Formigas desorganizadas

Victor Allenspach
vallenspach_pt
Published in
3 min readOct 29, 2019
Photo by mostafa meraji

Acompanhar as notícias é como assistir novela. Temos os nossos personagens preferidos e os que não gostamos, aqueles que nos fazem rir e os que nos fazem chorar. Não importa o quanto detestemos os vilões, acompanhamos as suas malvadezas de perto, saboreando a ira que eles provocam.

Desde o primeiro capítulo nós já sabemos qual é o jovem casal que terá de lutar por seu amor, quem é o terrível vilão disfarçado de mocinho e qual é o núcleo patético que existe apenas para prender a atenção dos menos criteriosos. Não assistimos pela surpresa, mas para saciar a nossa necessidade diária de emoções fáceis. Igual apolítica.

Seja porque amamos ou porque odiamos, assistimos noticiários e devoramos fake news misturadas com discurso de ódio. Não queremos surpresas ou complexas interpretações que poderiam trazer reflexões sobre as nossas próprias escolhas, o que queremos é nos deliciar com as nossas posições políticas e ideológicas. Queremos odiar quem pensa diferente e amar quem pensa igual.

Como nas novelas, não podemos interferir na trama, mas gritamos a nossa revolta com as atitudes que desprezamos e sorrimos abobalhados diante da nobreza de nossos ídolos.

A novela e a política são pretextos para discursarmos sobre nós mesmos, para contar ao mundo quem somos e no que acreditamos. Usamos da exposição dos personagens fictícios e públicos para massagear nossos egos, propagandeando a nossa moral. Nos orgulhamos de como pensamos e essa é a oportunidade de dizer “eu estou certo, eu sou uma boa pessoa”.

É por isso que nos orgulhamos de saber os nomes de todos os políticos envolvidos em algum escândalo e apontamos dedos moralistas, como se isso nos tornasse imunes aos mesmos erros. Cuidadosamente protegemos os mocinhos como faríamos com nossos próprios filhos, julgando com diferentes pesos os nossos amados e detestados, apenas para, minutos depois, recriminarmos um juiz por fazer a mesma coisa.

Inundados de informações, nos viciamos em vídeos, notícias e memes que dizem exatamente o que queremos ouvir. Compartilhamos e divulgamos influenciadores que pensam como nós, cada vez nos permitindo pensamentos ainda mais radicais, e que no passado condenaríamos.

Será que tanta carga emocional serve de alguma coisa? Somos realmente capazes de mudar o mundo por que acompanhamos os noticiários como os capítulos das novelas, elegendo os nossos mocinhos e bandidos?

A classe política não trabalha para a população, mas em causa própria. Eles fazem isso porque são humanos, e não deixarão de ser porque algum cidadão desconhecido está revoltado. Não faz diferença quantos vídeos são compartilhados por espectadores que caem como peixes no anzol de influenciadores digitais que vivem de views no YouTube.

É importante sermos continuamente lembrados da nossa incompetência para eleger governantes, ou do como é elitista a nossa justiça, mas adianta de algo amá-los e odiá-los? Dispensar energia em algo tão improdutivo quanto uma emoção não correspondida? Nossa democracia será melhor por que vestimos a bandeira do Brasil e perdemos tempo em protestos sem objetivos concretos?

Queremos acreditar que temos voz e que as nossas escolhas e opiniões podem mudar a sociedade. É disso que vivem as novelas maniqueístas, tanto quanto os noticiários.

Talvez a solução para uma sociedade corrupta dependa antes de nossa humildade. Humildade para compreender que não somos um gigante adormecido, mas formigas desorganizadas e confusas. Podemos mudar o mundo, mas apenas aquele que está ao nosso alcance.

Eu já falei sobre isso:

Sem o consumo diário de noticiários e novelas, sobra tempo e energia para trocar as emoções fáceis por emoções de verdade, com pessoas de verdade, que influenciamos e convivemos. Esse é o mundo que podemos melhorar, o resto é utopia.

--

--

No responses yet