Não estamos tão mal assim.

(Ou: tem gente que está pior).

Tão desprezível, na minha humilde opinião, quanto “RS melhor em tudo” é “Brasil pior em tudo”. Temos nossos problemas? Ô, se temos. Tudo que vem “de fora” é melhor? Sempre discordei.

Aí você pensa “lá vem” que a parte boa do Brasil diz respeito às belezas naturais e à criatividade e positividade do povo. Muitos de nós somos criados a pensar assim, porém, às vezes, é necessário sair e dar uma voltinha para perceber que tanto nossa personalidade como povo pode não ser tão maravilhosa assim, quanto temos outros aspectos mais avançados que em “países de primeiro mundo” os quais nem imaginávamos. O auto-conhecimento é uma dádiva.

Eu tinha uma certeza na cabeça (e aí que está o problema — certeza baseada no que “me disseram”, não de ter estudado, pesquisado, vivenciado; cuide com as suas certezas): os EUA estavam muito à nossa frente em termos de igualdade de gênero. Ponto.

No final da semana passada, fui a um evento da área da publicidade chamado Caffeinated Mornings (comunicadores e café, um caso de amor ao redor do globo — aliás, já que estou mesmo comparando os países na cara dura, abençoado seja o café brasileiro, minha gente!). Quando vi que o tema deste mês seria “a mulher na área criativa da publicidade” pensei que, após ter participado de uma série de eventos sobre mulher no mercado de trabalho no Brasil, seria muito legal ter um contraponto de um outro lugar. Mas logo depois pensei “Putz, sério mesmo? Ainda?”. Bom, apesar de me espantar que isso continua sendo um assunto, mesmo por aqui, da inscrição até o dia do evento fui construindo uma expectativa de que a questão de gênero se limitaria ao primeiro slide, quando diriam que isso aí não tem nada a ver e iriam focar no processo criativo, sei lá.

Chegando ao dia do evento, não é que eu tinha acertado sobre o primeiro slide? “Não importa o gênero: para ser um bom criativo você basicamente precisa de senso de humor, entender de pessoas e captar a essência das marcas”. No entanto, depois disso veio um grande “MAS”, e a ele se seguiu uma série de informações realmente preocupantes.

Ok. As palestrantes foram convidadas para falar sobre “como é ser uma mulher no departamento-de-criação-assustadoramente-cheio-de-homens-das-agências”. Imagino que elas possam ter se sentido compelidas a “confirmar” que, sim, é muito difícil. Imagino que elas possam ter exagerado um pouquinho aqui e ali. Mas isso não anula o quadro Mad Men que foi pintado.

“Cuide com o que você veste” era uma dica. Você não vai querer “se distanciar” dos seus colegas de trabalho (homens) por usar salto. Cuide com o seu tom de voz (?!). Se você tem um timbre de voz meio “bebê”, é melhor dar uma engrossada na voz na hora de defender sua ideia, caso contrário ninguém vai levar você a sério. Não seja tímida, saiba se impor.

Relataram terem sido tiradas de campanhas de clientes maiores por serem mulheres. Relataram que estavam na criação só pra atender clientes do mercado feminino, pois “homens têm medo de rímel, produtos de limpeza e menstruação”. Relataram que ganham 20% menos que homens que elas mesmas indicaram para trabalhar na agência e que fazem exatamente (quando não menos) o que elas fazem.

Só pode ser brincadeira, é o sentimento.

Isso tudo significa que eu estou dizendo que não temos mais problemas de desigualdade de gênero no Brasil? Óbvio que não! E também me falta o conhecimento sobre como é ser mulher e trabalhar na criação de uma agência de publicidade brasileira especificamente. (Aliás, se alguma mulher nesta posição quiser se manifestar, seria incrível). Porém, sinceramente, eu não imagino que ainda estejamos nesse nível de problema. Por favor, que a minha visão corresponda à realidade, mas no Brasil podemos usar salto na criação sem que isso represente alguma coisa em específico, né? O que pensamos e produzimos está acima do nosso tom de voz, certo?

É realmente bizarro (e triste) que, apesar de podermos andar nas ruas aqui sem escutar de “parabéns” pra baixo, no setor de criação de uma agência de publicidade (as cabecinhas mais abertas do mundo, não é mesmo? haha) ainda se precise escutar piadinhas sobre “estar naqueles dias”.

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