A necessária igualdade

Photo by Søren Astrup Jørgensen

A igualdade não é apenas um objetivo desejável na democracia, é essencial, já que apenas ela pode controlar os excessos dos privilegiados e evitar a exploração dos mais pobres.

Por outro lado, soaria utópico uma sociedade absolutamente igualitária, ainda mais para a nossa mentalidade de início do século XXI, acostumada a exemplos de progresso tecnológico e científico em ambientes capitalistas. Logo, tanto a desigualdade quanto a igualdade são radicalizações indesejáveis, ainda que muito possa ser feito para reduzir a distância entre as classes sociais e construir uma realidade aceitável.

Ironicamente, muitos dos defensores de um modelo desigual são os mais pobres, pois sustentam a esperança de um dia pertencerem ao topo da pirâmide e se beneficiarem do privilégio da riqueza. Ao mesmo tempo (e igualmente irônico) os mais ricos que tiram proveito desse modelo, em troca, pagam com a perda da própria liberdade. Evitam lugares por medo da criminalidade, e se protegem em condomínios que lembram fortificações medievais, se isolando da pobreza que os cerca.

Muros, câmeras de vigilância, carros blindados e seguranças privados não são privilégios reservados aos ricos, são as suas mazelas. Afinal, nenhum investimento em segurança privada é garantia contra balas perdidas, latrocínios e sequestros. Ricos que morrem por serem privilegiados, uma prova de que o modelo de desigualdade afeta a todos, inclusive àqueles que deveriam se beneficiar dele.

Privilegiados se acostumaram a viver em ilhas de segurança e a se satisfazerem com a liberdade esporádica do turismo às nações desenvolvidas, mas jamais a reduzir suas riquezas em troca de um desenvolvimento generalizado, que os pouparia dessa realidade. É o contrassenso do atual modelo, que precisa ser combatido na sua essência.

Muito foi feito com a (ainda falha) generalização da Educação e da Saúde, mas são passos pequenos perto do que o Estado pode fazer para promover a igualdade. Como objetivo essencial do Estado moderno, a igualdade deve definir políticas públicas e até mesmo contratações e licitações.

O economista Anthony Atkinson propõe em seu livro “Desigualdade: o que pode ser feito” o desemprego zero. Embora utópico à realidade brasileira, é um projeto possível de ser implantado em certa medida, e seus benefícios podem ser significativos. Nele, os governos se comprometem a contratar qualquer pessoa que deseje trabalhar e não consiga emprego, o que tornaria desnecessária a existência de grande parte das atuais bolsas assistencialistas.

Uma garantia de trabalho e segurança financeira para qualquer pessoa, sem experiência prévia ou entrevistas. A conquista da própria dignidade e independência por aqueles que de outra forma poderiam jamais ter uma oportunidade, mas que assim prestam serviços relevantes em benefício de toda a comunidade (ainda que não necessariamente os empregos mais desejados).

Um ciclo virtuoso, que injeta dinheiro na economia através de salários (o que também desperta o monstro da inflação), recuperando o poder de compra de pessoas que hoje estão afastadas da economia e, consequentemente, aumenta o consumo. Empregos seriam criados para atender a nova demanda, disputando profissionais e aumentando salários, o que, por sua vez, estimula os profissionais beneficiados pelo programa a voltarem para o setor privado.

A proposta de desemprego zero é semelhante ao projeto de renda mínima, que em breve será testado em diferentes regiões do mundo. Modelo que literalmente prevê uma renda sem a contrapartida do trabalho, o que muitos especialistas consideram como a única saída para a humanidade lidar com os índices cada vez maiores de automação da indústria.

Em paralelo, outra proposta importante é a reformulação do modelo de licitações do setor público. Ao invés de privilegiar contratos com menores custos, o Estado pode privilegiar empresas com os melhores salários. Não a média dos salários, mas os maiores menores salários. Da mesma forma, e talvez ainda mais importante, o Estado pode priorizar empresas que distribuem os lucros ou até mesmo, cooperativas.

A opção por empresas e negócios que beneficiem o maior número de pessoas deveria ser uma regra. Um importante exemplo nesse sentido é o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que destina parte do orçamento das merendas escolares para a agricultura familiar.

Uma solução inteligente, garantindo renda para o pequeno agricultor (na contramão do agronegócio e sua tendência de enriquecimento de poucos) oferecendo alimentos frescos e até mesmo orgânicos para os alunos da rede pública, o que por sua vez incentiva desde cedo hábitos alimentares saudáveis.

Planos como esse poderiam ser expandidos para hospitais, presídios e indústrias. O que também pode favorecer negócios locais e empresas ecologicamente corretas, em detrimento das grandes corporações, seus baixos salários e concentração de renda.

O controle sobre o Estado pode ainda estar distante de nossas mãos, mas nós sempre podemos determinar como usamos o nosso dinheiro, distribuindo renda e incentivando bons modelos de negócio através de atitudes pequenas, como as compras.

Eu falei sobre isso em:

Priorizar a distribuição de renda pode ser a mais importante ferramenta de desenvolvimento econômico e democrático, gerando empregos e aquecendo a economia, além de amenizar o radicalismo e as crises migratórias. A igualdade pode ser a única saída para uma sociedade mecanizada.