Racetrack playa, Death Valley, California.

VDM / Experimentação

Negócios criativos em todo o mundo lidam com o dilema de saber o que é mais importante: criatividade ou lucratividade?

A questão não é uma dúvida existencial exclusiva de pessoas que estão no início da carreira profissional. Mesmo profissionais mais experientes vivem essa mesma tensão: ao fechar um novo trabalho, você está realmente priorizando o negócio ou satisfazendo a vontade de pensar uma solução criativa para um desafio?

E, quando contratado, ao desenvolver o projeto você busca a melhor solução criativa independentemente do tempo que isso leve e dos recursos envolvidos? Ou você tenta resolver o problema com o menor esforço e a maior lucratividade possível como é a essência do motor da economia de mercado?

Controle as suas horas e as da sua equipe, se você estiver num coletivo. Entenda onde está sendo aplicado o esforço. Estabeleça processos. Saiba bem para onde estão indo os recursos. Hoje em dia existem muitas ferramentas interessantes de gerenciamento de negócios criativos, várias delas disponíveis na internet, pelo preço de uma assinatura mensal.

Se você considerar que não tem estômago para fazer isso, contrate alguém que tenha. Sem heroísmo.

Mas também é verdade que “hay que endurecerse, pero sin perder la experimentación jamás”. Negócios criativos não podem se contentar com uma criação estagnada, que siga fórmulas estanques, que se dê por satisfeita. O negócio é entender os limites de ação de cada projeto e buscar o novo. Mesmo que isso signifique assumir alguns riscos.

Mas isso não é contraditório com o Fator VDM?”, você pergunta.

Nem um pouco. O objetivo de se lançar o olhar VDM sobre as coisas é não se agarrar à crença de que tudo vai dar certo: questione, duvide, comprove, verifique, revise, consulte, teste, reteste.

Assumir riscos significa aquilo que o nome diz: assumir. Tomar consciência. Entender previamente que uma escolha pode eventualmente dar errado e estar preparado para agir se algo realmente der errado.

Mas não assuma riscos sozinho. Envolva sempre o cliente porque são necessárias duas pessoas para se dançar esse tango. Comunique, participe, envolva. Inovem juntos.


O Vale das Ideias Mortas

Costumo falar a jovens profissionais criativos que eu já visitei algumas vezes o Vale das Ideias Mortas. É um local desolador, sombrio e árido. Um lixão de conceitos iluminados que nunca se concretizaram. Lá são despejadas diariamente toneladas de boas ideias que foram rejeitadas, desprezadas, gongadas, ignoradas ou riscadas do mapa sumariamente muitas vezes para dar lugar a ideias tradicionais, redundantes, sem brilho próprio.

Ao andar pelo Vale e encontrar catadores peneirando as montanhas em busca de algum material reciclável (provavelmente para uma concorrência especulativa) é inevitável pensar nos motivos de tanto desperdício criativo.

Em resumo, uma boa ideia pode ser uma boa ideia em si. Mas não se realizará como projeto se não estiver em sintonia com a cabeça do seu cliente ou, mais importante ainda, com o público do seu cliente.

Assim, o projeto gráfico criado para uma revista de programação do canal de TV a cabo pode ser incrível e revolucionário. E também inadequado para as revendedoras de assinaturas que utilizam a peça como ferramenta de trabalho. Com isso, joga-se a ideia no lixão.

Ou ainda, o projeto gráfico da revista pode ser adequado e criativo. Mas a escolha do papel, do formato, do acabamento e de tantos outros fatores podem fazer com que mesmo uma ideia aparentemente legal seja empacotada e largada no Vale das Ideias Mortas.

Felizmente existe um seguro de vida para ideias criativas. Isso mesmo, você adivinhou: o FATOR VDM.

Ao colocarmos as ideias criativas pela análise VDM, podemos dar vigor, consistência e coerência para elas. Antes de apresentar uma ideia, passe-a no medidor e veja o que acontece. Mais uma vez: questione, duvide, comprove, verifique, revise, consulte, teste, reteste. Com os sapatos do seu cliente e do público-alvo do cliente.

A pior coisa do Vale das Ideias Mortas é que este é um ambiente carregado da profunda tristeza que os profissionais criativos têm ao abandonarem suas criações — mesmo aquelas mais inadequadas.

No fundo, não importa se a ideia não tem pé nem cabeça. Assim como não importa se ela foi descartada. Muitas pessoas vão continuar tendo um afeto silencioso por cada ideia. Na calada da noite, elas vão escondidas lá no Vale levar leite em pó e cobertores para as suas concepções incompreendidas pelo estúpido mundo corporativo.

O escritor norte-americano William Faulkner cunhou a expressão que vale tanto para os escritores, redatores de publicidade e jornalistas quanto para qualquer designer, webdesigner, diretor de arte ou desenvolvedor de projetos criativos: Kill your darlings (“Elimine os seus queridinhos”).

Isso não significa que você deve pegar um facão e decepar a sua família antes de ir à reunião de apresentação ao cliente. O que Faulkner queria nos ensinar é que em qualquer projeto criativo, devemos ter a coragem de nos livrar das ideias que, no fundo, não são fundamentais ao projeto.

Existem diversos “queridinhos” na nossa trajetória profissional pelos quais acabamos nos afeiçoando e que fazemos de tudo para não despachar sumariamente para o Vale das Ideias Mortas: frases supostamente brilhantes, curiosidades insignificantes, tipografias com personalidade, preâmbulos e explicações, coisas em movimento na internet, formatos diferenciados, bossas visuais, plugins e softwares que acabaram de ser lançados, materiais, papéis, bossas, cadências, milongas e uma tonelada de outras coisas que realmente não se relacionam com o problema que o projeto deve solucionar.

A designer carioca Giselle Macedo, por exemplo, é o tipo de profissional que leva isso muito a sério. Onde ela vê algo no seu projeto que a agrada especialmente, não pensa duas vezes: senta a marreta na ideia sem piedade. Bate, critica, desacredita. Pisa, chuta, arremessa para fora da janela.

Se depois dessa surra toda a ideia ainda conseguir ficar de pé, provar-se pertinente e necessária, demonstrar força e valor, aí ela conquista o seu direito de fazer parte do projeto. Caso contrário, seu destino será o esquecimento definitivo no Vale das Ideias Mortas. Sem dor, sem funeral, sem arrependimento.

A rotina de eliminar seus queridinhos deve ser encarada como um tratamento preventivo do FATOR VDM para a saúde de seus projetos. Faça isso com cada um, sem querer proteger o queridinho da pancadaria. Quanto mais cedo isso acontecer melhor será para você e para seu cliente.

Você encontra a versão impressa do FATOR VDM à venda no site da Ímã Editorial.