa logicamente. Já o meu colega designer, por exemplo…
(Dá um ou dois passos para o lado, se colocando na posição do "outro")

PS: não é legal gastar a sola do sapato como ele faz nem no evento da firma, ok?

3. Não fale palavrão (de graça)

Vamos combinar, falar palavrão num evento mais formal, nem pensar. Num evento mais informal, ok, mas com algum motivo que o justifique: se você for do estilo Dercy Gonçalves e isso tiver tudo a ver com a mensagem que quer passar, ou se quiser expressar sua indignação e ela não couber no português mais polido. Mas vamos com calma, p****!

4. O seu tempo é precioso, e o deles também

Já vi essa afirmação sendo menosprezada, em diversos contextos. No contexto de uma conferência, parece que essa desconsideração toca num ponto nevrálgico: ao extrapolar seu tempo de palestra (20, 30, 60 minutos…), você não se importa com o tempo de 100, 200, 500 ou 1.000 pessoas que vieram lhe assistir. Só vale descumprir essa regra quando o público pedir bis, e a organização mais os palestrantes seguintes estiverem de acordo.

Eu e Pedro sendo os "psicopatas do tempo" na UXConf BR 2016.

Aqui cabe falar que é importante explorar as pausas ao falar (aquelas que dêem ênfase ao que foi falado antes e que não durem uma eternidade). Eventualmente, algumas pessoas gostam de falar rápido por uma questão de estilo pessoal ou porque tem muito a dizer em pouco tempo. Por outro lado, falar arrastado demais é algo que causa sono.

Na dúvida se a sua palestra vai caber ou não o tempo que lhe foi destinado, no seu ritmo, siga fiel e cegamente a próxima dica.

5. Ensaie no mínimo umas 5 vezes

Claro, isso vale sobretudo se for apresentação de até 20–30 minutos. Cinco vezes é um número que eu considero razoável, já ouvi dizer que o ideal pode estar entre seis e oito vezes.

Aqui vale a pena testar a palestra diante de amigos e colegas de trabalho. Família também. Eu já tive vergonha de ensaiar na frente do espelho. Você também já teve, não é? Vamos parar para pensar um pouquinho nisso. Se você tem vergonha do espelho, imagina diante da geral do Grêmio?

Tem também o caso de quem tem vergonha de ouvir sua voz ou ver sua imagem gravados. Que tal gravar só os 5 primeiros minutos e analisar a abertura da palestra?

E ah, não é querer ser alarmista quando alguém lhe disser que ensaiar mentalmente é outra coisa. TEM QUE ser em voz alta (som de carimbo ou martelo se chocando contra uma superfície dura).

E não contente tenho uma última coisa, e nessa também não estou sozinho: quanto menor a palestra, mais ensaio ela requer.

6. Crie um "momento estrela" para sua palestra

Essa eu pessoalmente considero uma das mais difíceis.

Não custa dizer, a essa altura do texto, que não sou palestrante profissional, não almejo isso e, portanto, algumas dessas dicas possam passar batidas por mim na hora do "vamo ver". Por todo mundo.

Momento estrela (ou star moment) é o nome que Nancy Duarte usa em seu livro Ressonância para descrever algo muito memorável dentro de uma apresentação. Outros chamam de efeito uau (wow effect). É uma associação tão forte que fica difícil de se esquecer dela, uma vez feita.

Star moment: Jobs apresentando o MacBook Air dentro de um envelope de escritório.

7. Cuidado com o termos muito técnicos (jargão)

Tudo bem você estar em um evento da sua área, talvez da sua especialidade. Mas não custa lembrar que podem ter pessoas com níveis de conhecimento distintos, então é de bom tom lembrar o que significam alguns termos óbvios. Quais são eles? Em dúvida, faça uma breve pesquisa com pessoas que conhece ou pergunte para a platéia lá na hora.

8. Contraste é tudo

Contraste nos slides, contraste de ideias. O primeiro eu vou demonstrar com uma imagem:

A pegadinha dos projetores de slides. Capriche no contraste.
Slide no telão = Slide como ele é no seu computador MENOS 70% de opacidade DIVIDIDO por 100

Em suma, quando em dúvida, opte por cores de alto contraste (preto no branco).

Sobre o contraste de ideias, isso é outra coisa que também tirei do livro Ressonância. Usar ideias que se diferenciam entre si (como era vs. como é, ou como é vs. como poderia ser) é uma boa forma de reforçar o valor daquilo que você defende. Mais sobre isso no item 4 desse outro post:

9. Tamanho da fonte: o que você quer que seja lido mesmo durante a apresentação?

Essa complementa o item anterior. O tamanho dos textos da sua apresentação devem ser grandes o suficientes para serem lidos, se é isso que você deseja.

Mas Thiago, por que alguém botaria um texto nos slides da apresentação se não quer que ele seja lido?

Boa pergunta. :)

O fato é que em alguns casos você vai ter que 1) dividir slides em dois ou mais para o texto ficar num tamanho confortável para seu público ou 2) eliminar textos desnecessários e que podem virar notas.

Sobre o tamanho ideal de fonte, essa discussão pode dar algumas ideias. Guy Kawasaki fala na regra dos 10/20/30 sobre como apresentar o pitch de um produto. 10 slides, máximo de 20 mins e fontes com um mínimo de 30 pontos.

Não deixe de ler os posts da Talita Pagani sobre apresentações acessíveis:

10. Som, vídeo e conexão à internet são sempre uma incógnita, então evite a fadiga

Usar exemplos audiovisuais como um vídeo no Youtube ou um música do seu computador podem ajudar a tornar sua mensagem mais rica ou convincente.

Na prática, isso pode ser frustrado pelo fato do lugar não ter internet, ou não ter uma saída de som, ou quando tiver, ela não ser fácil de configurar.

A boa notícia é que tudo isso tem solução, basta seguir essas precauções:

  • Baixe o vídeo para sua máquina.
  • Certifique-se que o vídeo tem legenda, para o caso do som não funcionar.
  • Chegue mais cedo e teste a saída de som do lugar.
  • Não dependa de conexão à internet.
  • Se for o caso de uma demonstração de software, faça com que ele rode localmente na sua máquina.

Curioso para saber outras dez ou mais dicas como essas? Fique atento, me seguindo aqui no Medium ou acompanhando a UXConf BR via Facebook ou Twitter.

Fotos: Charlene Cabral para UXConf BR 2016, Fanpage The Developers Conference