Christophe Vorlet — Urban Development, 2004

O resto que me resta

Um dia pego minhas tralhas e sumo.

Cansei desse ambiente petrolífero. Há petróleo nos carros e no asfalto e tudo gira em torno do líquido preto e espesso que torna grossos os modos e fino o sangue de quem aqui fica.

Juro que qualquer dia eu me mando daqui.

Estou farto desse ecossistema concretado. Há concreto nas pontes e nos prédios e tudo é constituído do sólido cinza e rígido que endurece a alma e amolece a mente de quem nele habita.

A chuva, que por aí penetra o solo e produz vida, aqui martela o asfalto e irriga os ralos, não sem antes germinar o caos. É a terra das ruas alagadas e corações áridos.

Não suporto mais gerar planilhas, documentos, relatórios e slides. Quero produzir algo mais que bits e bytes.

Um tomate, que seja.

Nem me lembro da última vez em que coloquei o pé descalço no chão. Não no piso frio da cozinha ou quente do asfalto. O verdadeiro chão, aquele da infância. Quero encardir o pé até ser obrigado a arear com escova ou pedra-pomes para poder enxergar as linhas da sola.

A metrópole me atrai e, como um imã, não me deixa partir. O carro, o apartamento, o emprego, a família, o shopping, as facilidades. Encontrar um restaurante aberto às 3 da manhã.

Às favas com a comida notívaga. Quero ouvir o coaxar dos sapos às 3 da manhã.

Aqui nunca temos, nunca somos.
Queremos ter o próximo modelo. Queremos ser o próximo objetivo.
O que queríamos ser e ter não valem mais, se já tenho ou já sou.
Evaporou.

Sei que o concreto moldou meu ser e que sou demasiadamente urbano.
Mas o resto que me resta de humano me diz que um dia ainda eu vou mudar.

Aí você vai se perguntar: “cadê aquele cara?”

E ouvirá apenas o som das buzinas e das sirenes como resposta.


Esse texto faz parte da série “Toque Musical” — textos levemente inspirados por músicas que meu som toca e me tocam.

Zé Geraldo — Demasiadamente Urbano

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