VDM / Conclusão

Todas as pessoas envolvidas com projetos criativos devem trabalhar para a construção de uma cultura projetual comum.

E se a cultura é de projetos, precisamos parar de cair no engano comum de entendê-los como arte. Por mais que um site, folder, campanha, aplicativo mobile ou cenário seja esteticamente bonito:

Arte é talento. Projeto é habilidade. Arte é interpretada. Projeto é compreendido.

Um bom trabalho de arte é aberto à interpretação e, portanto, entrega uma mensagem diferente a cada pessoa. Já um bom projeto, por sua vez, é uma construção que entrega a mesma mensagem para todos. O que nos leva a concluir que a arte inspira, enquanto um projeto leva a uma ação.

No ambiente da arte, a noção de certo ou errado não se aplica — pelo menos não no contexto contemporâneo. O que é diferente de projetos. Estes entregam produtos, serviços ou resultados exclusivos. Em muitos casos, podemos medir claramente o seu êxito e entender se as escolhas projetuais deram certo ou não.

Mas não podemos deixar de lado que, se esses projetos são criativos, não se deve pensar em fórmulas prontas, caminhos seguros e salvos do erro. Pelo contrário, o projeto criativo caminha na perigosa linha do risco.

Tibor Kalman

Existem leituras mais radicais em relação a isso, como a do designer designer gráfico estado-unidense de origem húngara Tibor Kalman que tinha uma teoria interessante. Ele disse: “Você não quer fazer muitos projetos do mesmo tipo. Eu fiz dois projetos de um monte de coisas. O primeiro você estraga de um jeito interessante. O segundo você acerta. Depois saio fora.”

Ele continuou: “Eu acho que enquanto eu não sei como fazer algo, posso fazê-lo bem. Assim que eu aprendi como fazer algo, deixo de fazer tão bem, porque vai ser mais óbvio.”

De uma forma um tanto transversa, Kalman nos leva a refletir sobre o conceito de sabedoria prática de Aristóteles em nosso trabalho. Desenvolver um projeto criativo envolve a vontade fazer a coisa certa e a sabedoria de entender o que é essa coisa certa. O que nem sempre é fácil.

Lembrando a palestra On Being Wrong, da Kathryn Schulz, a sensação de estar errado é a mesma de estar certo. Na maioria das vezes, não temos qualquer tipo de dica interna para sabermos que estamos errados sobre algo, até que seja tarde demais.

Este é o grande barato de aplicar o FATOR VDM, de questionar, testar, revisar as “pequenas apostas” que têm a ver com o seu projeto. Meu objetivo com o FATOR VDM não é propor uma tábua com dez mandamentos, doze passos da felicidade, cura para todos os males e nem a receita para a iluminação suprema, que vai fazer com que todas as suas relações com clientes, terceirizados, colaboradores e fornecedores passem a funcionar instantaneamente. Em resumo, este é apenas um guia para chamar sua atenção para o que é essencialmente necessário num projeto criativo bem-sucedido: a virtude de combinar bem combinado, mesmo considerando que tudo muda o tempo todo.

Tem uma imagem aristotélica incrível: a dos artesãos que mediam colunas com réguas flexíveis. Seja a fita de plástico ou régua de madeira, ambas têm exatamente um metro. Cada uma com seu uso próprio, para uma determinada situação.

E já que estamos falando tanto de Aristóteles, vale lembrar como ele acreditava também que a sabedoria prática era o caminho para a felicidade.

Traduzindo para os projetos significa: conseguir gerenciar boas relações com as pessoas que estão próximas de você, realizando atividades bacanas cujos resultados trazem satisfação. Acredito que isso é quase tudo que se pode desejar. Diz o Mel Brooks que a vida é um palco e entramos nele sem ensaio.

Hope for the Best, Expect the Worst, de Mel Broks, trilha sonora do filme The Twelve Chairs

No fundo, espero que você aproveite seu trabalho e consiga fazer com que ele aconteça da melhor forma possível — evitando desastres. Ficar ligado nos processos é muito importante. Mas o fundamental é ser feliz.

Bons projetos. :-)

Luis Marcelo Mendes no Consultório VDM. Insert, setembro de 2012.