Lua Cheia na Sarvinda (parte 2)

Voltamos da nossa pequena expedição para a área habitacional onde estamos alojados — denomina-se “Casas” em distinção às outras três áreas habitacionais, à saber: “Palheiros”; “Ferros”; e “Camping”— . Eu, contente com o meu novo artefato, pus-me à estudar formas de fazer um pequeno furo ao chifre do Alce de forma à trespassá-lo com um fio e transformá-lo, portanto, em um colar. A Laura lembrou-se de colocar a bateria da câmera fotográfica para carregar e preferiu preparar um café-com-leite — seria necessário, afinal, a noite seria longa à espera da Lua Cheia.

A tarde caiu. O céu, azul, começou à tomar tons alaranjados e arroxeados, criando um belo contraste. O café-com-leite ficou pronto e deliciamo-nos à espera da Lua Cheia. Por volta das 21:30, ela surgiu por detrás das montanhas. Amarelada, redonda, brilhante. “Perfeição” seria pouco para descrevê-la. Sorrimos os dois, abraçados: sentiamo-nos abençoados por toda a experiência. A decisão de sair da nossa zona de conforto na Ilha da Madeira, toda a viagem — sem rumo ainda bem definido, no início — e as dificuldades pareciam estar sendo recompensadas com a bela vista.

Inspirei profundamente. O ar puro da montanha, mas seco por tratar-se da Beira Baixa lusitana. O fim do dia / início da noite, mesclando diferentes tonalidades e cores no céu, era apaixonante. Nós tinhamos a certeza de que fizemos a escolha correta: quantas pessoas sonham com uma vida de liberdade? Quantas pessoas almejam distanciar-se de todas as mazelas de uma sociedade injusta, desigual, materialista e individualista? Mas quantas pessoas tem coragem de romper com tudo isso e ser feliz?

Nós sabíamos que eram poucas as pessoas dispostas à deixar tudo para trás em busca de um sonho.

Sentiamo-nos felizes, acima de tudo, por sermos essas pessoas. Nós olhávamos encantados para a Lua Cheia — ainda crescente no Céu -, quando o barulho de motor de carro interrompeu-nos dos pensamentos dos quais estávamos absortos. Era a chegada de Luis “Kolméia”, nosso parceiro-residente no Vale da Sarvinda. Desligou o motor e desembarcou do veículo. Vinha junto do filho, Miguel, de 11 anos. Fomos apresentados e abraçamo-nos todos. Era exatamente isso que precisávamos: mais gente para compartilhar esse momento especial conosco.

Miguel, apesar da pouca idade, mostrou-se um talentoso cozinheiro, principalmente na mistura dos temperos — algo que aprecio bastante. Os bifes de carne, suculentos, foram acompanhados de sumo de laranja e com pães caseiros do Vale. Uma refeição simples, mas deliciosa, como é a vida no campo.

Essa noite, nós ceiamos à luz da Lua Cheia dos Cervos e celebramos a nossa vinda. E a Sarvinda!