Como fazer política todos os dias

Photo by Paweł Czerwiński

A democracia é decepcionante e as eleições são o momento em que nos sentimos mais impotentes. É difícil de acreditar que nosso voto tem algum valor ou que o candidato que escolhemos trabalhará pelo que acreditamos. A sensação que impera é a de que todos os candidatos são iguais, abraçando suas falsas ideologias para se agarrarem ao poder, enriquecendo com os melhores salários e a corrupção irresistível.

Deve ser mesmo um emprego dos sonhos, sem metas para alcançar, sem patrão e contas para prestar. Com tão pouca responsabilidade, podem passar o dia no palanque, discursando apenas para lembrar a população do como são irrelevantes, e entre suas pausas melodramáticas, beber a água mineral trazida por um garçom que recebe R$ 6 mil por mês.

O poder é um mal necessário e não deveria ser concedido a quem o deseja.

A boa notícia é que já inventaram uma forma melhor de fazer política. Uma democracia real e direta, em que cada cidadão, seja pobre e até analfabeto, pode fazer uso do seu pequeno poder de influência nas decisões regionais e até nacionais. Essa maravilha democrática que todos já ouviram falar, e que fazem uso diariamente sem que percebam, se chama compras.

Auge do poder econômico e desgraça ecológica, o consumismo move a sociedade moderna e, por isso mesmo, pode ser a principal ferramenta democrática que existe. Da bolacha que você compra para devorar em tardes engordativas até o modelo de carro que escolhe para pôr na garagem, todo produto é uma opção, normalmente uma matemática intuitiva que envolve gosto, estética e custo, mas que não se limita apenas a uma questão de sabor ou preço. Isso porque, quando você compra, está depositando sua confiança em um produto e, mais do que isso, está investindo no seu fabricante.

É por isso que inventaram aquele adesivo de “Feito no Brasil”, uma tentativa de conscientizar os consumidores de que comprando desses produtos, estamos gerando empregos no país. Só que indiretamente esse adesivo diz muito mais, pois comprando um produto feito no Brasil, você também tem a “certeza” de que ele foi feito dentro de um ambiente democrático e pagando salários justos ou, pelo menos, que não se trata de uma servidão terrível como ocorre na China. O Brasil não é um modelo de boas condições trabalhistas, mas existem exemplos muito piores.

Também é por isso que empresas apostam em selos ecológicos e causas humanitárias, trazendo valores que vão além do produto em si. Com isso, ao simplesmente comprar uma caneta, você pode também estar plantando árvores, reciclando lixo ou oferecendo educação e opções de lazer para crianças carentes.

Não parece um poder político tão grande quanto as eleições, mas a verdade é que, o consumo, é um poder muito maior. Afinal, se você é o que come, uma nação é o que produz e importa. Não temos como saber se um político vai cumprir as suas promessas de campanha, mas não há dúvida de que comendo menos hambúrgueres processados, estamos ajudando a diminuir os índices de obesidade no país, o que reduz os custos para a saúde.

Consumo não é apenas uma forma de incentivar às empresas engajadas em causas nobres, mas também de determinar o seu próprio engajamento pessoal, materializado no carrinho de compras. Ninguém precisa, por exemplo, ser vegetariano, mas deixando de comer carne todos os dias, sobra oferta, caem os preços, e diminuem os incentivos para novos pastos. Essa é a forma mais efetiva de diminuir o avanço dos pastos que destroem ano após ano a floresta Amazônica.

Você pode achar os impostos abusivos e lutar por um Estado enxuto, mas a sociedade depende dos impostos para manter serviços essenciais, e as empresas tem um papel muito importante nessa questão. Deixando de comprar produtos e serviços de empresas que não pagam seus impostos, podemos forçá-las a contribuírem com o que devem. No pior dos casos, estamos incentivando aquelas que agem conforme a lei. Compare a lista dos maiores devedores e os maiores lucros, é bastante esclarecedor.

Compre de quem investe em seus funcionários, seja financiando cursos universitários ou até mesmo a essencial alfabetização, qualificando profissionais que normalmente seriam substituídos sem que a empresa precisasse gastar um centavo.

Pequenos comércios e pequenos fabricantes geram mais empregos do que as grandes indústrias e varejistas. Também cobram mais caro por isso, é claro. Mas sempre que possível, vale a pena investir em negócios locais, trazendo desenvolvimento regional e diminuindo a necessidade de transporte de produtos, o que por sua vez, diminui o efeito estufa, os congestionamentos, o preço do diesel…é um ciclo que beneficia muita gente pequena, e não os grandes empresários e investidores. O nome disso é distribuição de renda, e tudo porque você comprou da livraria local e não daquela rede online que oferece descontos excelentes e frete grátis (quem nunca).

É possível valorizar empresas que pagam bons salários e boicotar o contrário, assim como investir em economia sustentável, em agricultura sem agrotóxicos, em alimentação saudável, em igualdade de salários para homens e mulheres…Quem manda no mundo é o dinheiro, e o consumo consciente é a ferramenta para construir a nação que queremos.

Eu comecei pela carne.