O preço das mudanças

photo by Ross Findon

Para acabar com a poluição dos oceanos, é necessário endurecer a legislação (ou criar uma) contra plásticos de uso único, como sacolas de supermercado e garrafas pet. Para acabar com o trânsito das grandes cidades e a fumaça dos escapamentos, não precisamos dos modernos e caríssimos Teslas de Elon Musk (apesar de serem muito legais), mas de investimentos em transporte público subsidiados pelo aumento de impostos sobre veículos particulares. Para diminuir as ondas migratórias, o mundo rico precisa transferir recursos para o mundo pobre e resolver as crises em suas respectivas origens. Para diminuir a população do mundo, precisamos de maior distribuição de métodos contraceptivos e de fortes investimentos na educação de mulheres pobres.

Todas essas soluções já existem a algum tempo, muitas delas testadas e com especialistas corroborando os seus bons resultados, o problema é convencer o mundo a coloca-las em prática, ou seja, arcar com o preço e a responsabilidade sobre as mudanças necessárias. Isso é tão difícil quanto acreditar que Trump se tornará um ambientalista.

O exemplo dos transportes públicos é o mais simples. Todo mundo gosta da facilidade e do conforto de ter um carro de uma tonelada, movido a queima de combustíveis fósseis, que te leva e trás até a porta de casa (além de inflar a autoestima de homens carentes). Não importa quantos congestionamentos um paulistano enfrente, é quase impossível convencê-lo a deixar o seu carro na garagem e começar a usar os ineficientes, lotados e desconfortáveis, transportes públicos.

Cidades pelo mundo estão testando o transporte público gratuito, que no Brasil teve uma breve aparição com a alta das passagens em 2013, trazendo o movimento Passe Livre para a notoriedade e servindo de estopim para os protestos contra a presidente Dilma. A medida soa socialista, e em muitos aspectos ela realmente é, mas ela também é uma solução para o trânsito e as emissões de gases poluentes.

Quem nega o aquecimento global pode achar essa medida desnecessária, mas basta ter amor próprio para pensar diferente, já que a expectativa de vida nas grandes cidades é até 3 anos menor por causa da poluição, e a qualidade do ar é a lâmina dessa foice.

Com transporte gratuito, as cidades ganham eficiência e dinamismo. Novas conexões são possíveis, cresce o acesso ao lazer e o comércio cresce junto, o que permite que mais negócios sejam fechados. Substituindo carros por ônibus, trens e bicicletas, as ruas passam a ter pouco movimento, as calçadas e os jardins podem ser maiores. Com mais jardins e menos asfalto, a temperatura da cidade diminui, a qualidade do ar cresce (ainda mais), e a água que antes era contida pelo asfalto, volta a ser drenada pelo solo, o que diminui o risco de inundações (um sério problema em São Paulo).

Tirar os carros das ruas significa reformular a economia e as cidades, reduzindo custos para a população, que não precisa mais gastar fortunas com a compra, manutenção, abastecimento e reparo de carros particulares. Milhares serão demitidos das montadoras (que mesmo em nossos tempos, vivem em crise), da indústria e do comércio diretamente relacionados, enquanto milhares serão contratados para a produção de bicicletas, trens, ônibus e diversos novos negócios que podem surgir, seja impulsionados pela nova dinâmica da cidade, seja pela reformulação da paisagem urbana.

Então a solução é perfeita? Provavelmente não, mas é um passo importante para transformar as cidades em lugares inclusivos, seguros (imagine criminosos que dependam de transporte público), com maior qualidade de vida, mais árvores e menos trânsito, o que em si mesmo já é um fator de estresse e angústia. Envolve grandes custos? Muito menos do que milhões de pessoas gastam para manterem os seus poluentes e espaçosos carros particulares.

A solução existe e é viável, só não é implantada porque as pessoas não querem abrir mão da sua “liberdade”, “independência”, “conforto”, “praticidade”, ou qualquer outro argumento que eu coloque entre aspas por falta de coerência. Isso porque, na verdade, o que impede as pessoas de implantar uma medida necessária como essa, é o fato de simplesmente gostarem de carros.

Todos querem se exibir com eles, dar aquela volta pela cidade no domingo, preencher o vazio existencial ou a necessidade de consumo. Chame como quiser, o lobby da indústria automotiva construiu uma cultura em torno dos carros mais impregnada do que arroz com feijão, e convencer as pessoas a abrir mão dela, por melhor que isso possa ser para todos, é uma longa batalha.

As pessoas não sabem e não se importam com o que realmente é melhor. É por isso que existe salto alto e sedentarismo. A cultura da ignorância nasce nas escolas ruins e é alimentada por uma sociedade que absorve os seus valores de comerciais de automóvel e cerveja.

Por isso vai demorar para que o império dos carros acabe e todos possam viver em uma cidade limpa, organizada e coberta de árvores. Por isso ainda temos sacolas e embalagens plásticas nos supermercados, mesmo que elas estejam destruindo o meio ambiente, que fornece os alimentos que comemos e a água que bebemos. Por isso que a população da Terra vai passar dos 11 bilhões e as trágicas ondas migratórias vão apenas se intensificar.

O mundo é pequeno demais para tanto comodismo.