Revólver Colt de percussão, modelo Navy de 1851, em calibre .36

VDM / Concorrências e parcerias

Em alguns momentos você se encontrará diante de uma concorrência. Tudo bem, desde que você não perca a coerência.

No universo do serviços criativos, as concorrências são fenômenos comerciais frequentes em que é oferecida a oportunidade a um determinado número de profissionais para que apresentem uma solução criativa a um determinado desafio e seu respectivo orçamento.

Com frequência elas assumem um perfil especulativo, em que o profissional criativo apresenta o layout, o conceito ou o planejamento, sem qualquer tipo de remuneração e somente é pago se lançar os dados certos nesse jogo de azar.

Não se sabe exatamente qual a origem das concorrências criativas. Entre o meio publicitário é uma prática comum e aceita sem maiores polêmicas, principalmente quando as contas em disputa somam milhões. O pote de ouro no fim do arco-íris é um significativo estímulo à produção das melhores ideias e dos planejamentos mais elaborados.

Entretanto, o mesmo modelo é correntemente reaplicado a todo tipo de serviço criativo e, dessa forma, acaba funcionando como uma prática predatória e não um estímulo criativo. Reduz as possibilidades em vez de promover o avanço projetual.

Não cabe aqui julgar esse tipo de concorrência especulativa, embora ela seja claramente condenada por códigos de ética como o da ADG Brasil (Associação dos Designers Gráficos) e da AIGA (American Institute of Graphic Arts). O interesse é analisar o FATOR VDM que está ligado a esse tipo de modelo de contratação e apontar que elas acabam por desqualificar a própria matéria que está em concurso.

Nesse caso, nem sempre um negócio é um bom negócio.

As concorrências são modelos primários de contratação criativa, já que muitas vezes partem de um volume prévio de informações insuficiente, sem acesso a dados importantes e conversas com pessoas-chave do cliente, comprometendo a qualidade da solução a ser apresentada.

Quem participa de uma concorrência deseja vencê-la. Portanto, as soluções apresentadas podem estar mais focadas em impressionar o cliente com aquilo que ele pode vir a gostar do que uma solução real para um problema que requer análise aprofundada.

Por fim, concorrências são instrumentos cuja mon­tagem é complicada e requer cuidado para ser bem feita. E, muitas vezes, elas acabam sendo montadas às pressas, sem um refinamento mais cuidadoso. Somente com a conquista saberemos realmente como será a regra do jogo projetual. Ou seja: metologia, prazos, aprovações etc.

Quando um processo de concorrência é necessário para atender questões de isonomia, o mais importante é observar as melhores práticas de mercado para concorrências de serviços criativos: seleção por análise técnica de portfólio e entrevistas individuais e por serem processos criativos pagos.

Também chamam a atenção os briefings detalhados e materiais informativos completos. Critérios claros de avaliação dos trabalhos apresentados através de extensa documentação. Regras bem definidas e um profundo compromisso na realização de projetos da mais alta qualidade. Esse é o modelo que faz toda a diferença.

Quando não há rigor e cuidado no processo, vencer uma concorrência pode significar uma romântica corrida pela praia para abraçar o desastre.


A nossa parceria

Assim como as concorrências, é possível que você se veja diante do dilema da parceria. Parodiando a famosa frase “quando ouço a palavra cultura, saco logo meu revólver”, posso afirmar que faço o mesmo toda vez que ouço a palavra “parceria”.

Segundo o dicionário Aurélio, “parceria” significa “reunião de pessoas para um fim de interesse comum, sociedade, companhia”. Na prática, o conceito de parceria utilizado pelo mercado de trabalho se tornou quase um sinônimo de condições desfavoráveis, prazos curtos e verbas irrisórias:

parceria par.ce.ri.a
sf (parceiro+ia) 1 Trabalho sem remuneração ou com remuneração muito abaixo dos valores praticados pelo mercado. 2 Trabalho cuja remuneração está atrelada ao sucesso de um terceiro. 3 Quebra-galho em função de trabalhos futuros. Var: entubação. Pela parceria: a contragosto; para preservar a manutenção do cliente.

Essa é uma situação constante de quem trabalha com serviços criativos. Sempre você vai querer oferecer um pouco mais do que o originalmente combinado ou alguém vai lhe pedir para produzir algo fora do roteiro.

A primeira situação pode ser caracterizada como capricho, gentileza ou uma provinha do seu talento, um petisco para abrir o apetite, um test-drive para sentir a potência quando você tem outras coisas para vender. Essa é a diferença entre dar e investir. O que você não deve fazer é resolver o problema do cliente. Aí você deixa de ser necessário.

A outra situação é quando o cliente pede algo de graça. Aí estamos diante de uma situação que pode assumir diversos contornos:

Abre portas
Para iniciar uma “nova parceria” você quebra um galho tendo em vista que isso vai abrir portas para você na empresa. É um canto de sereia comum. Melhor não contar com isso, a não ser que seja possível definir claramente qual é o pote de ouro no fim do arco-íris.

Parceria
Em nome da “nossa parceria” alguém pede algo além da provinha: quer a sobremesa inteira (sem custos extras). Muitas vezes essa ação pela “nossa parceria” pode estar ocultando algo que o cliente deveria ter pensado e não pensou. E nem sempre se trata de mesquinharia. Há casos onde conseguir uma verba extra para pagar pelo que não foi previsto pode ser realmente algo complicado de se justificar administrativamente numa organização, pública ou privada.

Poder
E existe a demonstração de poder. Seja de contagem de centavos ou de teste de fidelidade. O cliente sabe que precisa de um item, não coloca no escopo e, com o orçamento fechado, surge a demanda de surpresa. Em algumas situações é uma simples imposição: “Olha, vocês vão ter que absorver isso aí.” E esse é um cenário canibal do qual é melhor correr.

Futuro grandioso
É aquele pedido de quem não pode ou não quer pagar por algo agora. Então o cliente solicita um pré-projeto, um modelo, uma maquete, um draft, um layout, um roteiro. É um caso diferente da concorrência, mas ainda baseado na fortuna futura.

Parceria de verdade envolve termos de negócio bons para todos, que permitam ao profissional criativo trabalhar com folga e foco na solução do problema.

Tirar o couro, exigir trabalhos não previstos no escopo, encurtar o prazo e outras coisas do gênero não encaixam na definição de parceria.

Matar, não mata. O professional sobrevive. O cliente sobrevive. Mas o projeto sofre. Talvez nem chegue a ver a luz do dia ou seja lançado mutilado. Ou remendado. Ou sem fôlego. Mas uma coisa é certa: só há projetos vigorosos e saudáveis quando há um bom negócio realizado pelas partes.


É dando que se dá

Quando você quiser fazer algo por pouco ou nenhum dinheiro, porque acha que vai ficar bem no seu portfólio, não arranje desculpas ou justificativas para aliviar a dissonância cognitiva. Vá lá e faça.

Existem vários motivos para você entrar numa canoa furada. Desde o projeto sem dinheiro mas “que vai ser bom por ter essa empresa na lista dos clientes atendidos” até o projeto que o cliente vai tentar vender para alguém e um dia pode se tornar um trabalho de verdade.

Seja qual for o argumento, ele não passará disso: uma desculpa. Que por várias vezes escamoteia a razão principal para se fazer um mau negócio: vaidade criativa, fetiche ou qualquer outro motivo pessoal.

Claro que tem o caso clássico de início de carreira, em que determinados projetos passam a ser realmente suas primeiras experiências. Nesse caso, um mau negócio raramente tem poder de abalar sua estrutura. Como dizia Bob Dylan, “Quando você não tem nada, você não tem nada a perder”.

Você encontra a versão impressa do FATOR VDM à venda no site da Ímã Editorial.