
A Criança de 75 anos
Seu Pedro Rufino e sua mulher, dona Maria, contam com alegria sobre a sua infância em Jenipapo, como se conheceram e sobre seus maiores frutos: seus netos.
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No município de Pasmadim foi onde encontramos mais crianças nesta passagem pelo Vale do Jequitinhonha. Havia muitas brincando nas ruas, em frente as suas casas, na escola, na igreja, em todos os lugares. Em meio a tantos meninos e tantas meninas sorrindo e se divertindo, um chamava a atenção, seu nome é Pedro Rufino. Embora esteja no auge de seus 75, Pedro tem a alma de um menino e sempre se emociona ao falar sobre a sua infância. Desta vez com a Lilian Wutzke, outra amiga nossa voluntária pela Visão Mundial.

“A gente era em quatro, eu tenho dois irmãos, Bastião e Oswaldo, e uma irmã, a Heroína”, diz seu Pedro enquanto fazia algumas colheres de pau. Heroína é a mais velha e a única que ainda está viva. Ela fez jus ao nome e sempre cuidou dos outros três meninos como uma guerreira enquanto seus pais trabalhavam. “Nós quatro éramos muito unidos, era a maior alegria quando a gente ficava junto”.
O olho de Pedro brilha quando conta a história de seu nome. “Na verdade, eu não tenho ‘Rufino’, meu nome é só ‘Pedro’”, ele completa, “’Rufino’ é o nome do meu pai, me dá muito orgulho e alegria quando dizem que eu lembro ele”. A rua onde estávamos, na casa da família de Pedro Rufino, se chama “Rua Rufino”, em homenagem ao seu pai, pois ele construiu as primeiras casas da primeira rua da cidade.
Hoje, Pedro é casado com dona Maria José Pereira Rodrigues e mora há 44 anos na mesma casa. Os dois tiveram dez filhos juntos. Além desses, Pedro teve outros três com outra mulher antes do seu casamento. “Ainda falo com eles, um filho meu morreu, um está lá no Mato Grosso do Sul e o outro mora aqui perto da gente”.

Seu Pedro e dona Maria são evangélicos. “Tem uns 20 anos que a gente é crente”, diz ela, “a gente se converteu junto, mas nem foi sempre assim”. Os dois se conheceram num lugar bem diferente da Igreja de Jenipapo, local onde congregam aos domingos desde que viraram evangélicos, “quando eu era mais nova, era muito levada e gostava muito de namorar. A gente se encontrou num forró e depois de uma noite toda dançando, ele me pediu em namoro”.

“Minha infância foi muito difícil, a gente não podia brincar nunca porque meu pai sempre me obrigava a trabalhar. Eu tinha que brincar escondida porque se meu pai me visse, ele me levava de volta para o mandiocal”. Entre uma lagrima e outra por lembrar do passado, ela continua, “eu trabalhava na roça e a gente tinha que fazer 40 alqueires de farinha de mandioca por dia, com 16 anos”.


Com o tempo, devido à forte seca, toda a roça foi morrendo, dona Maria foi crescendo e foi morar na cidade junta com seu Pedro. “Eu gosto muito desse lugar, é um lugar calmo e com gente do bem. A única coisa ruim é que quem tem mais idade, adoece muito fácil por causa da falta de chuva”, diz dona Maria — “adoece, mas não morre, graças a Deus” — seu Pedro interrompe fazendo os cinco caírem na risada.
Hoje o maior fruto do relacionamento dos dois são seus netos. Um deles mora na casa dos avós e é o orgulho de Pedro Rufino, “ele vai ser um fazedor de colher excelente, aprendeu com o vô”. Admirado, seu Pedro conta como aprendeu a fazer colher, “um dos meus irmãos, era o melhor fazedor de colher de Jenipapo, eu só ficava olhando ele fazer e aprendia, gostava muito do jeito que ele raspava a madeira”.

Os outros netos, Pedro e Maria não veem muito, mas quando conseguem se encontrar, nada tira o sorriso dos avós, “já tenho uma penca de neto, tenho quase bisneto. Minha maior alegria é quando vem a criançada aqui em casa, adoro esses menininhos. Eles vêm aqui, gostam de pegar siriguela, passam o dia com a gente e animam tudo. Gosto muito da pureza e da diversão dessas crianças”.


A Visão Mundial atua há 40 anos no desenvolvimento da criança e do adolescente no Brasil, garantindo educação, participação e proteção na vida de todas as crianças de Jenipapo e de todos os netos de Seu Pedro e dona Maria.
Se você quer ajudar na formação dessas e de muitas outras crianças, colabore com a Visão Mundial para que ela continue com o seu trabalho de transformação e avanço social na vida milhares de crianças. Conheça a nova campanha “Doe Uma Escolha” e ajude a Visão Mundial a construir novas salas de leituras para incentivar a leitura para crianças em situação de vulnerabilidade social:
Texto: Vinícius Lima
Fotos: Marina Vancini
