Por ladrões receosos, outra vez

photo by Randy Colas

A diferença explícita entre um regime autoritário e uma democracia é o tempo de permanência no poder. Na democracia, homens brancos ricos e engravatados se revezam, às vezes uma mulher passa na frente e alcança a cadeira mais importante do país, às vezes um negro, e muito raramente, um pobre (como o importante exemplo de Mujica).

Em um regime autoritário, por longas décadas precisamos nos acostumar com o mesmo rosto mal encarado, masculino e bigodudo, salvo exceções, como Chávez. Estou falando dos bigodes, é claro, mas Maduro tomou o cuidado de resolver isso quando chegou a sua vez.

A alternância de poder é uma segurança contra o autoritarismo. Ela impede que os governantes criem raízes, além de enfraquecer as redes de corrupção, apesar de não evitá-las. Sozinho esse argumento é suficiente para apoiar causas como o Fim do político profissional e a eleição de deputados e senadores novos, gente que nunca pisou no Congresso.

A alternância também tira algum poder dos coronéis locais, que são obrigados a ceder a vez. É verdade que eles encontrarão formas de eleger seus fantoches, mas até fantoches podem ganhar vida própria, ao mesmo tempo em que a alternância favorece o surgimento de novos candidatos, com diferentes partidos, idades e propostas. Quem sabe até, alguém que não seja corrupto?

photo by Heather Mount

Em 1997 Fernando Henrique Cardoso (FHC para os íntimos) cometeu o maior erro da sua carreira. Eu não estou falando do escândalo da reeleição (venda de votos por 200mil), mas do próprio mecanismo de reeleição, pois em razão dele, desde 2002 o PSDB nunca mais subiu a rampa do Planalto.

Foi um tiro no pé, não só dos tucanos, mas da própria democracia. Tivemos que engolir uma longa era FHC, seguida de uma imensa era Lula, e a alternância do poder virou mais um conto de fadas de países desenvolvidos. As raízes se aprofundaram até ninguém mais conseguir tirá-las, levando a escândalos de corrupção nas mesmas proporções.

Não importa o partido e o governo, a corrupção está acima de todos, e depois de tantos mandatos seguidos, é quase impossível não chegar ao ponto em que estamos. É como um ladrão que fica cada dia mais ousado, já que os anos passam e ninguém o prende ou toma o seu lugar. No começo ele rouba apenas algumas moedas, até não resistir a tentação, e tomado pela frenesi monetária, enche as cuecas de dinheiro.

A não-alternância agrada apenas aos diretamente favorecidos, e hoje metade da população brasileira não sente que faz parte desse grupo. O repúdio justificado e injustificado cresceu com os escândalos e com a péssima administração de Dilma. Esse repúdio se transformou em ódio, trazendo para as eleições de 2018 um candidato “diferente” que elogia abertamente torturadores e os tempos idos da Ditadura Militar.

O “qualquer coisa é melhor do que Lula” briga com o “qualquer coisa é melhor do que o fascismo” (isso deveria ser óbvio), e quem sai perdendo é a democracia, mais uma vez. A não alternância do poder polarizou o país como se fosse uma luta do bem contra o mal, em que todos pensam estar do lado certo (até quem é a favor de matar bandido, e sem peso na consciência, promove candidato corrupto ).

O fato é que se existisse o candidato perfeito, não seria uma democracia. É como a frase atribuída a Churchill: “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”. Cada um é o seu próprio e único candidato perfeito.

Se você não quer entrar para a política (ou alimentar um ditador), escolha aquele candidato que mais se assemelha a suas convicções. É improvável que todos os presidenciáveis sejam completamente incompatíveis com a sua forma de pensar. Ah, mas o seu candidato não tem chance? Talvez não tenha porque você não vota nele (e porque pesquisas eleitorais influenciam no resultado, mas essa já é outra história).

A democracia está sempre em risco e precisamos lutar, torço para que seja apenas nas urnas.