Quer dizer que eu sou hipócrita

photo by davide ragusa

A moderna ansiedade de se sentir querido, somada à incapacidade de absorver tudo o que vê, favorece o surgimento de diversos tipos de hipócritas. O mais comum pode ser chamado de Conveniente.

Cada dia o Conveniente abre o Facebook para se tornar defensor de uma nova causa, de uma minoria que nunca ouviu falar e, com frequência, apoiar correntes de oração para doentes terminais inexistentes ou compartilhar posts que discorda, mas que interpretou errado o título.

Sim, eu também já fui um Conveniente. A gente se dá conta disso quando compartilha que é a favor do estado mínimo e em seguida curte um post sobre a importância dos investimentos públicos na ciência. Ou quando compartilha uma imagem chocante de sacolas plásticas no intestino de uma tartaruga, e depois percebe que não separa o próprio lixo. Ou ainda quando dizemos que o futuro do país depende da Educação, mas não lembramos da última vez em que lemos um livro ou pisamos em uma sala de aula.

Descobrir o tamanho de nossa hipocrisia é o primeiro passo, quando deixamos de ser Convenientes e nos tornamos Convictos. O hipócrita Convicto se sente no direito de postar sobre qualquer coisa, exigir os maiores despautérios da sociedade e se excluir de todos eles. O raciocínio é que se todo mundo mudar, o planeta será um lugar melhor, sem que ele tenha que mover um dedo.

Eu entendo, é difícil acreditar na fábula da formiga (que se cada um fizer a sua parte e trabalhar bastante…), porque existe um risco muito grande de o mundo ter apenas babacas, que não farão nada.

Eu já falei sobre babacas:

Mas a verdade é que se as pessoas fossem mesmo incapazes de mudar, não haveria um movimento crescente de vegetarianos, as minorias não conquistariam o seu espaço na sociedade, os militares até hoje torturariam jornalistas e eu ainda usaria calça Big.

Por isso é importante atingir o último estágio da hipocrisia, que é o Comprometido. Como o nome sugere, esse tipo de hipócrita é aquele que não apenas muda as suas convicções diante de novos argumentos, não apenas consegue olhar para si mesmo e perceber a sua própria hipocrisia (“quer dizer que eu sou machista por não querer que a minha namorada saia sozinha?”) como também, tenta mudar isso.

Para combater o machismo, por exemplo, devemos lutar por mais mulheres no governo, mas antes devemos combater o nosso próprio machismo. Isso porque ninguém deixa de ser machista de um dia para o outro, é um processo que pode levar anos, algo que normalmente começa com “acho que eu devia lavar a louça”, até chegar em coisas como “seria bom ter uma presidente mulher”.

O hipócrita Comprometido repensa suas atitudes, se arrepende duramente de frases que disse sem pensar, pede desculpas, tenta compensar aquele meme inadequado que postou. Em outras palavras, é alguém que aprende com o conhecimento que adquire e os posts que compartilha, absorve para a sua vida as mudanças que espera do mundo e tenta criar as suas próprias mudanças. São justamente as pessoas que fazem posts sobre mudar o mundo, ou você acha que todo mundo nasce feminista, vegetariano, protetor da ararinha azul e simpatizante da pluralidade cultural?

Ser um hipócrita Comprometido é perceber que é possível compartilhar a foto de um oceano cheio de plástico e não aceitar mais sacolas plásticas no supermercado. É possível compartilhar sobre a péssima educação e ajudar no aprendizado dos seus filhos. É possível compartilhar o desmatamento da Amazônia e diminuir o consumo de carne…

Já volto. Preciso lavar a louça.