Economia da Atenção

Estamos remando ou sendo levados pela correnteza?

Você já ouviu falar em Economia da Atenção? Sabe o que é isto? Bem… Eu também não, então vamos tentar descobrir juntos. Mas aviso, será uma leitura longa. A primeira vez que vi este termo foi durante a leitura de A Inteligência Coletiva — Por uma antropologia do ciberespaço, de Pierre Lévy. Infelizmente, não me recordo o ponto exato para citá-lo e, ainda que o autor não se debruce muito neste tópico, foi algo que ficou martelando minha mente.

Em outra ocasião, ouvindo um podcast de tecnologia, um participante disse que preferia aplicativos e serviços pagos, pois tinha receio daqueles que eram oferecidos de forma gratuita. Finalizou com a máxima: “Se você não paga por um produto, o produto é você”. Mais uma vez, aquele termo ficou martelando minha mente e resolvi pesquisar.

Acabei chegando em um vídeo The Attention Economy — How They Addict Us, de Will Schoder. Curiosamente, conhecia o canal por conta de outro vídeo. Me surpreendi com o fato de que várias ideias e pensamentos que formei ao longo do tempo encontraram um ponto de convergência nele. Não gosto da ideia de deixar outros pensarem por mim e depois dizer que “fulano me representa”, mas gostaria de fazer minha reflexão inicial sobre o tema (pretendo fazer outros posts) usando o vídeo abaixo.

Em uma excelente matéria da BBC Brasil, que fala sobre descanso, um trecho me chamou a atenção: “Para nos sentirmos plenamente descansados, nós precisamos de um tempo sozinhos sem medo de sermos interrompidos […]”. Sinto essa paranoia de não poder ficar uma ou duas horas fazendo alguma atividade, como ler um livro ou assistir a um filme sem ser interrompido por algo ou alguém, tais interrupções geram um certo estresse.

No início do vídeo, vemos exatamente isso: um sujeito lendo e sendo interrompido mas, ao invés de ficar estressado, acaba se entretendo com as notificações de redes sociais, uma espécie de dominó mental. Quantas vezes já aconteceu de você abrir o navegador ou o Youtube para buscar alguma informação e, quando você menos percebe, está vendo outros vídeos e páginas sem nenhuma relação? E o pior: depois de voltar para a atividade anterior, você percebe que não pegou aquela informação que precisava! E, assim como no vídeo, você percebe que se passou mais de meia hora!

Eis um recurso escasso altamente disputado: a atenção. E, com os dados coletados em nossa navegação e interação, empresas tomam conhecimento de preferências para fazer propaganda certeiras. De certa forma, muitas pessoas consideraram isso algo positivo. Confesso que acho interessante quando, por exemplo, um veículo de internet é patrocinado por alguma empresa que atue em um ramo pertinente ao assunto discutido.

O problema em questão aqui não é o consumismo em si, mas o quanto de nossa atenção e de nosso tempo é desviado daquilo que realmente queremos fazer, para aquilo que a maré nos leva. O vídeo mostra uma estatística de uso médio de três horas e meia por dia, envolvendo Netflix, Facebook, Youtube e Snapchat (confesso que nem sei direito o que é este último).

Aproveito para pegar alguns tópicos discutidos neste ponto do vídeo, fazendo alguns complementos:

  1. Títulos esdrúxulos de vídeos: Assim como nas manchetes, são muito comuns certos “padrões” de títulos de vídeo, que chamam a atenção da maioria das pessoas. Além disso, costumam trazer miniaturas com imagens que mostram algo não presente no vídeo ou que distorcem seu sentido. Voltando aos títulos, faça o teste e veja a mesmice: entre em alguns canais que estão “em alta” no Youtube e pesquise dentro do canal termos como “E agora” ou “e olha no que deu” (mas não clique em nenhum dos resultados! A não ser que você queira contribuir aumentando as visualizações de tais canais). É incrível como esse padrão se repete em diversos vídeos de vários canais.
  2. Auto-Play: Netflix e Youtube, geralmente, trazem como padrão esta função que estimula o usuário a continuar assistindo, mesmo depois de terminar de assistir o vídeo desejado. Verdade seja dita, no caso do Youtube, este recurso (que não uso mais) me permitiu uma vez descobrir novas bandas, quando deixei uma aba aberta tocando o álbum de uma banda que eu já conhecia, o auto-play prosseguiu executando álbuns de bandas relacionadas.
  3. Rolagem infinita: Eis aqui uma das coisas que mais me causam aversão. Em que se pese as vantagens para o carregamento rápido de uma página principal, tal recurso incomoda principalmente em espaços de comentários e discussão. Me recordo dos fóruns tradicionais e das comunidades do Orkut, que permitiam o uso de formulários e um acompanhamento de determinada discussão de maneira bem sóbria. Mesmo em discussões longas, poderíamos chegar rapidamente aos posts mais antigos ou mais novos através das páginas numeradas. No Facebook, desafio qualquer um a encontrar um post específico em algum grupo de discussão movimentado depois de 1 mês. Na rede social chamada VK, apesar de seus vários problemas, há uma solução bem interessante para isso: a rolagem infinita existe, mas enquanto ela é realizada, é mostrado também na direita superior a numeração de páginas, permitindo acessá-las rapidamente clicando no respectivo número. Outra coisa que incomoda demais e desencoraja as discussões no Facebook é fato de que, se você escrever um post com mais de 4 ou 5 linhas, fatalmente irá aparecer um “Ver mais” [que inspirou o nome de minha “revista” no Medium] e você será obrigado a ficar clicando nisso a todo momento, para ver os textos na íntegra e para carregar mais posts.
  4. Desconexão: Mas então seria melhor desconectar de tudo isso? Will Schoder alerta que isso não é tão fácil assim, muitas pessoas tem medo de se sentirem alienadas por “perderem” o que “está acontecendo”. Basicamente: notícias em tempo real, trending topics, no bom e velho português coloquial: “aquilo que está ‘bombando’ no momento”.
  5. Não é fácil: Além disso, os sites são desenhados para lutar contra seu cérebro e pegá-lo pela emoção. Como quando você vai fechar a aba e aparece um banner questionando por que você está indo embora e lhe oferece alguma “vantagem” ou desconto etc. Pense no seguinte: quantos livros você já leu em sua vida? Agora imagine quantos livros, específicos, cada profissional de marketing e social media já leu, sem contar os cursos. Multiplique isso por dezenas, centenas ou até milhares. É óbvio que eles estão muito mais preparados em prender sua atenção do que você em se desvencilhar de suas esparrelas e recompensas (com técnicas de reforço positivo).
  6. Perda de Foco: As, aparentemente, inofensivas mensagens que recebemos tiram nosso foco da tarefa que estamos executando e, segundo estudo de Gloria Mark, levamos, em média, 23 minutos para conseguir nos concentrar novamente depois de uma interrupção. Isso apenas reforça minha ideia de que, em regra, ninguém trabalha oito horas por dia. Pode ser o que o cartão de ponto mostra mas, se observamos as horas líquidas, aquelas que realmente foram trabalhadas, acredito que se chegue, no máximo, a cinco horas ou cinco horas e meia. Sem contar a queda de produtividade causada pela falta de foco.

No vídeo, o autor também comenta sobre as rápidas doses de dopamina, proporcionadas pelo atos de “curtir, deslizar, atualizar”. Aliás, podemos ver isso também em alguns jogos de videogame ou PC, principalmente, em jogos online ou de smartphone, onde o jogador é recompensado, frequentemente, com aumento de level, ganho de itens etc.

Will Schoder também faz um comparativo entre as visões dos autores George Orwell (1984) e Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo). Enquanto aquele temia que os livros fossem banidos, este temia que não precisassem ser banidos porque ninguém teria interesse em lê-los. Acrescento aqui também a ideia de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, que traz como mote uma sociedade onde os bombeiros (!) incendiavam livros e os versos finais da música The point of no return, da banda Tragedy: “and they won’t have to burn the books / when no one reads them anyway” (numa tradução livre: “e eles não precisam mais queimar livros, pois ninguém os lê mesmo”).

Continua Will Schoder: Orwell temia que nos privassem da informação; Huxley temia que nos dessem tanta informação que seriamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós; Huxley temia que a verdade fosse afogada em um mar de irrelevância. Essa última hipótese, me remete a uma brincadeira que alguém fez, certa vez, sobre segurança de dados. A pessoa dizia que uma das formas mais seguras de esconder um texto, não seria protegendo-o com senha ou criptografia, mas sim postá-lo, publicamente, no meio de um textão de Facebook.

Obviamente, estamos muito mais próximos do pesadelo imaginado por Huxley.

Vale ressaltar, que Will Schoder também lembra os pontos positivos destes produtos e serviços desenvolvidos pelas mesmas pessoas que criam esses mecanismos para prender nossa atenção: avaliações de lojas, mapas digitais que nos ajudam a chegar facilmente em nosso destino, podemos descobrir novas opiniões, novos filmes, séries e bandas. Muitas pessoas ganharam voz e conseguiram expressar livremente sua opinião, fazer denúncias etc. Comunicação em tempo real com parentes e amigos que estão do outro lado do mundo. Mas finaliza deixando claro que, mesmo as mais avançadas ferramentas de comunicação não substituem o contato presencial com as pessoas.

Ao final, o autor do vídeo faz um questionamento e lança três hipóteses sobre para onde iremos, a partir daqui: 1) Os engenheiros da atenção continuarão explorando a inconsciência humana, em um loop de aumento de receita de poder; ou 2) Passarão para uma abordagem mais humanizada, enraizada em substância, respeito, te tratando como um ser humano e não como uma fonte de renda. Que vê que seu tempo é valioso e o ajuda a ficar focado quando você quer fazer isso. Neste ponto do vídeo, é mostrada uma ilustração, imaginando como seria se essas empresas optassem pela segunda hipótese:

Abordagem mais humana das redes sociais: “você pode pausar seu Snapstreak enquanto você estiver de férias”, “você pode reter suas mensagens até às 5 da tarde, exceto em caso de emergência”, “você pode desligar seu Feed de Notícias hoje” e “você pode configurar um tempo máximo para assistir vídeos este fim de semana”.

Já a terceira hipótese, seriam as pessoas como ele, que dão o seu melhor na luta contra a “diversão fácil”; que leem a notícia além da manchete; que leem jornalismo de formato longo (reportagens, matérias mais extensas); e leem diversas áreas de estudo. Desta forma, pessoas com esse perfil não se tornam presas fáceis para a “Economia da Atenção”, que capitaliza em cima de pessoas desinformadas, que se emocionam facilmente, sendo sugadas através dos seus instintos mais primitivos.

Nesse ponto, devo dizer que, realmente, me identifiquei bastante com Will Schoder, nessa conscientização e por, ao menos, tentar fazer um uso mais moderado e consciente destas ferramentas. Também acho interessante a ideia de fazer leituras de livros de diversas áreas. Porém, neste último ponto, não faço isso com a intenção de “evitar ser enganado”, mas sim por interesse em diversas áreas do conhecimento.

Tecnologicamente falando, acho sensacional o recurso do Facebook (e outros serviços) que gera uma prévia quando colamos um link. De outra banda, temos o efeito negativo: as pessoas não leem o artigo ou notícia para o qual este link leva, mas apenas observam a figura e o título da notícia. Isso gera outra grave consequência: sabendo que as pessoas costumam ler apenas a manchete, os produtores de conteúdo acabam elaborando títulos e cabeçalhos que geram muitos compartilhamentos e/ou enorme curiosidade do leitor para clicar e ver o artigo completo. Na maioria das vezes, a manchete acaba ludibriando o leitor, não refletindo o que é tratado no artigo ou notícia, é a famosa isca para obter visualizações, conhecida como clickbait.

Muitas pessoas que enviam esses links, não leem nada além da manchete. E, muitas vezes, quando você, de boa-fé, se dispõe a ler o texto inteiro, constata que era mais um clickbait. Neste ponto, tento sempre notar se a pessoa comentou algo que dê a entender que ela leu na íntegra, caso contrário, não clico.

A respeito do jornalismo de formato longo, é algo que me atrai muito. Mas confesso que conheço poucos veículos que o fazem no Brasil. E também que este tipo de material demanda bastante tempo de leitura. Mas coloco aqui uma outra opção, que não foi tratada no vídeo: assinatura de jornais, seja na forma impressa ou digital. Logo vem aquele questionamento: “Mas você vai pagar para ler jornal? Para quê? Já está tudo na internet!”. Coloco aqui duas questões, curadoria e qualidade.

Quando abordamos esse assunto, podemos ver, de longe, o truísmo que vem a seguir: “Basta saber filtrar a informação”. Tal máxima é repetida como um mantra, mas sabemos que não é algo fácil. Em que se pese o viés que cada jornal possui, os maiores possuem estrutura e experiência de várias décadas. Sua formatação, geralmente traz uma gama de informações variadas, diferente da primeira página dos portais (inclusive dos sites dos próprios jornais), que acabam por saturar certos assuntos.

Além dessa curadoria, temos a questão da qualidade. Não raro, quando pesquisamos algo no Google, nos deparamos com algum jornal e, ao clicar no link, o acesso nos é negado e temos uma mensagem que diz que aquele conteúdo é exclusivo para assinantes (há também a situação daqueles jornais que nos permitem ler 5 ou 10 notícias por mês). Geralmente, estes artigos exclusivos possuem maior qualidade e profissionais melhor qualificados. Nas colunas, temos uma pluralidade de opiniões e temas tratados de forma mais detida e menos sensacionalista.

Trata-se de um investimento que não é barato, mas acredito que valha a pena ao menos experimentar por um mês ou dois. Há também a aversão de pagar por “coisas da internet”, que muitas pessoas possuem, mas isso fica para outro post. De qualquer forma, vale lembrar: ainda que assinemos um jornal, ainda temos a possibilidade de checar a informação em outras fontes, outros jornais disponíveis na internet.

Chegando ao final deste texto enorme, gostaria de tratar o termo “Economia da Atenção” de uma forma que, talvez, fuja de seu sentido cunhado originalmente e também do sentido abordado no vídeo de Will Schoder. Também encaro como “Economia da Atenção” a nossa própria postura frente a tudo isso que nos é empurrado. Não pretendo ser um “guru de costumes”, cada um faz o que quiser, mas tenho a consciência de que minhas reações e interações reforçam ou desencorajam certas práticas.

Me recordo que, no passado, era um tanto inconveniente no envio excessivo de e-mails para listas de amigos. Quando surgiram as redes sociais, parei de enviar tais e-mails e informei “quem quiser acompanhar minhas dicas de sites e afins, observe minhas postagens nas redes sociais”.

Costumo apoiar e encorajar pessoas que fazem postagens “autorais”. Ou seja: vou interagir e apoiar quando alguém escrever expressando aquilo que pensa, mas não incentivarei da mesma forma quem apenas fica compartilhando coisas de terceiros à esmo, sem dar sua opinião a respeito, sem contextualizar.

Outro exemplo é o Youtube, que possui muitos vídeos péssimos com alta popularidade. Não faz sentido dar visualizações para conteúdos que execramos. Para o produtor de conteúdo desse tipo de canal, não importa se gostamos ou não de seu vídeo, se damos like ou dislike. O que importa para ele é a contagem de visualizações. Esta é como o ingresso de cinema: uma vez que você pagou por ele, pouco importa se você assistiu o filme todo, se gostou ou não, o dinheiro já foi contabilizado na bilheteria e, caso o faturamento seja alto, provavelmente terá uma continuação.

Com isso, finalizo dizendo que seu tempo e atenção são valiosos, são verdadeiras moedas de troca. Pense bem sobre aquilo que você fomenta ao gastá-los por aí.

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