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Você não está com medo, está tendo uma crise de ansiedade

Ou a “possibilidade da possibilidade”.

Valter Nascimento
Apr 30 · 4 min read

O filósofo Søren Kierkegaard, que vivia entre crises de ansiedade e atropelamentos de depressão, certa vez disse:

A ansiedade é a tontura da liberdade.

É como ter milhares de possibilidades e não se apegar a nenhuma. É poder escolher todos os pratos de um cardápio, caminhar por todas as ruas, fumar todos os cigarros — e ao mesmo tempo nada disso. O ansioso não é essencialmente pessimista, mas um alarmista. Tal qual os gatos o ansioso tenta sempre cair de pé, preparado-se para a queda antes mesmo da gravidade.

Muita gente ansiosa confunde ansiedade com medo. Não são coisas sequer parecidas. O medo é a antecipação de uma ameaça plausível. Se subo numa escada alta, e isso me causa aflição, o que sinto não é ansiedade de altura, mas medo. Há um risco lógico, um vácuo perigoso, a realização de um problema plausível. A ansiedade opera de modo totalmente distinto. É um eterno “E se”. “E se eu cair?” — mesmo estando longe da escada. “E se a escada quebrar”, “E se eu escorregar?”. A ansiedade não lida com problemas reais, mas antecipa-os, enfileirando-os num jogo de dominó grotesco onde uma peça leva a outra — você vai cair, vai quebrar a perna, vai para o hospital, vai ficar de cama, vai…

Kierkegaard via a ansiedade como combustível essencial para a criatividade e a vida artística. Concordo em partes. Antecipar o inantecipável pode oferecer ótimas ideias (“e se Anna Karienina fosse até uma estação de trem?”, “e se eu pintasse girassóis?”), mas também pode destruir esses impulsos com a mesma proporção. Todo ansioso possui um álbum de figurinhas com todos os seus arrependimentos causados pela ideia persistente de que tudo ia dar errado. Eu já cancelei viagens, negócios, reuniões de amigos, textos, ideias — tudo em nome do “e se”.

E se o saldo criativo fica entre metade genialidade, metade covardia, há ainda o fator exaustão. É cansativo ter ansiedade. É frustante, chato, repetitivo, caro, contraproducente, enauseante. Você compra coisas que não precisa, come coisas que não deveria, faz coisas sem sentido. Em resumo: é um puta desperdício de energia. Boa parte de sua vida passa a operar num mundo simulado, composto por suposições absolutamente infundadas e ainda assim incrivelmente reais.

Por isso é tão difícil fugir de uma crise de ansiedade, pois ela funciona como um jogo de espelhos. Quando você elimina um problema, surge outro. Ela é do tamanho da sua imaginação. Kierkegaard foi cirúrgico:

[A ansiedade] é totalmente diferente do medo e de conceitos semelhantes que se referem a algo definido, uma vez que a ansiedade é a liberdade definida como a possibilidade da possibilidade.

Você não tem uma crise de medo, mas medo de ter medo, que gera mais medo e mais ansiedade. Ou seja, a “possibilidade da possibilidade” sem açúcar, sem delongas.

Lava a mão de novo

A combinação pandemia global + noticias horrendas na TV e internet + isolamento social + instabilidade econômica + Jair Bolsonaro respirando é certamente o cenário de tempestade perfeita para quem tem ansiedade. Se você não teve até agora nenhuma crise de ansiedade é sinal de que a sua psiquê é feita de titânio. Ou que você apenas desistiu.

Ansiosos crônicos passam boa parte do tempo tentando se convencer de que tudo vai ficar bem. Pois é, não vai. Não há possibilidade nenhuma de que a vida que vivíamos em fevereiro desse ano volte. Não há a menor chance de que nossa conta bancária passe incólume por uma recessão mundial. É provável que pessoas próximas morram. A possibilidade da possibilidade encontrou o seu nível hard.

A pandemia e o isolamento social estão colocando mais e mais pessoas em contato com esse sentimento constrangedor. Outro dia uma amiga me perguntou se sentir palpitações, insônia e uma sensação constante de que o mundo vai cair na sua cabeça é normal. Bem-vinda ao clube. O que para muita gente é um efeito colateral da incerteza, para os ansiosos é o comportamento operacional padrão.

Mas repare num contraponto curioso: o mundo sempre viveu em estado contante de ansiedade. E se a bolsa cair? — ela caiu. E se pessoas morrerem? — pessoas estão morrendo. E se tudo virar de ponta-cabeça? — tudo virou de ponta-cabeça. E se o fascismo voltar? E se as pessoas pirarem? E se… O nosso panteão de ansiedades instantaneamente virou realidade.

É a primeira vez, desde a chegada dos computadores, dos celulares, do Facebook e das fake news que realmente paramos. E isso é omo frear depois de uma curva fechada. É como descer de uma roda gigante e ver o chão se movendo. Nossa cabeça está numa velocidade diferente da do mundo de agora. E isso doí. Essa pode ser a chance de respiro que tanto aguardávamos, ou o afundamento completo numa hyper ansiedade, numa ansiedade suprema, paralisante e definitiva.

É uma pena que tenha que ser assim, de modo tão brusco, mas quando as coisas estão fora do compasso recuperar o ritmo não é uma tarefa indolor.

A grande questão é: se a ansiedade é uma antecipação de uma tragédia que não acontece, o que ocorre quando a tragédia realmente se manifesta?

Ainda estamos descobrindo. Mais uma vez, “e se?”.

Dica de leitura: Kierkegaard, “O conceito de ironia”.

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Sou escritor, editor e especialista em comunicação digital. Escrevo sobre tecnologia, filosofia e comportamento. Contato: valternascimento@me.com | Mais em https://www.valternascimento.com.br/

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