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O cão maltratado

Photo by Jon Tyson

Ao longo de milhares de anos cães são domesticados, selecionados, cruzados e adaptados às necessidades humanas. Violentos quando desejado, carinhosos quando o ambiente propicia, cães são fiéis aos seus donos. Donos, porque apesar de serem considerados por muitos como um “membro da família”, eles são propriedade. Sejam comprados ou adotados, vivam dentro da casa ou no quintal, comam o mesmo que os humanos ou a ração que colocam em suas tigelas, eles são propriedade, porque não escolhem, não são livres e raramente se revoltam.

Ter um animal de estimação é comprar afeto, mas muitas vezes ao custo de tortura silenciosa e que a maioria das pessoas não percebe ou não se importa. Quase um exemplo da Síndrome de Estocolmo, o cão pula e chora, grita e urina nas próprias pernas de felicidade ao ver o dono que passa o dia inteiro fora de casa. Ele ama o dono, porque não tem mais a quem amar. O cão é uma vítima, incapaz de se defender. Produto, com modelos, cores e tamanhos, e que, por um acaso, tem sentimentos e emoções.

Mesmo quando trancado por toda a vida em um pequeno quintal cimentado, com uma coleira que jamais deixa o pescoço, alimentado com ração sem sabor e ganhando pouca ou nenhuma atenção, um solitário cão se apega ao dono como se ele fosse a única pessoa do universo. Cercado por muros altos que escondem até mesmo a rua, talvez ele realmente seja.

Cães têm expectativas baixas. Não precisam de um sofá confortável para descansar, ainda que gostem bastante de um. Da mesma forma, não precisam de um teto sobre as suas cabeças, comida quente e saborosa, e relacionamentos amorosos. Mas será que trataríamos os cães melhor se eles se revoltassem? Se latissem perigosamente diante da ração ou quando fossem proibidos de ir e vir? Seriam nossos pets se fossem organizados o suficiente para exigir condições melhores? Nós gostaríamos de tê-los? Provavelmente não.

Cães aceitam a submissão aos humanos como se ela fosse natural. De fato, ela é. Humanos possuem inteligência para manipular praticamente todos os outros seres vivos do planeta, que muitas vezes são vistos como eternas crianças. Animais pouco sabem e pouco se interessam pelo mundo, suas prioridades giram em torno de necessidades básicas e dificilmente são capazes de criar algo novo. Tiram benefícios da convivência com humanos e aceitam a domesticação pacificamente (ou ao longo de diversas gerações, cruzamentos e agressão). É fácil entender um cão ou qualquer outro animal, difícil é entender alguém que se coloque nessa situação.

Como o cão, o adorador tem o seu humano. Pula, grita e talvez até urine nas próprias calças diante do seu humano. Espera ansiosamente por horas ou até mesmo dias (acampado em frente a um estádio, uma loja, um templo), pelo seu humano. Porém, diferente do cão que tira benefícios dessa relação, o adorador não recebe nada em troca. Ele não recebe nem mesmo o quintal cimentado, a ração sem sabor ou algum afeto esporádico. O adorador é um cão maltratado.

Mais dócil do que o cão, o adorador não perdeu a sua superior inteligência humana. Ele continua capaz de realizar coisas que para um cão seriam impossíveis, continua apegado a uma qualidade de vida que um cão não sentiria falta, e mesmo assim, abre mão de tudo pelo seu humano. O adorador vive a felicidade e a tristeza do seu humano, como se não tivesse as suas próprias emoções.

Adoradores doam dinheiro e tempo, trabalham, fundam igrejas e partidos, protestam, homenageiam publicamente e até conquistam novos adoradores. Eles se multiplicam, o que explica a maioria das religiões, dos grupos fanáticos e até os caminhos da política contemporânea. Sem pedir nada em troca, eles moldam o mundo aos interesses dos seus humanos, o que não explica os seus motivos.

Não raro, adoradores são pessoas carentes por atenção e cuidado. Gente que abraça o maniqueísmo de odiar a sociedade que nunca lhe deu valor e amar desesperadamente uma personalidade em troca de atenção, ou a ilusão de atenção. Surgem da necessidade de extravasar desejos reprimidos e comuns, mas censurados por fortes barreiras sociais.

Por mais absurdo que a adoração a uma personalidade possa soar, ela é aceita socialmente. Seria errado ou inapropriado entre pessoas comuns, mas quando se trata de uma personalidade, o exagero é televisionado. Uma paixão platônica e raramente correspondida. Possível, porque é anônima.

Os adoradores não se criam sozinhos, eles são movidos pelas massas e por indivíduos convincentes. Como lavagem cerebral, sentem prazer em abrir mão do raciocínio, de suas aspirações, crenças pessoais e até do próprio caráter, para ouvir mensagens inspiradores e motivacionais que não agregam sabedoria. Caminho certo para o preconceito, o fanatismo e o desprezo pelas evidências.

Uma vez alcançada, nada, nem mesmo a razão, o bom senso e a própria família, são obstáculos para a adoração. A entrega é libertadora e viciante, tirando dos próprios ombros o peso da responsabilidade pelos atos estúpidos e egoístas que se permitem. Talvez seja essa liberdade que os adoradores recebem em troca, a tranquilidade de seguir e não pensar.

Pelos piores ou mais nobres motivos, cultivar adoradores é uma antiga ferramenta de poder. Manipulando mentes, templos são erguidos e mitos são perpetuados. Frágeis, basta uma gota de razão para derrubá-los, e mesmo assim multiplicam-se na era da informação. Humanos transformados em pets.

Ensinar liberdade é uma estranha sina.

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Victor Allenspach

Victor Allenspach

Brazilian writer, waiting for the system shutdown. victor.allenspach.com.br

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