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A falta de esperança como caminho — Žižek e o problema da espera

Valter Nascimento
Jun 26 · 6 min read

O filósofo esloveno Slavoj Žižek publicou recentemente um pequeno e poderoso livro chamado A coragem da desesperança. Nele somos confrontados com uma tese pouco ortodoxa de que a esperança algumas vezes é uma merda.

Um dos exemplos usados pelo autor é o romance A consciência de Zeno, de Ítalo Svevo. Orientado por seu médico o personagem principal começa a escrever as memórias sobre seus temas mais relevantes: seu casamento, sua vida no trabalho e seu hábito de fumar.

Zeno divide-se entre o prazer do tabaco e a preocupação com a saúde. Se você como eu já fumou, sabe que o principal problema para abandonar o cigarro é a esperança. Você acredita que poderá parar a qualquer momento — e isso nunca acontece. O último cigarro do fumante é sempre o mais gostoso, e quanto maior a promessa de parar, maior o prazer em fumar. A esperança mostra-se como uma força paralisante que impede mudanças efetivas. Segundo Žižek:

“A possibilidade de mudança é evocada para garantir que ela não será posta em ação.”

Isso é o mesmo que dizer que a esperança de um mundo melhor não faz um mundo melhor, faz apenas um mundo em constante espera de algo melhor por vir. Enquanto tivermos chance de transformar algo jamais transformaremos. A transformação nasce justamente da desesperança.

Žižek defende que a falta de alternativas é uma alternativa em si. O fim da linha inclui a anulação dos desvios. A esperança nasce da variedade de possibilidades positivas e ancora uma postura de perpétua espera por algo melhor.

Servidão e finais amargos

O livro que melhor ilustra os perigos da esperança é o A servidão humana, de Somerset Maugham. Acompanhamos a vida de Philip, um jovem que nasceu manco e por conta dessa limitação passa a vida colhendo desaforos dos outros. Ao longo das páginas vemos um homem desesperado por reconhecimento se tornar alguém amargo e frio. E essa é a intensão de Maugham, a desesperança de Philip, — que tenta ser médico, pintor, ama mulheres erradas e manca — se torna sua única possibilidade. Enquanto esperançoso da bondade do mundo, tudo o que Philip recebe é trapaças e humilhações. Quando sua vida entra num beco sem saída é que ele encontra o seu caminho. Ele diz:

“Não adianta chorar sobre o leite derramado, porque todas as forças do universo estavam empenhadas em derramá-lo.”

Não é pura resignação ou desistência. Maugham, assim como Žižek, compreende que a esperança sem ação é apenas um nome bonito para procrastinação. Maugham possui uma visão cristalina sobre isso:

“Está claro que os homens aceitam uma dor e não um prazer imediato, apenas porque esperam um prazer maior no futuro. Muitas vezes, o prazer é ilusório, mas o erro deles no cálculo não contraria a regra. […] um homem que morre por seu país morre porque gosta, tanto quanto um homem come repolho em conserva porque gosta de repolho.”

A servidão humana não é um livro sobre a submissão de um homem a outros homens (e mulheres, como o leitor percebe bem ao longo do texto), mas de um homem submisso a suas esperanças. Philip é um eterno espectador de si mesmo, que avança e recua esperando que o dia seguinte seja melhor. Um tipo de otimismo-pessimista, pois suas intensões são positivas, mas o resultado é sempre desastroso.

Tem muita gente por aí se esforçando, de modo bastante honesto até, para nos convencer de que sim, vai ficar tudo bem e que tudo voltará ao normal. Esse pensamento é duplamente perigoso. Primeiro, o que compreendemos por “tudo bem” representa, muitas vezes, a repetição de um status quo perverso. “Vai ficar tudo bem, você manterá o emprego que te explora, porque, afinal, é melhor do que não ter emprego algum”. Se “ficar bem” significar “ficar como estava antes”, então nada vai “ficar bem”, vai apenas “ficar”. O conceito de uma coisa que anda bem significa algo que se desembaraçou de seus problemas, e o mundo pós-pandemia me parece ainda mais embaraçado em problemas ainda mais severos.

A segunda questão é o que entendemos como “voltar ao normal”. O capitalismo tardio não conhece nada sequer parecido com a normalidade. Estamos vivendo o que David Harvey chamou de “moinho satânico”, uma máquina de moer gente implacável e desenfreada que não nos garante nenhuma estabilidade financeira, física ou emocional. O caos não é muito pior que a normalidade, a diferença é que a normalidade contempla a chance da esperança. Ou ainda, a esperança é o que dá um ar de normalidade ao caos e a selvageria capitalista.

Ter esperança para que esse cenário se mantenha é o mesmo que um prisioneiro que tem esperança em ir para a cadeira elétrica porque a refeição final é muito boa.

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O que os filósofos concordam é que em tempos sombrios as pessoas mostram o seu melhor e o seu pior. Não por esperança em dias melhores, mas por falta de alternativa. Quando não há nada depois é que se faz preciso iniciar algo.

Embora muitos estejam vendendo essa ideia, não há chance alguma de normalidade depois disso. Todos seremos atingidos pelos destroços dessa bomba colossal chamada capitalismo pós-pandêmico. Perderemos empregos, pessoas queridas ou saúde mental. Mesmo assim a pandemia não é o agente destruidor da sagrada estabilidade social. Já vivíamos antes dela uma espécie de caos lo-fi, uma degradação em baixa frequência que escapava aos ouvidos menos sensíveis. O que acontece agora é um descortinamento do horror, em horário nobre, com a permissão do governo e a colaboração de alguns muitos cidadãos.

Ainda falando em Žižek, a desesperança pode fornecer um tipo novo de coragem, uma petulância benéfica e necessária para mudar as coisas:

A verdadeira coragem não é imaginar uma alternativa, mas aceitar as consequências do fato de que não há alternativa claramente discernível […] Em resumo, a verdadeira coragem é admitir que a luz no fim do túnel é provavelmente o farol de um trem vindo de encontro a nós.

A desesperança promove, no tempo certo, um jeito peculiar de praticar a coragem. Você vai precisar de coragem para sair de casa novamente, para sentar-se num restaurante e pedir o prato do dia. Coragem para buscar um novo emprego, para rever seus amigos, para se cuidar e cuidar dos seus. Diferente da esperança, a coragem tem uma pitada de teimosia, cansaço e soberba, ela não opera de acordo com o planejado. A coragem aceita o inesperado, o improviso e não espera que nada melhore. Ela é um mecanismo acionado nos momentos errados para soluções certas.

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Esses dias vi uma profissional da saúde de pé, impassível, diante de um bolsonarista que dizia contra ela uma série de xingamentos. O mais curioso dessa cena horrenda era que, num dado momento, uma mulher do grupo direitista afirmava que estava ali porque tinha esperança de um país melhor. A ideia de esperar que o governo faça algo pelo país serviu como pretexto para agredir quem, na prática, realmente faz alguma coisa.

É sintomático que se veja tanto verde nas manifestações de extrema direita, que essa cor simbolize sempre a imagem de um país melhor amanhã — sempre amanhã, não hoje. E que do outro lado da arena o preto, cor do luto, e o vermelho, cor do sangue, sejam as cores dos que não sabem mais o que esperar. Não esperar mais nada é a melhor forma de desarmar os acomodados.

Gosto muito do que disse certa vez Anaïs Nin:

“A vida diminui ou se expande proporcionalmente à coragem.”

Mais do que nunca isso faz todo o sentido.

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