A importância de imaginar o amanhã

by Victor Allenspach

Dizem que nós devemos viver o agora, deixar o passado para trás e esperar o futuro acontecer. Existe muita verdade nesse conselho, principalmente para os mais ansiosos. Mas sem pensar a nossa História, somos incapazes de aprender com o passado, e sem imaginar o futuro, como faz a Ficção Científica, não podemos decidir onde queremos chegar. É essa a questão, não é? Onde queremos chegar?

Todo mundo já pensou o amanhã, seja a eleição do próximo presidente, a reforma da casa, o término da faculdade, a final do campeonato. O futuro faz parte de nossas vidas, mas quase sempre estamos restritos a nossos objetivos pessoais. Qual foi a última vez que você parou para pensar em como será o mundo?

Parece distante do nosso alcance, mas é um exercício tão importante quanto planejar uma faculdade ou um filho. Também é fácil, tente por um momento.

Você imagina cidades cheias de carros, como a indústria automobilística nos convence a décadas? Muros altos, que afastam pobres e minorias indesejadas da população “de bem”? Violência e guerras? Ar-condicionado e dessalinizadores para sobreviver em trópicos desertificados? Paraísos em planetas distantes, que apenas os ricos podem pagar?

Ou você imagina um futuro com muita diversidade, de pessoas vivendo sem conflitos ou pobreza? Temperatura agradável, água abundante e limpa para beber, nadar e irrigar as plantações? Mais jardins, árvores, agricultura urbana e menos asfalto? Sem engarrafamentos, poluição e lixo? Sim, porque nós fazemos muito lixo.

Seja por temer o que estamos fazendo com o mundo, seja por otimismo injustificado, o importante é imaginar o futuro. Somente quem imaginou as seguras e ecológicas cidades em que sonha viver um dia, pode lutar por uma legislação mais rigorosa para a indústria poluente, um regime de impostos que não concentre renda, mais orçamento para a Ciência, a Saúde e a Educação.

Talvez eu precise reformular a questão de início. Estamos dispostos a pagar o preço por um mundo melhor? Ou vamos insistir em nossos erros convenientes?

Para responder a essa questão, a Ficção Científica se utiliza da literatura, do cinema e até do rádio, popularizando as ciências exatas e humanas. Através dos futuros mais improváveis, ou não, seus autores exploram as benesses e os perigos das diferentes formas de governo e controle, das classes sociais e da discriminação, da ética e da ciência.

São tantas possibilidades e contribuições, que uma pessoa jamais poderia imaginar sozinha. Essa é a maravilha da diversidade, fonte de inspiração para definirmos nossas prioridades de hoje, mas que de nada serve se as pessoas não absorverem conteúdo e se tornarem capazes de pensar por si mesmas. O que falta no mundo não são pensadores, mas leitores e sonhadores.

Afinal, quando vamos abrir mão de nossas supremacias e exércitos nacionais para construir um governo mundial, como Isaac Asimov imaginou? Quando vamos aumentar o controle sobre as multinacionais e governos, para não cair em uma distopia de Philip K. Dick ou William Gibson?

Mais importante, quando vamos distribuir as riquezas para fazer do mundo um paraíso de Arthur C. Clark, e superar nossos preconceitos, para construir uma sociedade diversa e multicultural, distante das aias de Margaret Atwood?

Ainda não é tarde para começarmos a fazer o que já se sonha a tanto tempo.


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