O voto de repúdio

photo by T. Chick McClure

Eu cresci com os dois pés na direita. Aos poucos eles foram se afastando um do outro, até um deles pisar sem medo na esquerda. É diferente de estar em cima do muro, porque esse muro não existe, afinal, eu concordo com argumentos de direita, como a liberdade econômica, ao mesmo tempo em que concordo com argumentos de esquerda, como o monopólio estatal do que é essencial para a dignidade humana, seja a Educação ou a Saúde.

Eu já falei sobre isso:

O que eu não disse é que Bolsonaro nunca devia ter recebido tanta atenção. Pessoas que o exaltaram, ou mesmo como eu, que o condenaram por suas atitudes, inflaram um personagem que passaria despercebido no marasmo do Congresso, até ele se tornar um presidenciável.

Como uma criança a procura de atenção, Bolsonaro disparou palavras de ódio que lhe deram cada dia mais holofotes, até as pessoas se acostumarem com o seu nome. Abraçou a agressividade de um cão raivoso e se tornou a materialização caricata de todos os grupos de ódio que contaminam as redes sociais. Uma oportunidade cresceu no horizonte, imagino o momento em que ele percebeu que isso poderia levá-lo à presidência.

Se posicionando como “cidadão de bem”, Bolsonaro inventou um inimigo comum, a estratégia eficaz de ditadores como Hitler e Mussolini. Os outros são o problema, e os outros são qualquer pessoa em oposição, sejam os feministas, os homossexuais, os “pedófilos defensores do kit gay”, ou a mídia marxista (Veja, The Economist, New York Times?).

Representante dos homens brancos (mas não todos), ele abriu as portas para um governo violento das elites pouco esclarecidas, cuja preocupação é ganhar dinheiro e pagar menos impostos, construindo muros cada vez mais altos para se afastar dos pobres. Um eco doloroso do Brasil colonial, que perpetua, alimentando a violência e a pobreza.

Sejam assediadores no metrô, racistas, neonazistas, homofóbicos enrustidos, machistas que batem nas esposas, disseminadores de Fake News, e aqueles que se sentem empoderados com um presidente branco segurando armas, a maioria esconde o que realmente move as suas campanhas pessoais por Bolsonaro embaixo de promessas pelo fim da corrupção e a mudança na política.

Mudança é essencial, mas não ao custo da razão. É inaceitável substituir uma esquerda moderada, que flerta abertamente com ditaduras, mas que em 16 anos de governo não deu mais do que um passo nesse sentido, por uma direita extrema, que tem conexões diretas com militares e que exalta abertamente a ditadura e a violência. É claro que as duas opções são ruins, mas há um abismo entre elas.

Talvez o melhor para o Brasil fosse um candidato de Direita moderada, acalmando as rivalidades e diminuindo a polarização para que a sociedade volte a funcionar dentro de suas falsas aparências (como uma família feliz das propagandas de fim de ano), e não como uma multidão raivosa, clamando pelos “cidadãos de bem”. Projetos sociais sofreriam retrocesso, mas seria um preço pequeno a se pagar por 16 anos sem alternância no poder.

Infelizmente caminhamos para outro destino, onde as notícias de violência se tornam cada dia mais comuns. Esse é o verdadeiro perigo por trás do extremismo, empoderando grupos de ódio e arriscando a vida de inocentes. Décadas de luta das minorias, da ciência e da ecologia, podem se perder elegendo alguém que nem sabe ao certo o que fará com o poder, mas que o deseja mais do que tudo.

Pela primeira vez eu votarei no PT. Esse é o custo da democracia, que pago feliz para não eleger a conveniência de quem exalta a Ditadura. É irônico, porque voto em um candidato para lhe fazer oposição. Não, é mais do que isso. Eu voto para que a oposição não desapareça em um oceano de fanatismo.