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Ilustração do autor.

O nome do mal

Ou o que tenho aprendido com a depressão

Valter Nascimento
Sep 9, 2019 · 6 min read

Em março deste ano fui diagnosticado com depressão. Recebi a notícia com alívio. Era a primeira vez que alguém dizia claramente a palavra “depressão” se referindo a mim sem que isso parecesse uma banalidade.

Acredito que sempre tive momentos depressivos ligados a uma ou outra fase ruim da vida. O fato é que na minha família ninguém nunca levou doença mental muito a sério. Um primo distante se matou por causa das “más companhias”. Uma tia com crise de ansiedade era só uma pessoa “elétrica demais”. Doença de verdade só aquelas que se manifestam fisicamente — o resto é questão moral.

Até minha vida adulta nunca havia conhecido um depressivo convicto. Ansiedade e depressão sempre soaram para mim como estados mentais passageiros, até engraçados. O ansioso que come muito chocolate, o depressivo que ouve rock pesado. É quase um estilo de vida, um defeitinho de personalidade que dá uma pitada de charme nas conversas de bar.

Pesquisando sobre depressão e ansiedade (sim, você quase sempre ganha um dos dois de brinde no combo) encontrei mais piada sobre os assuntos do que conteúdo sério. “Diva da depressão”, “Filosofia da depressão”, “Arquitetura da depressão”. Imagine a mesma piada com outras doenças. Pois é.

Alguém num dia ruim está “deprê”. Um filme triste é “deprê”. Roupas pretas, comportamento antissocial, poesia, dias chuvosos — tudo isso é “deprê”. Mas curiosamente, quem tem depressão quase nunca se sente triste. A banalização do termo colabora para a dificuldade do auto diagnóstico. Você não sabe se está com uma doença incapacitante ou apenas tocado pelo disco novo do Radiohead.

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Você não acorda depressivo. É um processo corrosivo constante, que dá seus sinais a todo momento, mas você simplesmente resolve ignorar ou não sabe como lidar. Precisei me sentir fisicamente esmagado para entender que aquele mal-estar constante era a depressão cavando silenciosamente nas bases da minha personalidade.

Ter depressão é algo tão complexo que não dá para definir, nem tampouco estabelecer um padrão aplicável a todas as pessoas. É justamente nesta incapacidade de definição que a depressão inocula o seu veneno mais mortal. O depressivo se implode silenciosamente sem dar um pio sequer, muitas vezes sem chorar, sem escândalos, sem deixar transparecer para o mundo que ele está afogando em si mesmo.

Você não sabe o que está sentindo. Não se vê como doente, tampouco está são. Não sente dor, mas também não consegue mais ficar confortável consigo mesmo. A depressão oscila entre o estado sólido e o gasoso. Tem horas que ela pesa como um container, tem horas que é apenas uma fumaça tímida pairando sobre tudo. É uma presença onipresente, como um óleo que não sai dos dedos, ou como bem definiu um amigo: é como apanhar de um fantasma.

Sua família diz que você é mimado. Seus amigos acham que você só está cansado. As informações sobre o assunto são conflituosas. Isso pode me enlouquecer ou é apenas vontade de viajar? Preciso tomar remédios perigosos ou uma cervejinha resolve? Uma tarde no shopping? Um baseado? Uma foda bem dada? Ou quem sabe a velha barra de chocolate debaixo do edredom?

Descobri, da pior maneira possível, que o silêncio sobre a depressão não é uma casualidade, é um projeto de venda. Pessoas depressivas são ótimos clientes, ótimos eleitores e até ótimo funcionários — isso até que elas pifem de vez. Elas compram compulsivamente, tomam decisões baseadas em qualquer idiotice, se sentem feias, sujas e culpadas o tempo todo — o que garante uma excelente oportunidade de negócios para a indústria da beleza, da limpeza e da religião. Elas aceitam qualquer salário, qualquer relacionamento, qualquer comida, qualquer promessa, qualquer abuso. Nada faz diferença.

Embora a depressão caminhe para se tornar a doença mais incapacitante da história moderna, ela pode ser mantida num pernicioso estado de suspensão. Um tipo de depressão low profile. Um falso equilíbrio mental sustentado à custa de um esforço absurdo. O depressivo gasta mais energia fingindo que está bem do que realmente estando bem. No final do dia você simplesmente derrete. E nisso a vida se esgota numa experiência sem sentido, onde o afeto perde seu significado e você só quer dormir para acordar no outro dia e repetir tudo de novo mais uma vez, num ciclo interminável de tédio, insatisfação e vazio.

Essa repetição do nada pelo nada e essa incapacidade de pedir ajuda acabam desmoronando, pedaço por pedaço, cada parcela do que você é — como um brinquedo Lego deixando as peças pelo caminho.

Tente tirar petróleo da asa de uma gaivota ou limpar um para-brisas no meio de uma tempestade e você terá ideia do que é tentar ser feliz com depressão. Você experimenta o excesso e a escassez na mesma medida. Você trabalha mais, sai mais, faz mais amigos, ouve músicas altas, come muito, dorme muito, vai até a academia 4, 5 vezes por semana, compra um telefone mais potente, uma TV 4K, vai pra França, salta de paraquedas, briga — e tudo é só barulho.

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Nasci numa família pobre. Filho de mãe solteira, criado com a ajuda da avó, aos 14 já estava na lida. Aprendi o valor da escrita como expressão e como trabalho, mas só me formei no superior depois dos 30. Passar perrengue me preparou para superar muitos problemas na vida, mas nada (nada) se compara a ter depressão.

A depressão é sem sombras de dúvidas uma das piores experiências que um ser humano pode viver. Há quem passe por dores físicas e mentais realmente agudas, que sofra perdas cruéis, mas em todas as hipóteses o indivíduo sempre possui um centro sobre o qual se apoiar. O sofrimento se torna combustível para uma mudança — mas não com o depressivo. A depressão não permite reação. O depressivo é uma espécie de enfermo que deixa de ser o doente e passa a ser ele mesmo, por inteiro, a própria doença. O canceroso busca separar-se do câncer, o louco tenta desunir-se da loucura, mas o depressivo não possui forças para cortar essa planta daninha (como bem definiu Andrew Salomon) que vai se enraizando dentro dele.

E a falta de informação e silêncio sobre o mal fortalecem ainda mais a depressão como epidemia.

Segundo pesquisas, a maioria dos brasileiros pensa que uma atitude positiva e alegre é o bastante para curar a depressão. Mais de 60% pensam que falar sobre isso é algo vergonhoso. A maioria também acha que tomar remédio é inútil.

O Brasil já é o pais mais depressivo da América Latina e possui uma taxa acima da margem mundial — em torno de 6%. Quase 12 milhões de brasileiros têm depressão. É o mesmo que uma São Paulo inteira só de gente depressiva ou duas cidades do Rio de Janeiro ou 5 Belo Horizontes.

Cada depressivo só pode falar do seu quintal. Andrew Solomon, autor de O demônio do meio-dia, escreveu talvez o melhor relato sobre a experiência de ter depressão e como lidar com isso. Não é fácil, mas também não é impossível. No caso de Solomon, a cura não veio de uma pílula milagrosa, mas do próprio esforço em se curar. É uma jornada pessoal e única que vai depender principalmente da sua vontade de se sentir melhor. Você tem que desejar melhorar, tem que pedir divórcio dessa coisa. De outro modo não tem conversa.

Uns melhoram por compaixão. Passam a se perceber de modo mais amoroso e redescobrem o valor de si mesmos. Outros buscam se curar na base da revolta. Não toleram a ideia de fraqueza e não querem perder a vida para uma doença tão estúpida. Me incluo no segundo caso.

Cada sessão de terapia, cada novo comprimido, cada recaída, cada melhora — tudo para mim está baseado numa raiva imensa que tenho desta condição. Odeio essa doença todos os dias, com todas as forças e isso acende em mim um misto de vergonha, orgulho e determinação. Luto contra isso com uma faca nos dentes. Levanto de cada crise com sangue nos olhos. Prometo a mim mesmo que não vou me deixar ceder. Tem dado certo. Apanho muito, mas posso dizer que bato também. Depois de uma crise pesada, me olho no espelho e digo:

Eu estou fodido? Você deveria ter visto o outro cara.

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