Somos órfãos em uma nave espacial

Photo by Ben Wicks

Um dia despertamos, inteligentes e confusos, em um universo desconhecido. É claro que não foi de repente, até esse ponto o processo já durava milhares de anos, nos distanciando de nossos primos em fisionomia e capacidades.

Somos únicos em inteligência, o que também leva ao equívoco de que somos especiais. Afinal, como explicar o abismo que nos separa das outras espécies? Falta algo, que precisamos desesperadamente preencher, como os criadores que não tivemos.

Não por um acaso, a nossa cultura é apegada ao pressuposto de que fomos abandonados. Nas religiões, oramos pela volta dos deuses, ou inventamos paraísos celestiais que seriam os nossos verdadeiros lares. Na (autodenominada) ficção, imaginamos a companhia das mais incríveis espécies semelhantes a nós, ou olhamos para as estrelas a espera da avançada tecnologia alienígena que, não raro, nos originou.

Crentes ou racionais, esperamos por pais que nos deixaram para trás, um pensamento perigoso que tira a responsabilidade sobre as nossas decisões. Agimos como as crianças de O Senhor das Moscas, criando uma sociedade que reflete a nossa visão limitada do mundo, para bem e para mal.

“O livro retrata a regressão à selvageria de um grupo de crianças inglesas de um colégio interno, presos em uma ilha deserta sem a supervisão de adultos, após a queda do avião que as transportava para longe da guerra.” Wikipedia

Inventamos formas de governo, de poder, de religiosidade, de convivência, de arte. Nos dividimos em grupos, classes e castas, pobres e ricos, doutores e peões. Divisões que existem apenas na nossa imaginação, fruto da cultura que fabricamos, que pode ser útil ou inútil, trazer avanços ou retrocessos, libertar ou limitar.

Sem “adultos” para nos mostrar o que é certo, dependemos de nossa própria capacidade para criar tecnologias e conhecimento, e do nosso próprio julgamento para tomar decisões, o que torna o progresso lento, penoso e frágil. Frágil, porque décadas de avanços podem se perder em meses para o moralismo e a pseudociência, que alimentam as mentes preguiçosas ou paranoicas.

Tudo o que sabemos ou imaginamos sobre o universo é resultado do acúmulo de cultura ao longo de milhares de anos, em especial, da última centena. Isso inclui o conhecimento sobre nós mesmos, como robôs que despertam ansiosos para entender o funcionamento de suas próprias peças, a forma como se juntaram e de quem é o projeto. Sem uma explicação convincente, não é raro apostar em divindades e alienígenas.

Diferente do que pregam todas as grandes religiões, a humanidade nunca encontrou o Manual de Como Se Virar no Planeta Terra. Por isso não sabemos cuidar da nossa casa e também não nos importamos.

Até recentemente não tínhamos noção de que esse belo lugar onde despertamos é uma nave. Hoje sabemos, não muito, mas o suficiente para entender que ela não pode ser substituída, que seus recursos são limitados e que nós somos diretamente responsáveis pelo que acontece com ela.

Não somos imortais ou poderíamos nos lembrar com nostalgia das espécies extintas e de como o mundo era antes de sofrer transformações tão severas. Porém, a vida humana é curta e a nossa memória é falha, o que nos torna imediatistas e desinteressados em avaliar o estrago que causamos.

Com ou sem explicação para a nossa existência, agimos como órfãos. Esperamos religiosamente pela ajuda divina ou tecnológica que nos resgatará do mundo absurdo, desumano e sujo, que nós mesmos construímos.

Talvez estejam todos certos e um dia salvadores descerão dos céus para puxar as nossas orelhas e corrigir os nossos erros. Imagino o choque em seus olhares ao se depararem com as nossas favelas e pastos, enquanto fazem a mesma pergunta que o soldado de O Senhor das Moscas:

“O que vocês estão fazendo?”