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“Reinvente-se” — o mercado da transformação e as canecas de 60 dólares

Valter Nascimento
Sep 16 · 6 min read

Num dos muitos anúncios que aparecem pela internet encontrei um curso chamado Tenha uma vida épica. Dentre as promessas estava a garantia de que em quatro semanas eu reinventaria minha vida, alcançando mais produtividade, masculinidade e confiança. Mas talvez eu não queira ser mais produtivo, masculino (o que isso realmente significa?) nem me cercar de uma confiança inabalável. Ser uma pessoa insegura tem lá um certo charme, ou não.

O que importa é que a ideia de ter que se reinventar é um dos grandes sintomas da agonia profunda em que vivemos. Como se o Eu fosse um programa de computador que precisa de upgrades constantes e sua personalidade pudesse ser jogada fora para que um outro Eu, melhor e mais produtivo (talvez mais masculino), surgisse no lugar do antigo. Essa transformação espetacular depende apenas de força de vontade, exercícios físicos e cuidado com a maciez de sua pele.

O mercado da reinvenção ganha muito dinheiro com harmonizações faciais, kits de maquiagem, lipoaspirações e cremes esfoliantes. Mas não é apenas uma questão estética, é sobretudo um problema político. Não há de fato esse Eu ideal, as harmonizações faciais não atingem a harmonia perfeita, nem o skincare promove a pele definitiva. Quando o mercado diz que você deve se reinventar, está dizendo sutilmente que o que você tem não é bom, que a sua pele, assim como a sua vida, é um lixo, mas pelo menos a pele você pode esfoliar. Existe um grande e colorido mercado dedicado a criar insatisfações ilegítimas, principalmente contra aqueles que só querem tirar um cochilo depois do almoço.

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Fonte: https://www.kseniaanske.com/blog/2018/12/24/ignore-writing-tips

Ter que se reinventar é a principal demanda do mercado de trabalho. Numa entrevista de emprego para uma agência, o recrutador me perguntou incrédulo por que eu havia trabalhado 13 anos como livreiro. Ora, essa é a profissão que eu escolhi, não vi motivos de mudar até que a maré das coisas virasse. Perdi a vaga para alguém com curso de UX Design e Excel Avançado.

Qualquer pesquisa básica revela que os Millennials adoram cursos e que pessoas entre vinte e cinco e quarenta anos estão a todo momento convertendo o tempo livre em tempo de aprendizagem, numa tentativa desesperada de engrossar seus currículos e de vender a imagem de reinventores de si mesmos. A falta crônica de empregos, a pouca grana e a incerteza do futuro fazem com que mais e mais pessoas tentem mudar o que são. É como se o a vida nos dissesse a todo momento: você não sabe o que vem por aí, então é melhor ir aprender programação, mas logo o mundo estará cheio de programadores e você terá que ir aprender outra coisa.

A eterna necessidade de transformação nos estimula a fatiar nossa vida em territórios menores e ir reformando progressivamente cada parte, como se fosse um apartamento velho no centro de São Paulo. É preciso sempre viver a melhor versão de si mesmo, se lançar em novas experiências e criar a ilusão constante de que não estamos marchando para o abismo, mas para a superação absoluta. Essa sucessão de demandas só faz sentido num mundo onde a frustração é constante e onde o indivíduo é o dono soberano de sua vida. Não existem fatores externos, você está onde está porque quer. O problema é como você, não com o mundo.

Na prática ninguém sabe ao certo o que é autocuidado. Cuidar de si mesmo é coisa que se aprende de modo torto, uma manobra de tentativa e erro sempre cheia de feridas. O golpe de mestre dos gurus do capitalismo tardio foi convencer o indivíduo de que autocuidado é saber a hora de jogar tudo pra cima e mudar de rumo, desmanchando sua história em nome de um novo formato mais rápido, mais elegante, mais cool. A proliferação dos mentores e de cursos cada vez mais esdrúxulos (“Ativismo quântico” e “Redução do sono para maior produtividade” são os meus preferidos) são apenas formas de vender o produto da reinvenção. A redecoração da personalidade engloba não apenas os artigos físicos, como livros de autoajuda com a palavra “foda” na capa, mas posturas pessoais diante do mundo, criando uma legião de pessoas apavoradas com a possibilidade de serem quem são por muito tempo.

Nesse cenário de eterna desconstrução é impossível se dedicar com paixão a qualquer coisa. Hobbies são convertidos em monetização, tempo livre se torna tempo de conhecimento e a cada dia surgem novos penduricalhos para promover o seu renascimento. Tudo isso faz de sua vida um campo de testes para os produtos chiques do Vale do Silício ou dos escritórios de marketing da Faria Lima. Você não é um indivíduo complexo e imperfeito, mas parte de uma estratégia de vendas. Sua vocação, seja lá qual for, precisa ser fragmentada e adaptada ao que o mercado sugere. Você precisa corrigir os seus defeitos, precisa ser grato e criar metas tão altas quanto o céu. Precisa acordar mais cedo, comer menos e todos os seus relacionamentos devem ter um caráter produtivo. Suas desgraças são fonte de transformação, você não está simplesmente vivendo, está eliminando gradativamente a incerteza até que o seu destino se torne um algoritmo. Sua personalidade é como peças de Lego, monte-a como quiser.

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Fonte: Laurene Boglio.

Ninguém fala, mas se reinventar é cansativo, frustrante (o que gera uma frustração dentro da frustração) e caro. Gosto muito da metáfora da organizadora profissional Marie Kondo, que evangeliza pessoas no mundo inteiro para que joguem fora suas tralhas, ou, em suas palavras, “coisas que não trazem alegria”, para que comprem em meu site uma linda caneca, “que emana alegria”, por apenas 60 dólares. Quando alguém lhe disser que é o momento de se reinventar, procure atentamente: sempre há uma caneca cara escondida em algum lugar.

E quando tudo é reinventado, nada é reinventado. Empresas como Uber e Airbnb, exemplos máximos da disrupção (com certeza a palavra mais odiosa do século), se revelam agora apenas modelos peculiares de precarização, abuso e ganância. Quando esses modelos inovadores falham, tudo bem, é só a hora de se reinventar, de novo e de novo. O Airbnb já está deixando para trás a imagem da devastação nos mercados imobiliários do mundo todo e focando mais nas “experiências”. A Uber certamente irá fazer o mesmo. Não gosto de usar empresas para ilustrar problemas humanos, mas bem sabemos que a vida aqui nas sobras do capitalismo já se misturou com as corporações faz tempo. Mesmo assim, é só um exemplo.

No fundo sabemos bem que a reinvenção da sociedade sempre acaba nos levando aos mesmos problemas, com outros nomes, outros preços. Com as pessoas não é diferente. Sujeitos desesperados por mudanças radicais estão sempre caindo na lábia de influenciadores ou empresas, comprando coisas que não precisam, tentando amputar traços de si mesmos esperando que um novo Eu nasça como um rabo de lagartixa. Esse processo vendido como um ato de renascimento acaba se revelando um ato maluco de autodestruição. Mas não importa. Há quem goste de viver assim, quem sou eu pra dar pitaco?

Gosto de pensar que algumas vezes é bem melhor reparar o que está pronto do que demolir o edifício inteiro. Algumas vezes é melhor permanecer onde se está, dando margem para o acaso e vivendo reviravoltas sutis. Quase sempre é melhor ser o que se é, vivendo o que Heidegger chamava de “escolher-se a si mesmo”. Não podemos encontrar o que não pressentimos, não podemos nos desfazer do que somos porque não há paraquedas nessa manobra. O que somos irá sempre nos assombrar até o último momento, quer gostemos, quer não.

Quando tudo passar, se passar, a verdadeira reinvenção será a teimosia em não mudar. Repetir rituais como forma de obter alguma segurança no mundo e gastar o seu dinheiro e tempo em coisas que realmente fazem sentido para você. Levar alguns problemas ao terapeuta, outros para uma praia da Bahia. Ir compensando as imperfeições com alguma leitura, poucos amigos e muita ironia. Deixar que os apressados cruzem a linha de chegada primeiro, que subam ao pódio, que vençam do modo mais destrambelhado possível.

Encher a casa de quinquilharias e mandar a Marie Kondo se foder.

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Sou escritor, editor e especialista em comunicação digital. Escrevo sobre tecnologia, filosofia e comportamento. Contato: valternascimento@me.com | Mais em https://www.valternascimento.com.br/

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