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Minha democracia autoritária

Photo by Matt Seymour

A democracia ressurgiu no mundo moderno como a luz no fim do túnel, uma nova forma de as nações ricas verem a si mesmas, quase como um prêmio de consolação. Não mais as donas do mundo, agora seriam as promotoras da igualdade e do progresso. Que sorte a nossa.

Hoje a democracia faz parte da cultura, como um bem inegociável e que o ocidente associa ao desenvolvimento e bem-estar. Aos regimes autoritários restam as nações atrasadas, desiguais e sem liberdade de expressão. Nós realmente nos convencemos disso, ainda que todos os anos, democraticamente, sejam eleitos líderes autoritários, egocêntricos, ricos e incompetentes, mesmo nas nações mais desenvolvidas e democráticas.

As mulheres são a maioria, mas minoria em todos os cargos públicos. Os pobres são maioria esmagadora, e sequer imaginam como funcionam seus governos, entregues a burocratas bem relacionados com as elites. Os ricos mandam no mundo, como se todas as revoluções estivessem fadadas ao passado e como se os seus reinados intolerantes pudessem se propagar, não mais pelo sangue, mas igualmente pelas urnas.

Observar um líder como Bolsonaro (que décadas atrás deveria ter perdido os seus direitos políticos), reinar como um menino mimado e perverso, é o suficiente para desacreditar a democracia. Um regime político capaz de eleger alguém tão odioso, só pode estar errado. De fato, está.

Durante décadas a propaganda política, o cinema e até os professores, vendem a ideia de que a democracia é um modelo fechado. Não se discute o que a democracia poderia ser, pelo contrário, ela é imposta, do alto da pirâmide para a base, como todos os modelos autoritários. Essa democracia imposta, e que prevaleceu entre a maioria das nações, é conhecida como democracia representativa. Em outras palavras, um modelo eleitoral.

Escolhemos nosso líder, como se fosse realmente possível encontrar uma pessoa que represente todos. Vence, não o candidato mais preparado e adequado para governar milhões de pessoas que pensam de formas tão distintas, mas aquele que chama mais atenção e que vende melhor a sua imagem. Lula ganhou as eleições com carisma, Bolsonaro com ódio, e ambos com propaganda. Seja o modelo clássico, de marketeiros milionários e horas de televisão, seja o moderno, com covardes fake news e um exército de robôs no twitter, é o dinheiro que elege presidentes.

Nas escolas os professores promovem a ilusão de que é possível escolher bons candidatos. Os alunos crescem convencidos de que os bons não são eleitos porque “as outras pessoas votam muito mal”, mesmo quando os candidatos são tão ruins que o voto nulo é uma opção. A falha não está na democracia em si, mas na ideia de que nós devemos, democraticamente, eleger um déspota.

A democracia representativa foi criada para conciliar a necessidade de governar nações gigantescas e populações dispersas, com a legitimidade de um regime político entregue ao povo, através do sufrágio universal (direito ao voto). Parece realmente uma boa ideia, e talvez tenha sido a melhor possível nos tempos de telégrafos e mensageiros a cavalo, porém, no mundo moderno de conexões em tempo real, esse modelo deixou de ser a solução e se tornou o problema.

Tanta conectividade, ao invés de originar eleitores exigentes, tornou a população manipulável. Não somos livres para pensar ou para escolher, mas massa de manobra nas mãos de quem tem o poder de propagar melhor suas ideias e preconceitos. É quase impossível descobrir os reais interesses por trás das decisões políticas e quais serão os beneficiados. Pelo contrário, ao tentar descobrir, o cidadão comum alimenta teorias da conspiração, muitas vezes inflamadas por interesses políticos. A verdade se tornou um ponto de vista, e tentar encontrá-la, um desafio exaustivo e fadado ao erro.

O problema está em acreditar que o direito ao voto basta para que a democracia prevaleça. Como se a importante participação política de todos os cidadãos pudesse ser resumida a uma hora de suas vidas desperdiçada se deslocando para o local de votação e apertando botões. A chamada “festa democrática”, que ocorre duas vezes a cada quatro anos.

A democracia não deveria ser uma festa periódica, mas parte do cotidiano e do convívio social. Perdemos horas discutindo sobre qual é o melhor candidato para um cargo público, quando deveríamos discutir sobre os investimentos em educação e segurança. Não deveríamos perder tempo com manifestações por mudanças, mas efetivamente pensando que mudanças são essas.

Entregar as nossas responsabilidades para outras pessoas é uma esperança tola de que tudo pode ser resolvido sem que precisemos nos envolver, e é ainda mais ingênuo acreditar que alguém aceite esse compromisso sem algum benefício pessoal. Esse modelo irresponsável de democracia alimenta a violência policial, a corrupção, os salários escandalosos de juízes e a incompetência de setores do funcionalismo público. Ao invés de lidar com seus problemas, a sociedade optou por pagar essa conta, e o Estado se tornou um monstro fora de controle, o que não parece em nada com uma democracia.

Autores como David Van Reybrouck (leia Contra as Eleições) defendem a democracia deliberativa, que é um modelo de democracia complexo e escalonado, com maior participação da população nas decisões. Esse é um caminho, principalmente por envolver a descentralização do poder, usando a conectividade moderna em favor da democracia e não contra ela.

Hoje os três poderes concentram toda a responsabilidade que, em parte, deveria estar entregue a própria população. Cada vez mais distantes da democracia, estamos sempre a um passo dos governos autoritários. Militares, juízes e o executivo podem nunca dar esse passo, mas é uma tentação constante. O poder é antidemocrático, se não for distribuído e exaustivamente fiscalizado.

Mudar o foco da política do macro para o micro pode ser a solução mais democrática. Tirar poder do presidente e aumentar a autonomia das prefeituras, destinando impostos para a autogestão de comunidades através da participação direta dos moradores. A conectividade moderna pode ser usada para criar ferramentas que capacitem as comunidades a se organizarem, a gerirem seus recursos e a encontrarem soluções para problemas locais.

Ao invés de eleições para vereadores, o poder legislativo municipal pode ser distribuído de forma flexível e rotativa entre os representantes locais, com participação de todas as comunidades. Pensando ainda mais longe, o próprio prefeito pode ser um dos representantes, escolhido pela maioria, como um pequeno parlamento.

O sorteio é a base da real democracia, selecionando uma fatia representativa da população. É difícil imaginar uma forma mais legítima de escolher os deputados (talvez o cargo mais importante em uma democracia). Não mais homens brancos e ricos, mas uma parcela da população que englobe todas as classes sociais e gêneros, o que também inclui homens brancos e ricos.

Deputados eleitos pela sorte não abandonariam as suas cidades de origem e suas atividades, afinal, de que adiantaria eleger um operário se ele deixasse a sua profissão para fazer carreira na política? Ele deixaria de ser um operário e até mesmo de pertencer à mesma classe que o elegeu, como acontece hoje. Políticos profissionais são o pior vício da democracia representativa.

A revolução que precisamos é pacífica e democrática, transferindo o poder ao povo, o que as elites sempre se esforçaram para impedir. Presidentes se tornam humildes diplomatas de suas nações, pois o seu verdadeiro poder está em acalmar os anseios pessoais para representar os interesses do povo. Quando esse dia chegar, os poderes ilimitados que tantos almejam nesse cargo, serão lembrados apenas nos livros de História. Como Bolsonaro, serão exemplos de um passado ruim.

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Victor Allenspach

Victor Allenspach

Brazilian writer, waiting for the system shutdown. victor.allenspach.com.br

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