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Essa pessoa não existe

Antidepressivos, algoritmos e jogos de RPG.

Valter Nascimento
Apr 24 · 6 min read

Se você também trabalha com publicidade conhece bem o termo persona. Ele se refere a um cliente imaginário para o qual é criada uma campanha.

Personas podem ter nome, endereço, classe social, hobbies, sonhos, posições políticas e até fetiches sexuais. Em teoria, quanto mais detalhista for o perfil desse cliente de mentirinha, melhor será a sua campanha para atingir o cliente real.

Encontrei o site This Person Does Not Exist enquanto pesquisava por bancos de imagens gratuitas para um projeto de marketing. Existem muitos sites nos quais você pode usar imagens de pessoas que cedem de bom grado seus rostos, mas o curioso desse aqui é o fato de que nenhuma das pessoas selecionadas realmente existem — são criadas através de um complexo programa de A.I. capaz de simular rostos humanos com perfeição.

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Esse rapaz não existe.
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Essa simpática senhora também não é real.

Passar alguns minutos sapeando pelo This Person Does Not Exist (para ver um novo rosto você precisa dar refresh ou F5 na página) causa uma sensação de estranheza muito peculiar. Primeiro porque tendemos a criar histórias para rostos sem um cenário de fundo. Um tem cara de professor, outro de dentista, uma é louca por gatos, outra brigou com a mãe. Mas isso perde a graça quando nosso cérebro processa a informação que nada ali é real — pele, olhos, cabelo, dentes — tudo não passa de textura digital criada artificialmente.

Uma A.I. capaz de criar rostos tão familiares ainda tem a petulância de criar gatos que não existem, quadros que não existem e até notícias que não existem (essa habilidade o Carluxo já domina faz tempo). Uma versão do programa cria aind adiálogos que não existem para a série The Office.

Como a tecnologia serve de palco para as nossas paranoias, é irônico que tenhamos chegado ao nível de criar pessoas falsas, para campanhas falsas, vendendo produtos falsos para consumidores… falsos.

Há nisso tudo um paralelo mórbido com a depressão e a ansiedade. Olhando as coisas de um modo existencialista, você não existe no passado ou no futuro — você existe agora. E uma das coisas que a doença mental faz com você é roubar a sua capacidade de viver o presente. Ou você está fraco e vazio demais para isso, ou está ansioso e apreensivo demais para isso. Tanto a depressão, quanto a ansiedade, são formas sádicas de suspensão da realidade.

Pessoas só existem no agora. Só podem exercer o seu direito a individualidade no presente. Os atoleiros sentimentais do passado ou os sustos frenéticos do futuro não são caminhos possíveis.

É bem provável que durante uma crise de depressão você revisite o passado mais vezes do que deveria. Fotos antigas, passeios, viagens, encontros. Você não se sente triste, nostálgico ou saudoso. No lugar disso o que te engole é um estranhamento kafkiano. Aquela pessoa na foto se parece com você, não é. A proximidade dos sentimentos familiares se esvai e você tenta encontrar, no que você foi um dia, as justificativas para o que você é hoje.

A depressão é uma série de coisas — nunca uma coisa só. Mas ela certamente é um fenômeno centrado na imagem que temos de nós mesmos e do mundo. Um dos maiores erros é acreditar que a depressão é sempre algo calmo, pesado e sutil. Muitas vezes tudo se comporta como uma pessoa trocando de canal muito rapidamente — a diferença é que você é ao mesmo tempo o canal, o programa de tv e o espectador.

Você se sente o centro das atenções e a escória do universo ao mesmo tempo. Você é a Beyoncé num palco do Coachella, é Leonardo Di Caprio recebendo o Oscar, e no momento seguinte é nada. Essa falta de parâmetro de si mesmo anula qualquer tentativa de fixação dentro do turbilhão que é estar deprimido.

Se a prosopagnosia é uma incapacidade crônica de reconhecer rostos familiares, em certos momentos a depressão é uma falha estrutural em reconhecer a si mesmo. Você toma atitudes que não são suas, diz coisas que não gostaria de ter dito, pensa de modo dissonante com suas próprias crenças. Renega seus talentos, abandona seus amigos, suas crenças, seus objetivos. Sua mente se torna uma casa vazia habitada por um rei maluco que hora quer a guilhotina, hora quer coroas e cetros.

Andrew Solomon, autor do formidável livro O demônio do meio-dia, narra em detalhes essa estranha experiência de estar exilado em si mesmo:

Você sente todo o tempo que quer fazer algo, que há alguma emoção não disponível para você, que há uma necessidade física de urgência enorme e um desconforto para os quais não há alívio, como se você estivesse constantemente vomitando, mas não tivesse boca.

Perder a vontade de sair, ver pessoas, ouvir sua banda favorita ou de fazer qualquer coisa que você ama é apenas o efeito colateral de um processo de despersonalização brutal e silencioso que vai transformando você em apenas um rosto, sem nenhuma estrutura emocional sólida por trás de suas ações.

A primeira coisa que ouvi quando comecei a tomar antidepressivos era que eu precisava repor a serotonina em meu cérebro. Fazia sentido: se você se sente vazio é porque alguma coisa “escorreu” pra fora de você. Esse é talvez o maior mito e a maior mentira entre as pessoas com depressão.

A associação entre serotonina e felicidade não é algo tão obvio. Se ter depressão fosse apenas ter baixos níveis de serotonina, bastava colocar serotonina na água, tal qual é feito com o flúor, e tava todo mundo bem. A verdade é que cada pessoa possui um modo de metabolizar essa substância e a depressão mexe não apenas na dosagem de serotonina nos seus miolos, mas também na forma como você irá degluti-la. Você pode se entupir de serotonina, mas se a rede que transmite isso em sua cabeça estiver fodida, você só vai ter uma crise de ansiedade colossal e mais nada. Aliás, a primeira sensação quando você começa a tomar inibidores seletivos da recaptação de serotonina é uma ansiedade corrosiva, como se Hitler fosse entrar em sua casa montado num Tiranossauro Rex a qualquer momento (o episódio do podcast Sinapsecast sobre o assunto é incrivelmente revelador).

A verdade é que a depressão não é algo resolvível apenas com remédios. Nem apenas com terapia. Nem apenas com exercícios físicos e boa alimentação. Não existe uma fórmula exata para eliminar algo que não tem forma.

Um amigo que tem depressão há muitas décadas me deu uma ideia muito sagaz. Imagine que a depressão é um chefão de um jogo de RPG (Skyrim, The Witcher ou quem sabe Diablo). Você pode entrar no jogo focando em apenas uma habilidade: mago, guerreiro, elfo… Você certamente irá obter alguns resultados, mas não estamos falando de um chefão qualquer.

Por outro lado, bons jogadores de RPG combinam poções mágicas com golpes de espada e feitiços potentes. Usam capas espalhafatosas e cabelos esquisitos. Jogar não é só uma questão de vencer, é preciso vencer com estilo e muita pompa, escolhendo para si mesmo uma nova persona mais corajosa e destemida. Se a depressão é um monstro sem rosto, o problema é dela. Coloquemos nossa cara no sol.

✨O Goodbye Serotonina é um projeto sem grandes pretensões para discussão sobre saúde mental e psicologia em tempos tão sombrios. Se precisar, busque ajuda.

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Sou escritor, editor e especialista em comunicação digital. Escrevo sobre tecnologia, filosofia e comportamento. Contato: valternascimento@me.com | Mais em https://www.valternascimento.com.br/

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