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Argumentos ao vento

Photo by Siavash Ghanbari

Em 2018, aqueles que reinavam (e ainda reinam) com privilégios conquistados à chicotadas de uma caríssima dívida histórica que nunca foi paga, estavam cansados de ver sua herança pela cor ser lapidada por movimentos sociais e suas petulantes promessas de igualdade. Sem qualquer constrangimento, promoveram a campanha de Bolsonaro, suas fake news e discurso de ódio.

O terror comunista foi tirado dos baús empoeirados para convencer grande parte da população de que o governo petista tinha viés autoritário e um projeto secreto que, em algum momento dentro de um plano imaginário, tornaria o Brasil uma Venezuela. O mesmo governo petista que já estava no poder a quatro mandatos consecutivos, com eleições democráticas e lucros recordes dos bancos privados, tornaria o Brasil uma Venezuela.

Para aqueles que não se sentiam atraídos pelo discurso de ódio ou que não se convenciam com as fake news e o exército vermelho, bolsonaristas venderam a ideia de que todos os problemas do país eram resultado do governo petista. Estratégia antiga e comum a toda oposição, inclusive aos petistas, que voltaram a orbitar essa esfera. De repente, a corrupção intrínseca ao governo e os acordos vergonhosos entre partidos com ideologias de circunstância, eram responsabilidade exclusiva do PT e seriam milagrosamente removidos da política pelas mãos do heroico capitão.

Hoje, bolsonaristas arrependidos alegam que em 2018 era impossível imaginar que o ex-capitão teria o dedo podre, mesmo que na época ele já estivesse envolvido em escândalos de corrupção, lavagem de dinheiro e discurso de ódio, sem falar em terrorismo. É claro que existem pessoas que erraram, não por ingenuamente acreditarem que Bolsonaro era um político bom e competente, mas por se convencerem de que era mais importante tirar o PT do poder do que ter um presidente com boa índole. Agora sentem-se enganados por vê-lo fazer tudo o que sempre fez, acrescido do que Lula e tantos outros também fizeram.

Lula negociava cargos para se manter no poder:

Bolsonaro também:

Lula, muito provavelmente, esteve envolvido com corrupção:

Bolsonaro também:

Apesar das semelhanças, o governo de Bolsonaro é pior do que foi o de Lula. Pior em um nível tão alarmante que beira o absurdo, o que nos leva a questionar se ele é algum fantoche dos militares, parte de um projeto orquestrado para retomarem o poder. Teorias da conspiração estão quase sempre fadadas ao erro, o que torna essa possibilidade pouco provável, mas não fora de questão. Militares farejam oportunidades, e como sempre fizeram, podem perfeitamente se aproveitar de uma população conservadora o suficiente para acreditar que seus altos salários, privilégios e poderes, se justificam em razão de uma ilusória retidão ou patriotismo.

Com tantos militares entre os ministros, pode-se dizer que eles já estão no poder. Isso não prova que os militares sejam perspicazes, mas que governam de forma tão incompetente quanto em 1964.

Apenas para deixar claro que o governo atual (seja Bolsonaro ou os militares) é pior do que foi o de Lula:

E isso:

E isso:

E isso:

E isso:

E isso:

E isso:

O problema é que argumentos e fatos não servem para muita coisa quando o público favorável ou indiferente ao governo, não se importa. Gente que acredita que os fins justificam os meios, onde até os fins sãos os piores possíveis. Pessoas que não são ingênuas, mas perversas, como Bolsonaro. De que outra forma descrever alguém que não se comove com a perseguição às minorias, que não se revolta com os discursos odiosos ou a má gestão deliberada?

Até o improvável impeachment ou as distantes eleições, temos no futuro o nosso único conforto. Infelizmente, basta prestar atenção ao Ministério da Educação para duvidar também do porvir. Antes comandado pelo mais bufão dentre os bolsonaristas, agora no mesmo limbo em que deriva a Saúde em plena pandemia, o Ministério da Educação recentemente adquiriu poderes questionáveis, como o de cortar a verba das ciências humanas e escolher os reitores das universidades federais.

Pode parecer improvável que queimem livros em praça pública, mas o governador de Rondônia, um ex-coronel filiado ao PSL (partido em que Bolsonaro se elegeu), já planejou estabelecer uma lista de livros inadequados para adolescentes e que deveriam ser recolhidos das escolas. Com o risco constante de censura e a perseguição escancarada as artes e humanidades, caminhamos a passos largos para um futuro distópico, nos moldes de Ray Bradbury.

Distante dos ideais democráticos, mais do que em qualquer governo recente, o Brasil abraça a eugenia, a corrupção e o autoritarismo. Somos ridícula e ironicamente denunciados pela própria Venezuela por negligência no combate a pandemia. Nesse pesadelo, resta a dúvida, onde se escondem aqueles que lutavam contra a ditadura comunista?

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Victor Allenspach

Victor Allenspach

Brazilian writer, waiting for the system shutdown. victor.allenspach.com.br

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