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Jaron Lanier.

Peace, Love and Logins

Uma breve história da contracultura americana e a criação das redes sociais.

The last link

Existem dois movimentos conflituosos relacionados a internet. Os que acreditam que a web, as redes sociais e tudo o que vivenciamos digitalmente representam a evolução da comunicação, a boa e velha aldeia global mcLuhaniana, tão transformadora quando imperfeita, e os alarmistas que pregam o apagamento imediato de nossas redes sociais em nome de nossa saúde política e mental.

O time dos defensores do fim da rede social vem crescendo em ritmo exponencial. Tech-gurus, ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia, ativistas políticos e especialistas em comportamento digital que alertam para o total desmantelamento da sociedade tal como conhecemos, caso nada seja feito contra a lógica algoritmocêntrica das redes sociais e da web como um todo. Para esses profetas, o apocalipse digital já começou.

Justamente no meio entre os dois grupos está Jaron Lanier, um dos pioneiros da realidade virtual e um ferrenho defensor do afastamento total das redes sociais. Lanier parece saído de um livro de William Gibson. Dreads que vão até o chão, voz calma e maternal e uma visão incrivelmente objetiva da tecnologia. Seu pensamento é uma confluência de dois termos quase antagônicos: new age e Big Data. Sim, a web é um pouco hippie, apesar dos efeitos colaterais macabros. Há, no fundo de toda rede social, um gene comunitário-político-transformador e Jaron Lanier talvez seja um dos poucos elos remanescentes desse tipo de web.

Lanier é um utilitarista no melhor sentido do termo. Acredita que os males das redes sociais não são causados por um gênio maléfico, mas por mal-uso do sistema, que em si não é bom ou mal, apenas eficiente. Um modelo que poderia ser revertido com o fim do acesso gratuito de plataformas como Facebook, forçando usuários e desenvolvedores a investirem mais em qualidade e menos em engajamento, afinal, a internet é um produto da contracultura sequestrado por um modelo capitalista altamente corrompido. Suas bases são boas, o problema está em sua gestão. Ela não nasceu com o intuito de injetar altos níveis de ansiedade e depressão nas pessoas, mas se tornou vetor dessas doenças por conta de um sistema de coleta de dados quase ingovernável.

Perdoando Mark

Em fevereiro de 2017 Mark Zuckerberg lançou um manifesto sobre as novas políticas do Facebook:

“Hoje estamos perto de dar o próximo passo. Nossas maiores oportunidades agora são globais — como disseminar prosperidade e liberdade, promover a paz e a compreensão, tirar as pessoas da pobreza e acelerar a ciência. Nossos maiores desafios também precisam de respostas globais — como acabar com o terrorismo, combater as mudanças climáticas e prevenir pandemias. O progresso agora exige que a humanidade se reúna não apenas como cidades ou nações, mas também como uma comunidade global. ”[1]

Manifestos e mudanças superficiais de conduta sempre foram o modo como o Facebook respondeu a eventuais pressões sociais ou éticas, mas esse verniz de boas intensões não convence todo mundo. Instituições como a EFF (Eletronic Frontier Foundation), apontam que a ficha policial da rede social azul é incrivelmente extensa[2]. Exposição e manipulação de dados, impossibilidade de cancelamento absoluto de sua conta, monitoramento facial sem consentimento, vinculação de páginas radicalistas e discurso de ódio, manipulação de propagandas imprópria para menores, sonegação de impostos, distribuição de propaganda enganosa, violação de propriedade intelectual, permissão de criação de páginas com conteúdo sobre automutilação, estupro e abuso, censura de campanhas sobre amamentação e por aí vai.

Entre 2017 e 2019 o Facebook transmitiu pelo menos uma dezena de tentativas ou suicídios consumados ao vivo. Muitos desses vídeos permaneceram online por semanas, apesar do apelo público para que fossem removidos. O caso mais notório aconteceu em 15 de março de 2019, em Christchurch, na Nova Zelândia. Na ocasião, um extremista de direita entrou numa mesquita e assassinou 51 pessoas. A ação foi transmitida ao vivo no Facebook como se fosse apenas mais um shitpost — postagem de mal gosto que visa causar polêmica e atrair likes. Para a rede tudo foi vinculado como apenas mais uma transmissão do Twitch[3].

O caso de Christchurch escancarou a impossibilidade de remoção completa e imediata de um vídeo inapropriado da plataforma, não apenas pela infinita replicabilidade da mídia, mas também pela lógica tortuosa do algoritmo que controla essas mídias. Aquilo que deve ser reprimido é também o que o Facebook precisa divulgar para manter o seu sistema girando. O algoritmo é, ao mesmo tempo, id, ego e superego de um complexo aparato que oscila entre a necessidade de likes e compartilhamentos para vincular anúncios e fazer receita, e a impossibilidade legal e ética de exibir um anúncio da Coca-Cola embaixo de um vídeo de massacre. Para um sistema gerenciado por olhos algorítmicos, não há possibilidade exata de separar a popularidade do crime.

Entre 2017 e 2018, o Facebook precisou lançar mais uma série de manifestos edificantes para apagar mais um incêndio, dessa vez causado pelo caso Cambridge Analytica, o maior escândalo de manipulação de dados da década. Estima-se que pelo menos 87 milhões de norte-americanos foram afetados diretamente pela coleta, manipulação e direcionamento de dados que terminaram por eleger Donald Trump[5]. Até um novo termo político foi criado para ilustrar o evento: Facebookracia, a democracia moldada de acordo com as visões políticas vinculadas pelo Facebook.

Um ano depois do escândalo da Cambridge Analytica o Facebook lançou outro manifesto, desta vez recorrendo a termos como liberdade de expressão, união e cooperação global:

“As pessoas que têm o poder de se expressar em escala são um novo tipo de força no mundo — um Quinto Estado, ao lado de outras estruturas de poder da sociedade. As pessoas não precisam mais confiar nos porta-vozes tradicionais da política ou da mídia para fazer ouvir suas vozes, e isso tem consequências importantes. Entendo as preocupações sobre como as plataformas tecnológicas centralizam o poder, mas acredito que a história muito maior é o quanto essas plataformas têm poder descentralizado, colocando-o diretamente nas mãos das pessoas.”

O manifesto termina com mais uma menção ao ato de unir o mundo num só lugar: “We can bring the world closer together.” [6]

Quando fala em um “Quinto Estado”, o Facebook fala de si mesmo? Não confiar em porta-vozes políticos significa confiar em extremistas que dizem que a Terra tem a forma de um prato e que vacinas causam autismo? E quando diz que o importante é colocar o poder nas mãos das pessoas de modo descentralizado, ele se refere ao fato de que a informação que ele mesmo distribui não é mais confiável?

Em termos práticos nada disso faz sentido e o que o Facebook nos diz nas entrelinhas é: “é melhor que nós controlemos a informação, e não governos safados, para que você possa expressar sua aprovação ou indignação com likes ou carinhas bravas, enquanto vendemos essas reações para os mesmos governos safados que você não quer ver no poder”. Mas tudo isso não importa, ou parece importar muito pouco, pois sempre estaremos dispostos a perdoar Mark e essa permanente indulgência possui raízes muito sólidas.

Rebranding

A ideia da internet como fruto ou desdobramento da contracultura não é inédita e já foi abordada por diferentes especialistas, principalmente Fred Turner[7]. Os valores igualitários da cultura digital, em especial os movimentos hackers, o ciberativismo e a defesa da informação livre, de qualidade e gratuita, vieram diretamente da contracultura encabeçada pelo movimento hippie dos anos 60 e 70.

Mas na realidade, embora pareça algo incrivelmente amplo, plural e ilimitado, a internet é apenas um produto criado, aprimorado, gerido e distribuído por um grupo muito fechado de pessoas. Empresas como Facebook, Twitter e Google, donas de mais da metade do tráfego de informação online, possuem suas sedes dentro de um raio de menos de 100 quilômetros. A internet e o conceito de rede social são fundamentalmente um produto americano e como tal possuem características em comum com um Big Mac: são gostosos, viciantes, podem ser oferecidos em quantidade industrial, causam graves problemas de saúde e atuam no comprador (usuário) como peça de colonização e dominação.

O movimento hippie e o Big Data nasceram mais ou menos na mesma época, na mesma região e ao redor dos mesmos grupos. Muitos dos hippies de Haight-Ashbury foram alunos exemplares da UCLA, Berkeley e Stanford. Um raio de apenas 60 quilômetros separa a Page Street de Palo Alto.

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Evgeny Morosov.

Evgeny Morosov[8] traça um panorama muito perspicaz sobre como a cultura americana sofreu diversas mutações ao redor de seus dois principais centros gravitacionais: a Califórnia e Nova York. A transformação mais recente ocorreu na Costa Leste na virada dos anos 2000, com o atentado de 11 de setembro, que foi o principal impulso em direção a uma sociedade obcecada com a informação e extremamente dependente de complexos mecanismos de controle. Shoshana Zuboff chama esse movimento de “Surveillance Capitalism”, ou capitalismo de vigilância, e o seu nascimento coincide com a guerra ao terror do governo Bush e a popularização do Google.[9]

Já a Costa Oeste seguiu um caminho menos traumático e mais intelectualizado. O zeitgeist dos anos 60, da liberdade de expressão e comunhão social, nunca saiu completamente da atmosfera de Palo Alto. Essa ideia permaneceu suspensa até que algo totalmente novo formatasse esse desejo. Morosov chama essa coisa no ar de “ideologia californiana”, uma visão social com forte orientação esquerdista e com diversos elementos do marxismo em seus manifestos, algo bem diferente do estilo agressivo da Costa Leste americana. Enquanto os lobos de Wall Street entraram para o imaginário popular como o personagem principal de Psicopata Americano, o capitalista da Costa Oeste nasceu da simpática figura do nerd. Empresas como Microsoft e Apple ostentam uma mitologia peculiar, onde seus fundadores, garotos brancos da classe média americana, criaram modelos revolucionários de tecnologia apenas com muita criatividade, senso comunitário e uma garagem.[10]

Os nerds são a versão 2.0 dos hippies. Sua dedicação a temas específicos, a busca por modelos coletivos e de impacto social, a alta intelectualização e a recusa a padrões sociais rígidos são alguns pontos em comum. Outro traço da cultura nerd que nos ajuda a compreender a transição do Califórnia Dreaming para o Palo Alto Way of Life é o modo como esses personagens interagem com a educação formal. Os jovens americanos dos anos 60 viam a educação como mecanismo de aprisionamento, enquanto os nerds consideram a educação como objeto de diferenciação. Hippies e nerds compartilham da ideia de que o conhecimento formal sem prática não serve para nada e que é preciso criar novos caminhos dentro da lógica americana do sucesso. São tipos diferentes, mas não totalmente díspares, de resistência.

A cultura tech nascida em Palo Alto pode ser vista como a desconstrução dos padrões de consumo do estilo americano de compra e vida (duas coisas inseparáveis), mas não em nome de uma sociedade verdadeiramente igualitária, mas para o desenvolvimento de um novo tipo de mercado. Embora a tecnologia tenha popularizado diversos serviços, não há um acesso universal a nenhum desses serviços, mas sim uma universalização do mercado onde tais serviços estão sendo vinculados. O que a era da informação oferece de modo aparentemente gratuito mostra-se na verdade um tipo muito bem camuflado de exploração comercial. Richard Sennet não está errado quando diz que “o gratuito significa sempre uma forma de dominação.”[11]

Na prática, podemos dizer que o nerd é a evolução do hippie em forma de produto cultural. Hoje, nos idos dos anos 2020, todos somos nerds em maior ou menor grau. Esse foi o maior rebranding da história contemporânea: fazer o público acreditar que o nerd é alguém absolutamente excêntrico quando na verdade ele é o mais comum dos usuários. O nerd é o hippie que desistiu.

Se a tradicional economia americana pregou aos quatro cantos do mundo que é possível consumir através da emancipação financeira, a ideologia das empresas de tecnologia californianas nos convenceu de que é possível uma “emancipação através do consumo” — para citar mais uma vez Morozov. Mas o que temos é sempre mais do mesmo, apenas consumo, zero emancipação. Quando andamos de Uber ou nos hospedamos num Airbnb, estamos comprando em nome da ideia de subversão do sistema capitalista contra os cartéis dos taxis e hotéis, mas essa é uma subversão ilusória. Estamos derrubando um ídolo para erguer outro no mesmo lugar.

WEC

Theodore Roszak em From Satori to Silicon Valley, fala sobre como em seu primórdio a internet era muito mais um experimento hippie do que um produto de massa. Segundo Roszak, houve uma transferência geracional direta, muitos dos alunos que frequentariam os cursos de ciências tecnológicas em Berkley ou na UCLA eram filhos de pais hippies. Mas ao contrário de seus pais, esses jovens foram criados durante a explosão do crack, da cocaína e da AIDS, numa sociedade incrivelmente frustrada com a política e com a economia.

O ponto de virada do pensamento hippie californiano para o mindset do Vale do Silício não foi um site feito de pixels, mas uma revista de papel e tinta. A Whole Earth Catalog, ou WEC, começou a circular em 1968 e popularizou o conceito de análise tecnológica enquanto pregava uma abordagem sustentável do consumo. Segundo sua edição do outono de 1969, sua ideia principal era fazer com que o leitor pudesse “encontrar sua própria inspiração, moldar seu próprio ambiente e compartilhar sua aventura com quem estiver interessado”.

Embora a ideia fosse criar um panorama de ferramentas para um tipo novo de autonomia ecológica e intelectual, a WEC conseguiu convencer os hippies de que o consumo poderia ser algo consciente e alinhado a uma filosofia de menos acumulação e mais utilidade. Como o leitor da WEC se tonou um colecionador compulsivo de bonecos Funko é outra história, mas Roszak acredita que que a WEC inaugurou o conceito de flaneur digital. Os consumidores digitais de hoje se parecem com aqueles leitores, muitos não sabem exatamente o que querem até que o Google ou qualquer outra empresa lhes diga o que comprar — aliás, esse é um dos motes da Apple.[12]

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A WEC dividia suas informações da seguinte forma:

1 — Útil como uma ferramenta,

2 — Relevante para a educação independente,

3 — Alta qualidade ou baixo custo,

4 — Ainda não é conhecimento comum,

5 — Facilmente disponível por correio.[13]

Essa lista pode ser aplicada a praticamente qualquer produto online, dos livros despachados pela Amazon até o mercado de Saas[14]. A WEC é mais um dos elos perdidos que ligam a cultura hippie às salas cheias de pufes do Google.

Roszac define muito bem o tipo de encantamento que essa abordagem de “soft capitalismo” criou nos jovens da época:

“Afinal, havia algo de encantador no alegre ecletismo dessa visão de mundo. É verdade que um catálogo é, por sua própria natureza, uma mistura. Mas esse catálogo claramente pretendia projetar uma visão consistente. Parecia estar dizendo que toda a engenhosidade humana merecia ser celebrada, desde o machado de pedra e a medicina do índio americano até a eletrônica moderna. Claramente, ao dizer isso, o Catálogo falou para um público que queria ver as coisas dessa maneira. Ou melhor, o catálogo encontrou as vozes que poderiam fazer esse trabalho.”[15]

Quem poderia fazer esse trabalho? Como transformar a ideia de um catálogo de tudo o que é útil no mundo em um produto universalmente aceito e (teoricamente) acessível e gratuito? Da WEC ao Facebook foi um longo caminho, mas as bases já estavam lançadas.

O “g” de login

O site Curbed LA, dedicado a recomendar atrações pouco conhecidas na Califórnia, define assim o nascimento da internet:

“Em 29 de outubro de 1969, o estudante de graduação da UCLA, Charley Kline, sentou-se em uma sala no Boelter Hall e digitou a primeira mensagem no ARPANET, o precursor da internet moderna. Ele escreveu “lo”; antes que ele pudesse acessar o “g” em “login”, o sistema travava.”[16]

A sala onde a internet nasceu não existe mais, o que os turistas podem conhecer é uma versão decorativa do espaço original, criada com móveis que estavam guardados nos porões da universidade. O local onde a internet nasceu não passa, ele mesmo, de uma simulação.

Um ano antes, em 1968, Richard Nixon havia sido eleito depois de uma das campanhas eleitorais mais violentas da história dos EUA. A agenda conservadora de Nixon nascia numa América despossuída de líderes ativos reais. Martin Luther King havia sido assassinado em abril de 68. Bobby Kennedy teve um fim parecido em junho do mesmo ano. Sem poder bater diretamente na questão racial, principal tema da sociedade americana da época, Nixon escolheu uma nova cultura para criar um contraponto: os cabeludos de Haight-Ashbury.

No auge dos protestos contra a guerra do Vietnã, a revista The Atlantic definiu a então novíssima subcultura no artigo “The Flowering of the Hippies”:

“O primeiro ponto de interesse dos hippies foi o fato de serem crianças americanas de classe média até os ossos. Para os cidadãos inclinados a crítica, isso era a coisa mais desconcertante: não eram negros afetados pela cor ou imigrantes pela estranheza, mas meninos e meninas com a pele branca do lado direito da economia em cidades e vilas americanas […] Depois de educação regular, se eles os quisessem, poderiam se mudar e obter bons empregos nos subúrbios, possuir casas bonitas com banheiros, onde poderiam fazer a barba e lavar a louça.”[17]

A ideia do hippie desmiolado, ingênuo e caído numa poça de vômito foi construída posteriormente e faz parte do rebranding que tiraria de cena o cabelo comprido cheio de flores e nos apresentaria o mullet. Não havia nada de tolo na filosofia hippie, pelo contrário, da escola de Frankfurt até os movimentos marxistas da nova esquerda e o feminismo encontraram no caldo cultural hippie um espaço de representação sem paralelos. O movimento hippie acabou por muitos motivos, a guerra as drogas de Nixon certamente foi um dos mais duros golpes, mas nada se comprara ao acaso macabro chamado Charles Mason.

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Local de nascimento da Internet.

O golpe final no sonho cabeludo ocorreu 9 de agosto de 1969 com o assassinato de Sharon Tate, então esposa do diretor Roman Polanski, grávida de 9 meses e mais quatro amigos. O crime, conhecido como caso Tate-Labianca, é emblemático por diversos motivos. Além envolver duas personalidades muito conhecidas do público americano e os requintes de brutalidade, os assassinos eram parte de uma comunidade hippie[18].

Logo a New Age e os dançarinos de Hair se tornaram uma ameaça e nasceu daí a eterna preocupação dos pais modernos com seus filhos ouvindo rock e possivelmente usando drogas dentro de algum culto satânico. Saia de cena a imagem do jovem aparentemente sem propósito na vida, ouvindo Led Zeppelin, para dar lugar a narrativa do garoto rejeitado pelo senso comum do capitalismo, preso em seu quarto criando uma nova rede social bilionária. A apologia às drogas foi deixada de lado em nome de uma criatividade natural, matemática e compactada dentro da lógica. O amor livre, a comunhão e o apurado senso político foram pasteurizados dentro do conceito da arena digital. Ame livremente, desta vez com a ajuda de um app. Conecte-se aos seus iguais, desta vez através do Twitter. Debata política, desta vez através do Facebook. As promessas sãos as mesmas, mas agora tudo está achatado pelo mundo plano da web.

O Big Data é a resposta entre o hedonismo marxista e as pulsões de morte do capitalismo americano. Um modelo de consumo travestido de boas vibrações, do qual surge uma espécie de nômade intelectual que vaga por uma terra onde nenhum atrito aparente ocorre, onde tudo é comprável, vendável, usável e descartável, inclusive sua própria vontade e capacidade de decisão.

Gosto de acreditar na visão fraternal e incrivelmente simples de Jaron Lanier, que prega o afastamento das redes sociais como uma medida provisória. Não precisamos destruir as redes sociais, mas reinventá-las e resgatar de dentro desse turbilhão de ódio e vício o que realmente faz sentido. É difícil admitir, mas por mais que odiemos tudo o que a internet se tornou, ainda confiamos numa intuição persistente que nos diz que em algum momento tudo amadurecerá e se tornará ideal. Como se a internet ainda não estivesse pronta e coubesse a nós a tarefa braçal de colocá-la nos trilhos novamente.

Resta saber se essa intuição é o prenúncio de uma nova era de aquário ou só mais uma armadilha colocada em nossa cabeça por algum algoritmo de última geração.

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Notas:

[1] A tradução é minha. O texto original está disponível em: https://www.facebook.com/notes/mark-zuckerberg/building-global-community/10154544292806634/

[2] O verbete “Criticism on Facebook” na Wikipédia lista cerca de 120 problemas graves, incluindo diversos crimes: https://en.wikipedia.org/wiki/Criticism_of_Facebook

[3] Plataforma popular de transmissão de jogos.

[4] Disponível em: https://about.fb.com/news/2017/03/building-a-safer-community-with-new-suicide-prevention-tools/

[5] Para mais sobre o tema recomendo o documentário The Great Hack, de 2019.

[6] Tradução minha. Texto original disponível em: https://www.facebook.com/notes/mark-zuckerberg/standing-for-voice-and-free-expression/10157267502546634

[7] From Counterculture to Cyberculture: Stewart Brand, the Whole Earth Network, and the Rise of Digital Utopianism

[8] Big Tech. Editora Ubu.

[9] Recomendo a leitura de seu livro, obra definitiva sobre o assunto: The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power.

[10] Vale lembrar que a Microsoft foi criada em Albuquerque, Novo México, mas seu desenvolvimento este diretamente ligado ao Vale do Silício.

[11] Entrevista ao site El País: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/09/cultura/1533824675_957329.html

[12] Aliás, veio da WEC o slogan “Stay hungry, stay foolish”.

[13] Algumas edições estão disponíveis em: https://archive.org/details/wholeearth

[14] SaaS, Software as a Service, ou Software como serviço, é uma forma de disponibilizar softwares e soluções de tecnologia por meio da internet.

[15] Disponível em: https://web.stanford.edu/dept/SUL/library/mac/primary/docs/satori/taste.html

[16] Disponível em: https://la.curbed.com/2011/10/31/10429196/internet-invented-ucla-first-message-museum

[17] A tradução é minha. O artigo pode ser lido na íntegra na versão online do The Atlantic em: https://www.theatlantic.com/magazine/archive/1967/09/the-flowering-of-the-hippies/306619/

[18] O filme Era uma vez… Em Hollywood (2019), de Quentin Tarantino, é a melhor representação do período.

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Escritor, editor e especialista em comunicação digital. https://www.valternascimento.com.br

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Sou escritor, editor e especialista em comunicação digital. Escrevo sobre tecnologia, filosofia e comportamento. Contato: valternascimento@me.com | Mais em https://www.valternascimento.com.br/