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As redes sociais não existem mais

Valter Nascimento
Jul 21 · 8 min read

Publicado originalmente no Blog do Valter

Desde o surgimento do Facebook e a popularização do Instagram do Twitter as redes sociais migraram de espaços ingênuos de conexão entre usuários para um modelo de negócio tão complexo e lucrativo quanto a mídia tradicional.

O uso das redes sociais como veículo de manipulação de informações da política de extrema direita é uma prova de que a internet não é mais um playground inocente onde todos brincam ao sabor dos algoritmos. O poder massivo da informação online não depende mais da veracidade da informação — mas do alcance do conteúdo e na capacidade de uma rede em manter seus usuários presos a um sistema de retroalimentação sem saída.

Outra coisa chama a atenção quando entramos em uma rede social. Há um sentimento de estranhamento, cansaço e frustração que superam qualquer tentativa de fluidez na experiência do usuário. Não é mais uma questão de design, mas de propósito. Certamente o impulso que nos leva a acessar o Facebook hoje não é o mesmo de 10 anos atrás. Estamos cada vez menos logados para a diversão e muito mais conectados para o sofrimento.

Ainda existe um resquício daquele sentimento de integração comunitária atraente e transformador que nos abraçou ao longo dos anos 2000 e que nos levou a abrir nossas contas, inserir nossos dados e incentivar nossos amigos. Mas esse sentimento se apaga a cada dia e não iremos querer que nossos filhos mexam nessa coisa chamada rede social sem alguma advertência. Me lembro que fui um dos maiores incentivadores para que minha mãe quebrasse o gelo e abrisse sua conta no Facebook, afinal, seria uma ótima maneira de conectar-se com os parentes distantes, saber das notícias, socializar com outras pessoas da idade dela. Hoje boa parte da minha família está dividida por confusões iniciadas graças a esse pensamento cheio de boas intenções. Não, a culpa não é da polarização política. A polarização política é que surgiu dentro das regras distorcidas das redes sociais. Quando o clique se tornou mais relevante que a própria lucidez do usuário as redes sociais começaram a morrer lentamente.

Eco digital

A verdade é que as redes sociais não existem mais há um bom tempo. Elas migraram de um modelo utópico paz, amor e bites para um moinho digital que se alimenta de ódio, conteúdo falso e propaganda baseada em algoritmos e uso de dados pessoais sem consentimento de seus usuários. Shoshana Zuboff em A era do capitalismo da vigilância resume a questão de modo muito claro:

“Não basta mais automatizar o fluxo de informações sobre nós; o objetivo agora é nos automatizar.”

O que isso quer dizer? Quer dizer que as redes sociais não estão apenas controlando de modo agressivo o que estamos consumindo em termos de informação digital, mas estão criando um ambiente onde nossas reações são apenas parte de um processo de marketing. Nossa indignação, nosso afeto ou capacidade crítica são apenas alimento para algoritmos a serviço de governos, marcas, produtos, ideologias. Não era essa a ideia que eu imaginava ter que enfrentar quando criei minha conta no Facebook, você também certamente não entrou lá pensando nisso.

O que estamos acessando diariamente é um eco, um arremedo de espaço democrático para conexão de pessoas que não é democrático e sequer é regido para pessoas. Repetimos, sem saber o motivo, um ritual diário de checagem de um cadáver digital putrefato e sem mais nenhuma carne. Estamos apenas evitando o luto.

Os algoritmos passaram um trator sobre qualquer sutileza comunicativa e transformaram os feeds em uma espécie de banner virtual onipresente, dentro do qual são projetadas propagandas, notícias falsas e todo tipo de conteúdo abjeto que viraliza em nome apenas da polêmica, do clique e da coleta de dados. Houve um tempo em que essa transação suja era feita por baixo dos panos, agora está cada dia mais claro que não há nada nas redes sociais além de um mercado de informações pessoais usado para alimentar grupos extremistas e governos autoritários.

O que chamamos hoje de rede social não passa de um curral comandado por algoritmos. Não há mais nenhuma intensão em informar, mas apenas um trabalho repetitivo que agrupa, controla e espalha informações sem levar em conta o usuário. Tudo isso é recheado com um sistema de propagandas cada vez mais incisivas que impedem que o usuário tenha uma experiência livre de ruído. Nossa atenção oscila entre a dúvida e o excesso de informação. Saímos das redes sociais piores do que entramos.

40%

Durante uma semana fiz uma experiência simples. Depois de limpar o feed de minhas principais redes sociais observei como seria a minha interação com o Facebook, Instagram, Twitter e Youtube (embora eu não considere o Youtube uma redes social, ele possui poder de influência no meu comportamento digital).

O Facebook é certamente o caso mais absurdo. Mesmo selecionando as principais fontes de conteúdo, o algoritmo que mantém o feed azul funcionando não respeita a vontade do usuário. Páginas menores ou criadores independentes são ocultados do feed em nome de portais maiores ou de canais pouco confiáveis de extrema direita.

O volume de informação falsa também é chocante. Mesmo sinalizando sistematicamente esse tipo de conteúdo, o Facebook continuava a me exibir vídeos de curas milagrosas para a Covid-19 ou teorias conspiratórias dizendo que prefeitos ganham a cada morte durante a pandemia.

O Instagram é certamente outra rede social que existe apenas em termos de estrutura e algoritmos — nada em sua interação com o usuário faz qualquer sentido. Não há nada, absolutamente nada, que facilite a comunicação entre usuários, nem que garanta sua autonomia de uso e consumo de conteúdo.

Ao longo de uma semana contei quantas propagandas me eram exibidas dentro do Instagram ao longo de um scrolling diário com 30 fotos. A cada 30 imagens, 12 eram propaganda — isso representa mais de 40% do feed exibido. Dessas imagens cerca de 5% representavam produtos do meu interesse (roupas masculinas, artigos para gatos e livros). O restante era apenas loucura algorítmica baseada mais no interesse do anunciante do que no meu. Guias de como aprender inglês rápido (apensar de eu já falar inglês), passeio na serra do Roncador, aulas de caiaque em Roraima, aplicação de Botox e máquinas para gaseificar água foram algumas das peculiaridades.

Mesmo interagindo com marcas e produtos do meu interesse, o feed se mantém aleatório, cansativo, repetitivo.

Outro fator desanimador: o algoritmo do Instagram valoriza apenas as páginas que você mais curte/visualiza, o que gera um efeito de “de novo esse pessoal?”, que achata o seu raio de alcance como usuário, deixando de fora conteúdos que estão sendo atualizados, mas não chegam ao seu conhecimento.

No caso do Twitter a limpeza do feed foi mais eficiente. Utilizei sites de bloqueio massivo como o block together e vi meu feed clarear, sem anúncios excessivos. O problema do Twitter certamente é outro. Embora o feed possa ser mais “confiável”, essa é uma rede igualmente movida por burburinhos e polêmicas. É preciso selecionar os conteúdos com redobrada atenção, pois um influenciador confiável muitas vezes se parece com um repetidor de conteúdo ruim em nome do “olhe que coisa horrível essa pessoa fez”. Ou seja, de nada adianta não seguir contas toxicas se a toxicidade é replicada por outras pessoas. Outro problema: a quantidade colossal de contas falsas administradas por robôs. Isso abre debates guiados apenas para favorecer um nome ou destruir a reputação de alguém. Assistir isso diariamente, sem que o Twitter tome qualquer providência, é desesperador.

Defesa pessoal

Extremismo ligado a movimentos fascistas, excesso de propagandas, notícias sem verificação sendo promovidas com a permissão das redes, discurso de ódio, feeds que não se ajustam aos interesses do usuário e impossibilidade de criar pontes comunicativas limpas e diretas com os criadores e usuários que nos interessam. Com esse pacote de problemas graves, porque ainda usamos redes sociais?

A primeira coisa que devemos saber é que as redes sociais nasceram com a promessa de conexão e integração entre pessoas. Isso serviu apenas como isca para a obtenção de dados. Depois houve um período de consolidação da rede social como ambiente de memória. A popularidade do Instagram está fundamentada na ideia de que ali a sua vida possui uma linha do tempo coerente. O Facebook explora o mesmo conceito, porém de modo mais plural. A sua linha do tempo é parte dos seus pensamentos, opiniões e conquistas. Os seus amigos são parte do seu meio social real e merecem ser “cativados” dentro de um ambiente de interação. A terceira e atual fase das redes sociais é que elas são ambientes de contato com um tipo específico de informação. Redes como o Facebook e Twitter dependem da crença do usuário no “poder da participação”. Isso aproxima a rede social da esfera pública, um espaço coletivo de debate da sociedade.

O problema é que numa esfera pública não há alteração na informação que está sendo debatida. A pegadinha das redes sociais é em criar uma ideia de liberdade de opinião que é baseada claramente em manipulação de informações. “Você é livre para participar comentando essa notícia falsa que nosso algoritmo colocou no seu feed para gerar cliques para esse partido político ou essa marca de sabonete”. Poder comentar qualquer coisa em qualquer lugar não representa nenhum tipo de participação efetiva em questões reais, pois o que está sendo debatido muitas vezes não é verdadeiro.

Acredito que ainda usamos redes sociais apenas pela força do hábito. Elas estão lá, nós não temos o que fazer, eis toda a dialética que resulta apenas em desinformação, frustração e anúncios excessivos de coisas que não queremos comprar ou pessoas que não queremos saber sobre. No final as redes sociais viraram isso, um grande espaço de poluição intelectual, replicando conteúdos virais sem qualidade, para pessoas entediadas e viciadas em dar scrolling.

Já faz um tempo que redes sociais não cumprem com nenhuma de suas funções. Elas não criam laços sociais, não informam e ainda falharam miseravelmente na tarefa de monetizar seus espaços com produtos minimamente ligados ao nosso gosto. Estamos apenas rolando em algoritmos imperfeitos, mantidos por marqueteiros que repetem o mesmo slogan de que a internet é uma coisa maravilhosa — mas essa coisa não mostrou a que veio.

Existe saída? Certamente, mas ela não é fácil. Mais e mais pessoas estão criando o seu próprio algoritmo e personalizando o modo como usam a internet, sem a necessidade massiva de redes sociais. O meu plano tem dado certo. Mais e mais conteúdo por email, rede social apenas para um contato mínimo com as notícias (Twitter) e amigos (Instagram, fechado, seguindo poucos conteúdos e a cada dia mais em vias de deletar tudo). Manter distância do Facebook é o mínimo para qualquer pessoa sã. TikTok entra como algo tão perigoso quanto radiação. LinkedIn, Pinterest e afins todos deletados. Para os contatos o email atende. Para mensagens de texto fora do ruído, uso o Telegram. Uso ainda o Inoreader para agrupar meus feeds de sites e blogs que gosto.

Acredito que o futuro da internet será uma combinação de frustração convertida em mais cuidado e novas ferramentas criadas para quem deseja fugir do turbilhão. Não nos esqueçamos do Orkut, que parecia onipresente e caiu tal qual o império romano. As redes sociais já começaram a cair. Quem puder que corra enquanto ainda dá tempo.

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Sou escritor, editor e especialista em comunicação digital. Escrevo sobre tecnologia, filosofia e comportamento. Contato: valternascimento@me.com | Mais em https://www.valternascimento.com.br/

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