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Foto-colagem do autor.

Deixei de trocar de celular para pagar meu terapeuta

Valter Nascimento
Oct 11, 2019 · 4 min read

Foi assistindo a um curto documentário francês enviado por um amigo (obrigado Frederico) que percebi algo novo sobre ato de se fazer terapia. Ninguém reclama do preço da gasolina, dos celulares ou de um jantar romântico, mas é unânime a ideia de que fazer terapia é caro. E talvez ela realmente deva custar algo, não apenas dinheiro, mas algo de maior valor. Pagar pela terapia é parte do processo terapêutico.

No filme, de pouco menos de uma hora, psicanalistas e pacientes falam sobre suas relações com o divã. Algumas pessoas pagam fortunas a cada sessão, outras usam gratuitamente o serviço social, mas cada um coloca na mesa as fichas que tem. Fazer terapia sempre lhe custará alguma coisa, especialmente em termos emocionais. Como um tipo de escambo de traumas, gosto de pensar que cada sessão me dá e toma algo na mesma medida.

Não deixa de ser algo elitista. Há pessoas que não podem fazer terapia. Isso nos levaria a um outro ponto. Voltemos ao que podemos pagar.

Na verdade a terapia começa quando você liga agendando sua primeira sessão. O número de telefone anotado num papel jogado no fundo da bolsa. O receio de parecer emocionalmente desequilibrado ao pedir um amigo alguma indicação. Ir até o consultório, sentar na sala de espera olhando as revistas do ano passado. Superar todos os senões é a parte mais difícil do processo e a sessão já começa do lado de fora.

Daí você vence todos os medos, cismas e vergonhas e se deita num divã (no meu caso a sessão é frente a frente, faço terapia junguiana) numa sala com uma pessoa que você nunca viu. E agora? Não há protocolo social para como se deve agir em casos de terapia. Me lembro que a primeira vez em que fui a um psicólogo meu causou um constrangimento avassalador. Era como ter uma ereção em público, como estar nu. Voltei para casa decidido a jamais colocar os pés num consultório psicológico novamente.

Tem quem ache chique dizer que está fazendo terapia. Parece assim uma atividade recreativa, como fazer ioga ou peeling. Mas na prática bem pouca gente está disposta a ir uma vez por semana sentar-se de frente com seus piores medos e angústias.

Vou para o terapeuta como quem vai para guerra, para o ringue de boxe, para a caça. Não é em nada uma atividade relaxante ou inspiradora. Aquele medo infantil? Estará lá. Aquele trauma mal resolvido? Me esperará pontualmente toda quarta às 16 horas. Mas esse embate, esse bater da onda na rocha é que faz a graça da coisa. Fazer terapia é mais que lavar roupas sujas consigo mesmo, é observar algumas vezes apenas o correr da água. É saber que somos criaturas complexas, cheias de energia e medo e que tá tudo bem não dar conta desse acidente colossal que é estar vivo aqui e agora.

Não é casualidade que não tenhamos nenhum hábito de cuidado com a nossa saúde mental. Vivemos numa sociedade que confia cegamente na onipotência do eu onde acreditamos na solidez dos nossos hábitos, na certeza de nossas ações. Não admitimos jamais falhar emocionalmente diante do horror do mundo, da desesperança ou da solidão. Todas as fraquezas humanas são toleradas, exceto a fraqueza psíquica. O depressivo, o ansioso, o psicótico, o maníaco — para eles não há espaço.

Varrer para debaixo do tapete a necessidade de equilíbrio mental só cria pessoas mentalmente desequilibradas. Basta olhar ao redor. Em cada canto tem alguém tendo um colapso lento e doloroso, espalhando nos outros o pólen da intolerância. Isso não é fruto de uma sociedade sem Deus, sem lei ou sem ética, é parte do efeito colateral de uma vida sem eixo, sem auto-análise, sem reflexão.

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Essa economia emocional é chave para não surtar de uma vez por todas, é o segredo para não afundar no lamaçal do esgotamento total. Com o tempo, você aprende a economizar (energia, tempo e dinheiro) para se manter bem consigo mesmo. E posso dizer, nenhuma outra coisa valerá mais do que uma cabeça fresca e organizada, pensamentos limpos e dobradinhos, como roupa recém passada. O homem que teve uma noite de sono tranquila e está com o coração livre de mágoas não quer guerra com ninguém.

A terapia não deve ser barata, deve ser pagável. Ela deve custar algo pelo qual estaremos dispostos a sacrificar. Sempre deverá haver um pequeno obstáculo a ser quebrado. Tem de existir alguma resistência. Fazer terapia não pode ser algo confortável demais, simples demais ou corriqueiro demais. Ao me expor ao terapeuta, sinto que tenho que suplantar a minha vergonha e cutucar dores que não desejo sentir novamente.

Só depois descobri que a maioria dos terapeutas negocia abertamente com seus pacientes os valores da sessão. Muitos deles possuem horários reservados para pessoas que não podem pagar o preço total por cada encontro. E por que muita gente não sabe disso? Pode ser o embaraço, pura vergonha. Fica aqui a dica.

Da minha parte posso dizer que sim, negocio com o meu terapeuta o valor que me permite ir semanalmente às sessões. Pago cada encontro com muito suor e essa responsabilidade em gastar parte do meu dinheiro para a minha estabilidade emocional me ajuda a encarar a vida com mais maturidade.

E enquanto isso o meu telefone celular irá para o 5º ano de uso e tá tudo bem.

✨O Goodbye Serotonina é um projeto sem grandes pretensões para discussão sobre saúde mental e psicologia em tempos tão sombrios. Se precisar, busque ajuda.

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Sou escritor, editor e especialista em comunicação digital. Escrevo sobre tecnologia, filosofia e comportamento. Contato: valternascimento@me.com | Mais em https://www.valternascimento.com.br/

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