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A Banheira do Gugu e o fim da democracia brasileira

Programas de auditório dos anos 90 e autoritarismo político.

Valter Nascimento
Jul 28 · 7 min read

Em 24 de outubro de 2000 chegava ao fim um longo imbróglio entre a justiça de Minas Gerais e a produção do programa Domingo Legal. O quadro “Banheira do Gugu” não iria mais ao ar nas tradicionais tardes de domingo. A acusação era que o quadro era extremamente inapropriado para os jovens menores de 14 anos.

Se você não está familiarizado com os anos 90/início dos anos 2000 é bom saber que o quadro ia ao ar enquanto da família brasileira mastigava a macarronada de domingo. Tudo se resumia a uma banheira disposta num palco onde subcelebridades seminuas se espremiam para vencer a aposta de quem pegava mais sabonetes.

A combinação de corpos seminus ensaboados ao som de uma música latina-tribal despertava um certo tipo de torpor dentro da alma brasileira — principalmente do público masculino. Não eram raros seios pulando para fora dos bojos dos biquínis, ereções mal disfarçadas e posições constrangedoras.

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Os programas de auditório da TV brasileira foram o maior celeiro de fetiches e traumas sexuais ao longo das décadas. Desde as Chacretes, passando pela nave psicodélica da Xuxa (e todo um panteão de apresentadoras infantis que representavam diferentes fetiches masculinos), até o limite da sanidade de programas como o Domingo Legal, a TV brasileira sempre foi o ambiente onde, como diria Lacan, o não dito poderia ser expressado nas entrelinhas.

Esse tipo de atração cumpria a função social de reforçar todo domingo que o lugar do macho brasileiro estava resguardado e que sua vontade não seria contrariada. No imaginário masculino aquilo tudo era uma libertinagem permitida, que não violaria as regras da religião ou da família, pois vinha disfarçada de diversão inocente.

Enquanto nossos pais coravam de vergonha numa cena de novela com um beijo um pouco mais quente, era totalmente normal assistir mulheres tomando banho numa taça gigante com camisetas brancas semitransparentes, closes ginecológicos em bailarinas de axé ou crianças rebolando de modo muito (MUITO) sexualizado em direção da boquinha da garrafa. Não era raro que logo após uma sessão erótica molhada ao vivo as atrações seguintes fossem padres ou cantores gospel promovendo a benção da família.

Então, no alvorecer dos anos 2000, veio o 11 de setembro, a guerra ao terror, as redes sociais, o capitalismo de vigilância e o fim da Banheira do Gugu.

David Hopkins escreveu um texto muito popular no Medium sobre como o fim de Friends marcou o início da decadência ocidental. Exagerado? Sim, mas há algo de verdadeiro aí.

Friends representava um produto cultural americano sólido e destinado a um público intelectualizado, com piadas elaboradas, que abriria o caminho para um novo tipo de humor. O encerramento da atração era, de certo modo, a marca do fim de uma mentalidade e iniciaria uma era marcada pelo desespero da fama, Paris Hilton, Kardashians e youtubers mergulhados em banheiras de Nutella.

A estética dos programas de auditório da TV brasileira também foi abalada com a chegada da internet. Numa sociedade mais conectada, onde temas como objetificação da mulher, machismo e pluralidade sexual passaram a ser debatidos em redes sociais, não cabia mais o discurso da mulher que sorri para a câmera o tempo todo enquanto rebola de biquini. E então, tal qual Friends, a Banheira do Gugu perdeu a relevância, mas aquele sentimento continuaria represado.

Não me sai da cabeça que o homem branco, de direita, vestido com camisa verde e amarela, gritando pelo fim do STF e volta do AI-5 foi uma criança órfã da Banheira do Gugu. A geração que hoje está na casa dos 30–40, tal como eu, vivenciou esse entica-e-puxa moral de modo muito contundente. A sociedade da era da informação passou a ser intolerante com os intolerantes e isso iniciou um longo processo de frustração, recalque, ódio a diferença e ao feminino que reacenderia as brasas da extrema direita e do fascismo.

Junto com essa frustração do macho branco, veio a idolatria da super masculinidade, das armas e do jeito norte-americano de viver como expressão de revolta contra uma sociedade brasileira “igualitária demais”. O coach que ensina como ser masculino é um exemplo de como boa parte do universo macho brasileiro perdeu seu ponto de referência quando a misoginia deixou de ser algo banal.

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Se você não conhece o vídeo, clique aqui por sua conta e risco.

Letícia Quatel abordou isso com bastante clareza nesse artigo. A direita bolsonarista é movida por enormes doses de mágoa masculina. Uma combinação de frustração diante dos novos símbolos sociais de diversidade, como se a masculinidade estivesse em franca desvalorização. Sem outra coisa para colocar no vazio estrutural deixado eis que surgiu um movimento cada vez mais crescente de retorno aos valores tradicionais — valores esses completamente centralizados ao redor da ideia da satisfação masculina.

Os exemplos práticos são emblemáticos. Desde a política destrutiva ministério da educação, repleta de episódios de retaliação gratuita, até a política difamatória das fake news e a abordagem sistemática contra a democracia. Desde a “fraquejada” do presidente, até a política que associa esquerda e homossexualidade a pedofilia. O macho branco frustrado é uma arma de destruição em massa. O jovem que babava olhando os seios pulando no meio da espuma continua vivendo até hoje a interrupção transcendental de um coito imaginário com uma mulher ideal que não existe de fato. Em resumo: estamos pagando a conta da terapia de um monte de gente frustrada que chegou ao poder.

Desde os primórdios a mágoa é o combustível da internet. Todos sabemos que o Facebook nasceu como um projeto de vingança de um nerd contra uma garota que não lhe correspondeu. No podcast Rabbit Hole, Kevin Roose investiga essa relação entre frustração masculina e o ninho neofascista que a internet está se transformando.

No começo dos anos 2000 e pelos anos seguintes, mais e mais homens brancos, sem planos pessoais e extremamente recalcados, passaram a consumir doses cavalares de vídeos de extrema direita no Youtube. A maioria desse conteúdo era de gurus da autoajuda, nomes que dariam origem ao movimento coaching e a ideia de que qualquer pessoa com boa oratória e um canal online sabe mais do que qualquer especialista. Para Roose, o que o Youtube e as redes sociais estão fazendo de fato é um tipo de psicoterapia do ódio coletivo. Quando você está frustrado sozinho no seu quarto você é um perdedor, quando está frustrado ao vivo na internet com milhares de seguidores você é um digital influencer.

No Brasil esse movimento elegeu uma dezena, talvez mais, de youtubers alimentados por polêmicas, racismo, discurso de ódio e todo tipo de lixo ideológico. O motor desse movimento está na frustração, mas também no sentimento de que as mídias tradicionais não representam mais a vontade das pessoas “de bem”. A TV de certa forma amadureceu, enquanto a internet passou a acolher uma legião de insatisfeitos, amedrontados por qualquer tipo de diferença.

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O pato da FIESP — outro símbolo ligado a… banheira?

O conceito da Banheira do Gugu é uma lasanha de Freud e Lacan. A lascívia era abrandada com a ideia de que “eles não estão se pegando, estão brincando num ambiente escorregadio, tudo isso é casual”. Algo próximo das lutas de wrestling americanas, onde homens se esfregam uns nos outros não em nome do prazer homoerótico, mas do desafio.

Outro símbolo muito forte era a ideia de que tudo ocorria numa banheira — ambiente do estímulo sexual, mas também da limpeza, da purificação. Ou seja, era tudo muito sujo, mas também tudo “muito limpo”.

Durante os anos finais dos 2010 vimos pela primeira vez, desde a ditadura militar, o discurso de ódio propagado em rede nacional como atração principal. Vale lembrar que muito antes de ser eleito o presidente Jair Bolsonaro foi um assíduo participante de programas de auditório.

O que vemos nos anos 2010 até a o impeachment de Dilma Rousseff é uma virada na forma como a TV passou a dialogar com o espectador — principalmente o homem, branco, jovem e frustrado com a política. Para concorrer com o Youtube, saíram as gostosas ensaboadas e entraram os programas que chamo de pulsão de morte televisionada.

Se com o Domingo Legal tínhamos uma malemolência letárgica de seios saltitantes e sungas volumosas, as masmorras televisivas como o CQC, Pânico na TV e Superpop exploraram ao máximo a figura freudiana do “pai que vai corrigir nossas pulsões”. Padres, pastores e políticos eram colocados semanalmente diante de debates infrutíferos, que hoje parecem absurdamente inúteis, mas que ainda pautam o estilo do jornalismo da CNN Brasil, por exemplo.

Disso saltamos para os patos infláveis de borracha amarela sacolejando no meio da avenida Paulista, símbolos de grupos neonazistas ucranianos inseridos discretamente em manifestações contra a democracia, estátuas da liberdade feitas em fibra de vidro na porta das lojas Havan, retratos de Sérgio Moro feitos com balas de fuzil e símbolos templários e da monarquia ao lado de manifestantes vestidos de verde e amarelo. Bonecos do personagem Scarface e cartazes pedindo a volta do AI-5.

Enquanto vivemos uma crise política, sanitária e social, assistimos também a uma crise estética e psicológica, criada em torno do conceito que o macho brasileiro perdeu o seu espaço. De certa forma os anos 2000 nunca acabaram.

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