Falar de “rock triste” não é romantizar depressão
Porque falar sobre assuntos delicados através da arte não se trata de romantizá-los.
Desde, não sei?, sempre a gente vê na arte uma romantização da dor e da tristeza. Nosso ideal de amor romântico é herdado do romantismo (o movimento literário), que nos diz que o amor verdadeiro deve doer, causar sofrimento e não deve se concretizar. Há quem diga que apenas a tristeza e a dor profundas são capazes de fazer com que artistas criem obras verdadeiras e belas. Eu, por muito tempo, apoiei e acreditei nessas coisas, porque, bom, por que não? Ouvi tanto isso ao longo da minha vida, talvez fosse verdade. Mas quando você conhece relacionamentos saudáveis e quando você conhece o processo criativo de artistas, além de refinar o seu próprio, entende que tudo isso é balela rasa de quem não entende nada — nem de arte e nem de relacionamentos.
Entretanto, apesar da tristeza não ser a única sensação capaz de gerar obras belas e honestas, ela ainda é o motivo da existência de muitas dessas obras, inclusive muitas das que eu consumo, admiro e, principalmente, me identifico.
O termo ‘rock triste’ surge na música nacional independente cunhado por fãs, e se refere a um apanhado de bandas de rock com bastante influência do som feito nos anos 90, cujas composições trazem temas extremamente pessoais e são carregadas de uma carga emocional bem pesada. Nem todas as bandas chamadas de ‘rock triste’ pelo público abraçam a alcunha, mas o termo é utilizado por quem consome as bandas independente disso. Antes de mais nada, o nome é uma brincadeira óbvia, feita por causa da temática em comum das bandas — brincadeira que fica (ainda mais) evidente quando você para pra observar as páginas de humor feitas pelo público que são dedicadas ao som desses grupos. É rock triste porque, bom, é rock e não é feliz. É simples. E sincero também.
Com a popularização do termo entre bandas e público desse cenário em particular, questionamentos também começaram a surgir. É uma celebração da tristeza, da depressão e da ansiedade social? É a romantização de um estado psicológico e emocional que, na verdade, não faz bem pra ninguém? De acordo com quem toca/compõe e com quem ouve (eu inclusa): não. E achei que isso fosse óbvio, mas pra quem vê de fora talvez não seja. Os músicos escrevem sobre suas experiências pessoais, o público se identifica. Nós fazemos parte de uma geração ansiosa demais, que toma remédios demais e vive agoniada demais. É claro que existe espaço para bons sentimentos e bons momentos, a vida não é uma constante, seja ela negativa ou positiva. Mas estamos falando de uma geração que trabalha e estuda ao mesmo tempo, que leva horas no trajeto casa-faculdade-trabalho-casa, que, em sua maioria, não conhece estabilidade. Esses músicos e esse público que questionam o modo de produção capitalista ao mesmo tempo que devem se ajustar a ele na busca de algum sucesso ou pelo menos alguma estabilidade em suas vidas. Que estão frente a um cenário de instabilidade em todos os campos: emocional, político, financeiro. Se identificar, nesses casos, é normal. E é bom, na verdade. Que essas pessoas se encontrem, que haja esse diálogo e esse vínculo — quando falamos de “rock triste”, é notável a aproximação entre músicos e público. É louvável. Porque permite que você troque ideias com a pessoa que escreveu aquela música com a qual você se identifica. Todo mundo adora The Smiths e chora ouvindo I Know It’s Over, mas você nunca vai poder sentar e conversar com o Morrissey sobre os transtornos que vocês tem em comum. Só que nesse caso, falamos de músicos que estão a um clique ou um show de distância e que não querem ser diferentes das pessoas que consomem sua música. O tal “rock triste” gerou uma rede de contatos interessante e tem reforçado a ideia de coletividade e apoio mútuo, na hora de fazer música e depois que os amplificadores se desligam também. Então, se a dúvida é se estão romantizando a tristeza, a resposta é não. Estão, através dessa movimentação em torno da música, buscando alternativas de atravessá-la da melhor forma possível.
P.S: talvez esse vídeo seja útil também. E essas páginas são úteis ao falar de ‘rock triste’ com o humor que gerou o termo. E se você fala inglês, talvez esse texto também fale sobre isso de uma forma legal.