Vá aprender História!

photo by mohamed Abdelgaffar

Provavelmente a primeira coisa que se aprende em um curso de História é: “para que serve?”. Uma pergunta importante, afinal de contas, as pessoas estão investindo dinheiro nisso e, mesmo aqueles que não tem o menor interesse pelo assunto, foram obrigados a dedicar longas horas de suas vidas para saber o que foi a Queda da Bastilha ou quem eram os Astecas.

A verdade é que a maioria dos estudantes de História entra para o curso sem fazer a menor ideia do que está fazendo ali. Escolheram História, não porque o curso possa ter uma importância inestimável para a humanidade, mas simplesmente porque gostam de livros enormes, ilustrados com pinturas renascentistas ou fotos em P&B.

Para entender escravidão, colonialismo e Guerra do Paraguai, a maioria da população precisa enfiar garganta abaixo os livros didáticos e clássicos, então algum apreço é sempre bem vindo. Porém, gostar não é o suficiente para que uma área inteira do conhecimento seja criada e que toda a população mundial seja obrigada a aprendê-la. Deve ter alguma razão maior para que História seja ensinada nas escolas, além de obrigar crianças a decorar datas, nomes e lugares por onde nunca vão passar.

Vá aprender História!

Ultimamente um dos gritos mais comuns nas redes sociais é “Vá aprender História!”, numa alusão a todos os internautas que apoiam candidatos racistas, desprezando as tragédias do Holocausto e das ditaduras militares. Curiosamente os adeptos da direita ultraconservadora também gritam a mesma coisa, defendendo que na época da ditadura havia mais respeito e as escolas eram boas.

Ignorância seletiva, de quem lembra da construção de Itaipu, mas não sabe quanto ela custou, de quem lembra da segurança nas ruas, mas não morava na periferia, de quem era livre para concordar com o sistema e não perdeu nenhum filho para a tortura (inclusive de crianças).

Aprender História é uma vacina contra a ignorância e as injustiças sociais, respaldo para as recentes políticas de cotas que ajudam a corrigir os erros do passado, e até mesmo para que não sejam eleitos candidatos que despejam ódio sempre que abrem a boca (precisa de História para isso?). Logo, o que precisamos nos perguntar é como estudar História?

Como estudar História?

O passado define um povo da mesma forma como define um indivíduo. Uma pessoa tem suas vergonhas e orgulhos (apanhar na escola, fazer bons amigos) que moldam o seu caráter e personalidade. A História também é um conjunto de orgulhos e vergonhas, que por sua vez, constroem a cultura de um povo. Não preciso dizer que aprendemos muito mais com nossas vergonhas.

Por razões como essa, aprender História não é o mesmo que exaltar a História. No passado quiseram fabricar uma identidade nacional, com seus heróis e feitos, surgindo os mitos de Tiradentes, Zumbi dos Palmares e Duque de Caxias. Pouco disso tem conexão com a realidade ou traz algo de bom para a sociedade, no máximo um nacionalismo tão infeliz quanto qualquer outro.

O objetivo mais importante da História é justamente o contrário, é lembrar o que todo mundo quer esquecer. Impedir que se apague da memória a escravidão, tortura e mortes que construíram a sociedade moderna, para que injustiças históricas não sejam feitas e líderes populistas não sejam eleitos. História é basicamente aquele amigo de infância que não te deixa esquecer que um dia você foi um garoto mal educado, espinhento e que ia mal na escola.

O mundo está cheio de péssimos exemplos de socialismo e capitalismo, mas tanto a Esquerda quanto a Direita pinçam modelos de sucesso para convencer a população de que possuem a solução de todos os problemas. Estudar História é estar atento a essa manipulação, conquistando a liberdade intelectual de não depender da opinião alheia.

A História tem ainda uma importância maior em dias tumultuados como os nossos. Ela mostra, com todos os exemplos que alguém tenha paciência de contar, que a solução dos problemas da humanidade não virá de salvadores e suas propostas autoritárias, mas de sociedades cooperativas e engajadas no ideal de desenvolvimento.