[UX Writing] O texto: a volta dos que não foram

Li um ótimo artigo, há alguns dias, falando sobre como estamos na era do texto e de como a importância dele voltou. Este mesmo texto levantou pontos que, logo na primeira leitura, já me serviram de gatilho para escrever coisas sobre.

Se você ficou curioso sobre qual texto é, ótimo, eu tentei não fazer um nariz de cera mesmo. O artigo em questão é o Texto é tech, texto é pop, texto é tudo!, da Renata Ferreira, que eu nem conheço, mas já considero pacas.

Percorrendo pelos parágrafos que ela escreveu, a cada novo tópico, eu já concordava 95%, mas prestava atenção aos 5% questionadores(*) que eu tenho e sempre venho tentando manter, ou até aumentar. E, antes de continuar, em algum momento, seria importante você ler o texto dela, seja para concordar comigo, seja para discordar. A ideia não é estar certo, mas fomentar o debate.

Enfim, quando, em algum momento, a autora fala sobre a volta do texto, eu já começava a me perguntar para onde ele tinha ido, para então, ele voltar. Eu sei, eu sei, ela usou 'sentido figurado' para explicar o que acha — eu não sou tão literal, ou tão tapado. Mas, dois dos meus pontos sobre o texto são: 1) o texto nunca foi. Ele sempre ficou, mas ficou do jeito que o mercado achou melhor ditar e isso significa economizar o máximo possível na hora da criação de alguns tipos de texto; 2) se estivermos falando apenas do texto escrito, o assunto vai para um caminho, mas se estivermos falando dos outros tipos de textos (não-verbais), a conversa é outra.

Leia até o fim. Chegou aqui, não pode voltar.

Textos verbais e Textos Não-verbais

Para falarmos de texto é preciso se enveredar por algumas definições… Um texto é uma representação de linguagem. E a linguagem é uma das maneiras de expressão de sentimentos, pensamentos, ideias e sei lá o que mais. Talvez um linguista formado me dê um tapa virtual na cara por eu usar tantos termos da área com pouca propriedade, mas acho que não errei muito.

Então, se concordamos, temos pensamentos, sentimentos e ideias que são expressas através de uma linguagem e, esta representação se dá através de um texto. Legal. Se você pensou em uma pessoa falando, bacana, mas se estivermos “assistindo” a uma pessoa fazendo mímica, também teremos a expressão de ideias feita através de uma linguagem, sem qualquer som ou palavra emitida. Você já se ligou, né? Pois é. Um texto nem sempre é um conjunto de palavras escritas ou ditas, para alguém ler ou ouvir.

Quando você vê uma imagem que te passa uma mensagem, ali também há um texto que você lê e, a isso, claro, se dá o nome classificatório de texto não-verbal.

Se você tem licença para dirigir, você consegue ler facilmente esta imagem, certo? Pois é, o texto não-verbal diz claramente "proibida a ultrapassagem"…

Isso também justifica aquilo que você sente quando ouve uma música, que é apenas melodia, sem qualquer letra, nem uma palavrazinha de nada, e ainda assim, você consegue "ler" a mensagem, o clima, a atmosfera que aquela música passa. Não é incomum "ver" algo que uma música diz e essa mensagem dentro da melodia, geralmente, é propositalmente transmitida pelo autor — isso é muito do caralho!

E eu falei tudo isso porque, se olharmos para o mercado de conteúdo digital, o texto sempre esteve ali, mas as prioridades eram outras. Quero dizer que o texto nunca foi para poder voltar, mas que ele estava presente na festa, era um nerd tímido no canto de um sofá, sem falar com muita gente, assistindo às pessoas mais populares dançarem e beberem loucamente sem muita vergonha.

Um breve retrato do conteúdo digital em 2005

Para contextualizar… Quando comecei a fazer conteúdo para este mercado, lá em 2005, o texto verbal já tinha seu valor, afinal os e-commerces estavam loucos da vida, criando conteúdo para suprir toda a falta que o papel de um atendente tinha na loja.

Lembro-me que, na época, para tentar conseguir as especificações técnicas de um produto com a empresa fabricante, eu tinha que explicar que eu precisava saber quais eram os idiomas disponíveis em um jogo para poder informar o cliente virtual, quando ele acessasse a página para tentar comprar tal jogo. Isso te parece óbvio, não é? Pois é, em 2005, nem todo mundo pensava assim

Detalhando melhor: imagine, lá neste 2005, que uma importadora/distribuidora de jogos (de video-games mesmo) vende 3 mil cópias de um jogo em apenas uma tacada, para uma grande rede varejista. São mídias físicas vendidas num pedido só, com entrega para os próximos 10 ou 15 dias, antes do próprio lançamento do jogo. Os CDs (ou DVDs?), na época, já tinham uma previsão de venda e o varejista provavelmente faria um novo pedido, sem precisar devolver qualquer unidade por ter ficada presa no estoque (sem rebate).

Nesse cenário, um site concorrente, como o que eu trabalhava, um estagiário (eu) mandava um e-mail para o representante daquela fabricante pedindo informações como: “quais idiomas estão disponíveis no jogo, para que eu pudesse cadastrar as informações no site”. Até aqui você acha normal, só que o problema era que a empresa onde eu trabalhava, talvez, comprasse apenas 500 cópias daquele jogo. Resumindo, se o representante não fosse muito bróder, eu não ia receber aquilo até chegar o jogo físico no estoque.

Em 2005, o YouTube tinha sido fundado, o XBox 360 estava sendo lançado e estreava a série Supernatural (cheiro de mofo no ar…)

Esse contexto é só para você entender que, sim, o texto já era bastante importante, só que muitos profissionais não eram inteligentes o suficiente para perceber isso. Esse representante de vendas dessa distribuidora do jogo estava dando atenção para o cliente dele que mais vendia. Na época, isso significava lojas físicas.

De lá para cá, claro que o jogo virou, principalmente por causa do Google. Quando o site transformou o mercado de propaganda virtual com seu ranking nas páginas de resultado de busca, as empresas não viram outra saída a não ser seguir o que o Google ditava como regra para que seus sites estivessem bem ranqueados no buscador — consequentemente, aparecer mais, vender mais, etc. Ao documentar isso, o Google fez o SEO coroar o conteúdo como rei. Era o atestado que o conteúdo precisava para ganhar a relevância merecida no mercado.

Lembre-se: imagem também é trabalho de UX Writer

Mais uma vez, uso meu “enfim” para tentar concluir o raciocínio. Em partes, eu concordo bastante com o texto da Renata (leia o texto da moça!), mas eu também discordo. Quando afirmamos que o texto ganhou o lugar da imagem, sem especificar que estamos falando do texto verbal (ou texto escrito, texto com palavras, ou outro nome que o identifique), podemos estar cometendo um erro de manter a ideia de que uma imagem não é um texto.

Eu confesso que fico na dúvida acerca do nível técnico disso, mas, sinceramente, acho que todos devíamos saber que músicas, imagens, gestos e outras manifestações também produzem textos. Saber disso ajuda a interpretar melhor as inúmeras mensagens que o mundo nos passa — isso entra até no aspecto do Iluminismo Científico, que espero escrever sobre também, como neófito no assunto.

E, se você chegou até aqui e se sente frustrado por eu não dizer o termo UX Writing dentro do texto, saiba que, ainda que eu não tenha abordado “práticas específicas” de UX Writing, a importância acerca do texto no meio digital e os diferentes tipos de conteúdo (textuais, imagéticos e até sonoros) fazem parte do trabalho do UX Writer.

Quer dizer, vamos contextualizar…

Se você discorda do que eu acabei de dizer, volta lá no começo do texto e releia: textos verbais e textos não verbais. Uma imagem, um ícone, uma ilustração… Tudo isso tem um significado, uma mensagem a ser passada. E aí vem a pergunta: qual mensagem uma ilustração está passando em uma tela? Se você não sabe, bem, algo de errado não está certo nesta tela. Digo isso, pois, se a ilustração passa uma informação diferente daquela do texto, ou, pior ainda, contraditória, o entendimento vai pro vinagre.

Emojis podem ser o melhor exemplo de texto não-verbal hoje?

Colocar uma imagem junto a um texto verbal é um trabalho difícil e que precisa ser pensado, afinal, tudo é conteúdo. E, no cenário de hoje, ainda que o UI e o UXer (Designer de Interface e Designer de Interação, respectivamente) pensem no entendimento de uma tarefa dentro de uma interação, é bem provável que eles recorrerão ao UX Writer para saber se aquela mensagem faz sentido junto ao texto (ou, pelo contrário, se nenhum deles pensar nisso, é o UX Writer que precisa questionar o significado para ver se tudo aquilo faz sentido).

Depois de tudo isso, só uma pergunta: o que você acha? Deixa teu comentário por aí e vamos nos falando.


(*) Asterisco importante: esses 5% permanentes de questionamento que eu possuo é um “recurso” não apenas útil — talvez um traço de personalidade — , mas também importante em muitos projetos que participei.

Acredito que há várias razões para concordarmos e nos empolgarmos quando nos deparamos com uma ideia que nos agrada, que nos identificamos ou, mais ainda, essas duas coisas juntas.

Imagine-se numa reunião de empresa. Cinco pessoas numa sala, cada qual de uma área e vocês precisam propor uma solução para um produto. Em algum momento, um de vocês (que não é você), sugere algo e, de imediato, você é impactado positivamente com a sugestão. Logo na sequência você adiciona mais uma vantagem da ideia que seu colega teve e, não mais que 3 segundos, todos na sala estão ressaltando vantagens e benefícios dessa solução, atestando, a cada novo argumento, a excelência da ideia.

Não é difícil já ter passado por isso. A euforia do encontro de uma solução é até comum e essa celebração também a acompanha facilmente. Só que, é aí que entram os meus 5% permanentes de questionamento (acabei de perceber que eu nomeei isso pra sempre).

Neste contexto, quando percebo que concordo, que vejo a solução como algo bom, automaticamente eu ligo um mecanismo de boicotador da alegria mútua e começo a procurar os defeitos daquela solução. É o famoso jogar água na cerveja — ou, no leite com chocolate, caso você não beba.

E eu imagino que a partir deste parágrafo você me nomeou, mentalmente, como um grandíssimo canalha, mas, veja comigo: este meu mecanismo não é uma ferramenta para acabar com a alegria do grupo, ou para diminuir o mérito de quem propôs a solução, este é um recurso que uso para tentar antever problemas e já transformar a solução, tornando-a o mais eficiente possível.

Mesmo quando fui eu que dei a solução, neste ‘clube dos cinco’, eu também já ligo a máquina para pensar nos possíveis problemas que a fariam, por algum motivo, um possível percalço no nosso produto, na nossa área, na empresa como um todo, no negócio e até onde a minha ‘visão além do alcance chegar’ — ok, parei com as referências.

Até mesmo quando eu não consigo achar problemas na primeira análise momentânea, eu verbalizo a minha incapacidade de fazê-lo. Mais de uma vez, nessas reuniões, eu esperava a euforia baixar, me silenciava no meu ensimesmamento e então, soltava: “Será que não tem algum problema que ainda não estamos vendo?”. Regras de negócio, limitação de desenvolvimento, cunho legal, acessibilidade, segmentação regional… Tudo é válido para questionar uma solução quando ela ainda é uma recém-nascida. E, mais importante, não é uma questão feita apenas ao criador da solução. Talvez ele ainda esteja na fase do puerpério degustando sua solução e não consiga visualizar esses possíveis defeitos, então recorremos tanto aos presentes, quanto às pessoas que não estão diretamente ligadas à criação daquela ideia — e, claro, por fim, em algum momento questionaremos os usuários também… Mas vamos deixar isso para outro texto.