FGTS: solução para a crise?

E o que você não poderá comprar com ele

No texto a seguir discorro sobre o que podemos esperar das novas regras para o saque do FGTS, seus aspectos positivos e negativos e o impacto em nossa Economia. Crescimento é igual a Desenvolvimento? O que podemos e o que não podemos comprar com o dinheiro sacado? Nossas políticas econômicas estão no rumo certo para uma solidez ou trata-se apenas de algo que visa atender interesses momentâneos de determinados grupos?

Recentemente, o governo liberou o saque das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Antes da medida, as possibilidades para que o trabalhador tivesse acesso a este benefício eram bem limitadas como, por exemplo, a demissão sem justa causa.

Apesar de o dinheiro pertencer ao trabalhador, ele ficava bloqueado, em uma conta na qual poderia apenas obter o extrato online ou pela via postal (aquelas cartas cinzas da Caixa). Seu rendimento é baixíssimo, muito aquém da Poupança, que já não possui um bom rendimento.

Por conta disso, sofreu muitas críticas. É fato de que o dinheiro fica “parado” nesta conta bloqueada e desvaloriza em relação à inflação, se comparado com qualquer investimento moderado, como Renda Fixa e até mesmo, a modesta Poupança.

É como se o Governo agisse como uma “mãe” que deixa o pote de biscoitos no alto do armário, para que seu pequeno filho não coma tudo de uma vez ou antes do almoço.

Para pessoas que possuem uma educação financeira, mesmo básica, tal bloqueio limitava sua capacidade de investir o dinheiro do FGTS numa opção mais rentável.

Por outro lado, não é incomum ver casos de pessoas menos instruídas que conseguiram adquirir ou dar a entrada em sua casa própria somente por conta do saldo pomposo, acumulado ao longo de anos ou décadas.

1) Medida positiva ou negativa?

A primeira questão que fica no ar: com a liberação do saque das contas inativas será que, no geral, as pessoas menos instruídas farão bom uso com estes valores? [este que vos escreve, espera que sim]. Ou será que irão torrá-lo em dois tempos e se afundar em dívidas?

Verdade seja dita, para consumidores impulsivos e compulsivos, o FGTS [o pote de biscoitos no alto do armário] é o último bastião de reservas financeiras e que ainda não foi gasto por pura falta de oportunidade [acesso ao saque].

2) Economia impulsionada pelo consumo

Quando tratamos sobre a difícil situação em que nosso país se encontra, é repetido [como um mantra] o aspecto da Economia como fator preponderante.

O que notamos com essa medida do Governo é que, quando a situação aperta, ele se torna mais liberal, dando este acesso aos trabalhadores ao saque do FGTS, mas não com intenção de agraciá-los, mas sim para que os próprios trabalhadores venham em seu socorro [o que demonstra a própria incompetência da Administração Pública].

É inegável que o consumo seja uma das maneiras de impulsionar a Economia, porém ele não é o único. Existe também a questão da produção e exportação de produtos [e com este tópico, faço o gancho para o terceiro].

3) Economia: Crescimento x Desenvolvimento de um País

Aproveito para retomar algumas anotações das aulas de Economia que tive no primeiro período:

Necessidades humanas → Ilimitadas [entenda-se “necessidades” por “desejos”]
Recursos Produtivos → limitados
Diante da escassez → Escolha:
 • O que produzir?
 • Como produzir?
 • Quanto produzir?
 • Para quem produzir?

A primeira e a última pergunta, nos remete a dois pontos:

Para quem produzir: além de impulsionar a Economia através de consumo de produtos, sejam eles nacionais ou não, outra forma é a sua exportação.

O que produzir: mas o que iremos produzir para ser exportado? Somos conhecidos pela agropecuária e mineração, as commodities, matéria-prima para a produção de outros produtos.

O que acontece, na prática: exportamos minério, matéria-prima de baixa complexidade e, depois, importamos os produtos de alto valor agregado pela tecnologia empregada em sua produção, smartphones, só para dar um exemplo bem claro.

Conclusão

Entendo que Crescimento é diferente de Desenvolvimento. Quando este último ocorre, o Crescimento é uma consequência. São os parâmetros importantes para se medir o grau de Desenvolvimento de um país:

  • Saneamento básico que, por si só, (quando existe) reduz drasticamente as taxas de doenças e mortalidade infantil [de nada adianta um iPhone na mão, enquanto o pé continuar pisando no esgoto a céu aberto]
  • Nível de fome e miséria (é necessário um mínimo existencial)
  • Educação (nível de alfabetização e graduação de níveis técnico e superior)
  • Desenvolvimento sustentável
  • Proteção do Meio Ambiente (lembrando que este não se resume à “floresta”, inclui também a “selva de concreto” onde você vive)
  • Qualidade de Vida

Uma vez que existam condições mínimas de sobrevivência e vivência, investimento [e, principalmente, incentivo] na educação e fomento à Ciência e Tecnologia, o Brasil deverá produzir conteúdo de alto valor agregado, como patentes e, consequentemente, a Economia irá Crescer.

O modelo baseado apenas em consumo, esgota-se nele mesmo. Quando acabar o dinheiro do povo para ficar “injetando” na Economia, o que restará? Provavelmente seremos reféns novamente das commodities e oscilações da economia mundial.

Dinheiro pode comprar muita coisa: carros, smartphones e roupas de grife. Mas não compra respeito [este não se compra, se faz por merecer], nem conhecimento [este não se “transfere”, não se “baixa”, muito menos se compra numa “gôndola”, deve ser construído].

Da mesma forma que um país não se Desenvolve apenas com Crescimento [àquele, Desenvolvimento, gera este, Crescimento], a Cidadania não se forma apenas a partir do Consumo, ainda que àquela englobe este [todo Cidadão pode ser um Consumidor, mas nem todo Consumidor é um Cidadão].