Empático eu poderei olhar através dos seus olhos

Hardcore Henry (2016)

Eu nunca vi através das suas lentes, amigo
E vou quebrar se não me dobrar
É muito tarde para fazer correções?
Não!

Música “Empathy” (Shelter)


— Em primeiro lugar, Scout — ele disse — , se aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo o tipo de gente. Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto de vista dela.
— É?
— Precisa se colocar no lugar dela e dar umas voltas.

Diálogo do livro O Sol é para todos (Harper Lee), no qual o advogado Atticus Finch explica à sua filha, Scout, o conceito de empatia.


*Pode conter SPOILERS (Lembrando que o filme já está disponível no serviço Netflix)

Desde que vi o clipe “Bad Motherfucker” da banda Biting Elbows, do mesmo diretor, fiquei impressionado:

Logo em seguida, fiquei sabendo que fez tanto sucesso que resultaria em um longa metragem no mesmo estilo. E, mais recentemente (após o lançamento do filme), fizeram a propaganda da Nissan para as Olimpíadas Rio 2016:

Achei interessante mas, ao assistir o filme, na hora lembrei dela! Bem provável que tenha inspiração no filme, pois, além de ser filmada em primeira pessoa, também conta com a música “Don’t Stop Me Now” do Queen, que está numa cena de Hardcore Henry.

Temia que o filme inteiro não passasse de um “clipe estendido”. Algo que, talvez, só não tenha ocorrido por conta da participação de Sharlto Copley (Distrito 9), que fez inveja a Eddie Murphy, assumindo vários “papéis”. Muito interessante e inteligente, ao mesmo tempo, esse recurso dos avatares: conseguiram entregar diversas atuações usando apenas um ator.

O filme tem uma boa duração, não é cansativo (grande motivo disso são as constantes cenas de ação e perseguição). No começo, certos movimentos de câmera incomodam um pouco, mas consegui assistir numa boa. Fica o alerta para pessoas que tem problemas com “motion sickness” (cinetose).

O filme realiza o desejo de muitos fãs de jogos de tiro em primeira pessoa, de ver um longa nesta perspectiva, algo que o filme Doom deu uma pequena amostra (de apenas 5 minutos) há 11 anos atrás. Além dos tiroteios, há também parkour e lutas corpo a corpo, o que nos remete ao inovador “Mirror’s Edge” (2008). Vale também uma menção honrosa ao humor negro e a estética de FarCry 3: Blood Dragon.

Outro recurso interessante e astuto é o fato do protagonista Henry não falar. Algo que remete também aos jogos de Tiro em Primeira Pessoa, “First Person Shooter” (FPS), em especial, o personagem Gordon Freeman da franquia Half-Life (no jogo, muitos personagens brincam com o fato de Gordon não falar, criando verdadeiros monólogos seguidos de colocações como: “Gordon Freeman, um homem de poucas palavras”).

Tecnicamente falando, senti apenas a ausência de simulação de visão periférica, algo que muitos jogos já costumam fazer, usando efeitos de “blur”. Mas, olhando no IMDB e vendo que o filme tem apenas US$ 2.000.000 de orçamento declarado, já impressiona o que conseguiram executar com tão pouco dinheiro.

Em suma, Hardcore Henry não é um filme espetacular, mas está longe de ser ruim, traz uma certa dose de criatividade para economizar no orçamento mas, principalmente, inova no uso dessa perspectiva em primeira pessoa (Fica agora a curiosidade de ver o making of). Sendo esta uma boa experimentação que pode vir a ser ainda mais explorada no futuro. E, embora as câmeras GoPro já possuírem um certo histórico de uso no Youtube, alguns filmes e séries, Hardcore Henry nos remete um pouco a Steadicam, utilizada pela primeira vez há 40 anos atrás em Rocky (1976), criada para estabilizar imagens memoráveis que hoje fazem parte da história do Cinema.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated FrankCastle’s story.