Porta aviões não prende corrupto

Photo by Spencer Dahl

Eu já quis ser piloto da Força Aérea. Desde pequeno sou apaixonado pelos belíssimos Tucanos fabricados no Brasil e quando garoto eu sonhava em voar por cima da floresta Amazônica, protegendo o território nacional e combatendo os seus muitos vilões. O tempo passou, e eu finalmente entendi que os vilões brasileiros não se arriscam em combates aéreos, eles preferem a segurança do Congresso.

É claro que eu não perdi o gosto pela aviação e nem mesmo pelos tanques, uniformes camuflados e equipamentos de visão noturna, só parei de associá-los com a realidade. Descobri que tudo isso combina muito com a ficção e os jogos eletrônicos, e pouco com a pacífica vizinhança latino americana, onde até os ditadores mais insanos evitam conflitos internacionais (ainda que os conflitos internos sejam escabrosos).

As pessoas gostam de exércitos, sentem orgulho ao ver milhares de soldados saudando a bandeira nacional e marchando com os pés perfeitamente alinhados, como se fossem pagos apenas para isso. Dá orgulho de ver a Esquadrilha da Fumaça representando bem o Brasil pelo mundo, não apenas com suas acrobacias perfeitas, mas com a perícia da engenharia aeronáutica brasileira, representada pelos Tucanos. O problema é que tudo isso custa caro.

Apenas um rifle custa milhares de reais e um Super Tucano, em torno de 50 milhões. Com a aposentadoria do porta aviões São Paulo (futuro museu, que eu com certeza visitarei), já se fala na construção de um novo, com um custo estimado entre 3 e 5 bilhões de dólares (sim, dólares), valor próximo ao dos 36 caças suecos Gripen.

O Brasil teima em ser uma das grandes nações do mundo e por isso investe muito em Defesa. Quer ser reconhecido como a maior potência militar regional e, um dia, conquistar o tão sonhado lugar na janelinha, também conhecido como assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. É daí que vem essa necessidade inexplicável de comprar caças e construir porta-aviões, sem falar do submarino nuclear, uma novela que já dura 50 anos. Montanhas de dinheiro público que sequer passam perto do verdadeiro problema.

O orçamento do Ministério da Defesa para 2018 foi de 100,5 bilhões. É difícil entender valores tão grandes, então compare com o Ministério da Educação (110 bilhões), e o Ministério da Saúde (130,5 bilhões). Sim, é muito dinheiro, e ainda tem mais 550 milhões destinados apenas para a Justiça Militar.

É inacreditável, mas existem mais servidores em exercício no Exército (400 mil) do que na Educação (375 mil), com salários que podem chegar a 704 mil anuais. Como a agência Pública constatou em um excelente artigo, as pensões de militares respondem por 80% dos gastos com pessoal, “6% de toda a despesa do governo federal com pessoal”.

Apesar de tanto dinheiro, a grande verdade é que o Brasil é um nanico se comparado ao poderio militar de países como EUA, China e até Russia. Faz mais sentido se aliar a essas nações e parar de queimar dinheiro com sucata obsoleta importada, e investir onde tanto dinheiro realmente faz falta, como a Educação, Saúde e Segurança.

Como o The Economist aponta, o Exército brasileiro está se tornando uma força policial comum, logo, não seria melhor transferir parte desse orçamento diretamente para a Segurança Pública, que contrataria mais policiais e poderia oferecer o treinamento adequado à função?

É claro que não podemos ser ingênuos em pensar que o Exército pode ser desmantelado do dia para a noite. Muitos custos hoje aplicados na Defesa teriam de ser repassados para outros Ministérios, e dificilmente o Brasil poderia interromper a sua relevante contribuição militar às forças da ONU.

Estou certo de que o Brasil não é o único país que precisa diminuir o seu orçamento militar (utopicamente, seriam todos). Uma solução inteligente e elegante viria da união entre os exércitos sul americanos, reduzindo custos, reafirmando ideais pacifistas, expandindo a democracia e aproximando a vizinhança. Assim poderíamos até sonhar com o dia em que a guerra será proibida, e que no mundo exista apenas um exército.

Para quem ainda é apaixonado por tanques e caças, recomendo os jogos eletrônicos, suas guerras e mortes virtuais.