We are alright: a realidade do “independente” no meio dos videogames

Bartek Pieczonka à esquerda e Rafal Zaremba, à direita

(Apesar de a classificação “independente” ser extremamente condenada por mim, dado que a padronização do termo passou a impor necessariamente características a uma obra dita independente, ainda que essa não as tivesse, de modo que empobreceu o que poderia ser um jogo dessa estirpe, a utilizarei como forma de facilitar a compreensão do que digo. A categorização independente remete, em um pensamento popular generalista, a jogos de pequeno e de médio porte — que, em geral, neste momento, são de estúdios que, antes menores, apresentaram crescimento em sentido financeiro — com fins sobretudo comerciais.)

2012 recebeu o que por muito tempo foi considerada documentação máxima de como desenvolver jogos pode ser uma atividade profundamente excruciante. Indie Game: The Movie relatou a história da produção de duas obras: FEZ e Super Meat Boy. No processo documental, expôs as diversas angústias e contratempos pelos quais seus criadores passaram. Ambos foram um enorme sucesso. E mesmo após anos de lançados, esses títulos continuam no subconsciente de muitos, fato que se deve principalmente ao contexto histórico no qual nasceram.

No entanto, você já ouviu falar do título independente Lichtspeer em algum momento? Provavelmente não. We are alright, documentário do fotógrafo e cineasta polonês Borys Nieśpielak, trata, também, disso.

Diferentemente de tantos outros trabalhos documentais, We are alright, em nenhum ponto do seu contar narrativo, romantiza o desenvolvimento de jogos. Embora frequentemente exiba os criadores de Lichtspeer se submetendo a sessões de crunch, que consiste, de maneira básica, em uma extensão da carga horária de trabalho padrão, e a um quase isolamento social, Borys não transforma a dor em um espetáculo que normaliza condições trabalhistas precárias e não as torna um ato heróico digno de glorificação, imagem integralizada ao que se intitula de indústria dos videogames devido a uma educação problemática provida pelo próprio meio.

Rafal Zaremba

Em grande parte, o documentário é muito mais sobre as vidas de Rafal Zaremba e Bartek Pieczonka, responsáveis por Lichtspeer, do que a obra em si. O ordinário é o protagonista e o mundano é o que constitui todo o corpo de We are alright, que pouco está preocupado acerca de uma exaltação do grandioso. Nele, o jogo assume um papel de mito, e ainda que se trate da real razão que orienta e determina as ações dos que se encontram ao seu redor, não é referenciado como o agente, porém, como um objeto que possui uma transitoriedade entre o passivo e o ativo, habilidade evidente na construção narrativa. Ademais, de modo constante há um sentimento pessimista sobre o título, que, no fim, aparenta ter morte iminente, mesmo sem ter sido parido, o que reforça a atmosfera de irrealidade em torno dele (um deus distante).

No que tange à formação de caráter dos desenvolvedores, Borys provê foco não exatamente no exercício prático do fazer jogos, mas no que está em torno da atividade. Porém, não flerta com uma constituição de natureza por meio de artifícios de narrativa própria e assumidamente diretos, mas através do resultado de acontecimentos específicos dentro do que é contado ao expectador. Através da captação e significação gráfica de uma série de pormenores oriundos do íntimo explorado de cada um dos criadores, o documentário elabora um ambiente que vai além da tentativa de uma pseudo-humanização e atinge um ponto no qual a transformação de um indivíduo que a priori frio poderia ser frio para quem o assiste possui tamanha organicidade que o seu processo pouco é sentido.

Em seu âmbito mais concreto, We are alright levanta questões muito pertinentes acerca de publicação digital em lojas virtuais, quer sejam de consoles, quer sejam de computador. Em um momento em que absolutamente qualquer pessoa é capaz de publicar um jogo no Steam, a biblioteca torna-se um vasto mar no qual inúmeros peixes são visíveis, porém somente os maiores são de fato capturados, uma vez que um menor pode não se tratar de um verdadeiramente proveitoso. Dessa forma, obras com potencial são engolidas em meio a uma enxurrada de títulos, o que dificulta progressivamente uma melhor curadoria e seleção por parte dos usuários da plataforma.

Tal situação apresenta-se, sob determinada ótica, como uma metáfora ao próprio status dos desenvolvedores. São, em primeira análise, apenas mais alguns desejando conquistar um minúsculo espaço em um meio carregado fortemente de saturações, que se mostram cada vez mais intensas conforme sua expansão ocorre. De maneira semelhante ao destino de sua obra, a dupla se faz presente em uma vasta extensão marítima, cujos peixes procuram constantemente um modo de exibir originalidade e singularidade, capacidades que, no fim, são observadas em outro, que é selecionado não por essas, mas simplesmente pelo fato de ter sido visto.

Sensação que corrobora a atmosfera natural criada a partir de uma organização artificial é o temor latente do esquecimento. O medo da dupla de desenvolvedores não se resume somente a não serem vistos, mas serem completamente esquecidos após possuir quer visibilidade que seja, fenômeno constante principalmente no meio de jogos comerciais de pequeno e médio porte. No mar que acomoda centenas de milhares de peixes, não há apenas o desejo por ser visto, mas por se esvaecer da memória após a degustação de um experienciador.

Ainda acerca desse aspecto atmosférico, o pessimismo exprimido direta e indiretamente pela de narração de We are alright aparenta ser o eixo que move os seus agentes e a sua passividade. Nem o humano nem a estrutura de narração do documentário esperam que haja uma conclusão minimamente feliz para nenhuma das partes. Ele expõe uma realidade crua que poucos se propõem a admiti-la de modo voluntário. Nele, há uma transparência de que esse real pode entrar em colapso e destruir definitivamente a concretização do objeto mitificado pela obra documental.

Lichtspeer

We are alright não toma o jogo como seu pilar fundamental. Na verdade, seu cerne encontra-se no humano e nos pormenores individuais. Sua capacidade de não romantizar o que a cultura de que fala determina que é passível de glorificação é uma forte contribuição na alteração de uma educação histórica essencialmente tóxica.

O documentário de Borys Nieśpielak não é sobre videogames, mas substancialmente acerca das pessoas que o fazem e a realidade verdadeira da qual muitos fazem parte. Deixemos 2012 para trás e partamos para a maturação.


Este texto foi escrito a partir de uma cópia de We are alright da versão encontrada no Steam providenciada via email por Borys Nieśpielak. O documentário também está disponível na Amazon