LEGO Effect

Halo: Broken Circle (John Shirley)

Halo: Broken Circle foge do formato de trilogias e da onipresença de Master Chief / UNSC para nos mostrar o conflito entre duas raças, a aliança que deu origem ao Covenant, intrigas políticas e elos perdidos durante milênios.

INTRODUÇÃO:

Minha história com a franquia Halo, começa em Janeiro de 2006, quando comprei a versão de PC de Halo: Combat Evolved. Antes disso, me recordo de ter visto algo deste jogo ou de sua sequência, Halo 2, no saudoso G4 Brasil. Após a instalação do jogo, achei o visual dos inimigos um tanto caricato, em compensação o protagonista, Master Chief, remetia aquele visual de cyborg que tanto gosto.

Porém, por questões técnicas e de má programação, o jogo era excessivamente pesado para o meu PC que não rodava bem (depois de adquirir os direitos do jogo, a Microsoft deixou de lado o projeto para PC, que acabou sendo um port e dedicou-se ao console Xbox). O jogo ficou encostado por um ano, até que um amigo ficou curioso para ver como era e, ao instalar novamente, descobrimos o modo multiplayer…

Além de rodar perfeitamente, tal modo de jogo se mostrou extremamente divertido. Passado mais algum tempo, um outro amigo emprestou uma placa de vídeo e pude desfrutar da campanha com gráficos e desempenho melhores, ao consultar o manual do jogo, em português (sim, antes os jogos viam com manuais impressos) gostei muito da ambientação e da história…

Depois de ler uma HQ e assistir a vários curta-metragens animados e live-action, me deparei com Halo: Broken Circle. Confesso que cheguei nesse livro mais por falta de opção: infelizmente, temos apenas 4 romances lançados no Brasil e não consta aquele que tenho mais interesse: The Fall of Reach.

Fiquei com receio de que Halo: Broken Circle fosse apenas um livro genérico, mas depois de já ter comprado o ebook numa promoção, olhei melhor e vi quem era o autor: John Shirley! Importante nome da literatura cyberpunk, presente no início do movimento, figurando ao lado de nomes como William Gibson e Bruce Sterling. Também escreveu Bioshock: Rapture. A partir disso, fiquei mais empolgado para ler.

Desde a leitura do manual de Halo: Combat Evolved e da jogatina dos jogos da série, reparei no aspecto religioso dos Prophets e como isso poderia, talvez, ser alguma metáfora para representar o exército americano como a UNSC e terroristas do Oriente Médio como o Covenant. Achei que estava viajando muito.

Entretanto, mais recentemente, com um conhecimento um pouco maior de inglês, comecei a notar certos detalhes que, supostamente, fazem um paralelo com relatos bíblicos, abrindo margem para referências bem interessantes: Flood [Dilúvio], Ark [Arca… de Noé]. Sempre mantive para mim esses pensamentos, mas comecei a pesquisar e vi que existem discussões a respeito.

RESENHA:

Halo: Broken Circle tem sua história diretamente ligada aos aspectos religiosos. Somos apresentados a duas raças: Sangheili e San’Shyuum. Nos jogos, essas raças são conhecidas como Elites e Prophets, respectivamente. Seria a pronúncia na língua dos humanos, em inglês. Como o livro traz o ponto de vista dessas raças, traz essas nomenclaturas diferentes. Apesar de ser algo bem difícil de se habituar (li o livro inteiro sem padronizar uma fonética para elas), acho interessante. Minha dica é tentar uma pronúncia baseada no inglês, por exemplo: “sã-reili” para “Sangueili”.

Ambas raças idolatram os Forerunners e todas as construções e relíquias que deixaram. Eles acreditam que os precursores partiram numa Grande Jornada, através de sete Anéis (Halos). Sangheili e San’Shyuum foram inimigos durante muito tempo, até que surgiu uma Aliança, formando o que conhecemos como Covenant. Muitos Sangheili se recusam, alegando que não seria uma aliança, mas sim uma submissão aos San’Shyuum. Com isso, temos uma vertente rebelde liderada por Ussa ‘Xellus.

Mesmo dentre os San’Shyuum, houve também uma cisão entre Estoicos e Reformistas. Os primeiros acreditavam que deveriam ficar em sua terra natal, Janjur Qom. Os outros partiram em direção às estrelas, utilizando uma nave Forerunner (Dreadnought), levando consigo uma parte do planeta, formando High Charity. Os Reformistas saíram em busca de relíquias Forerunner que indicassem o caminho para a Grande Jornada, esperavam juntar-se aos seus deuses.

E quanto aos humanos? Esqueça-os! São, no máximo, citados. Master Chief é referenciado brevemente como “O Demônio”. De memória, acredito que Halo: Broken Circle explore os bastidores do que foi mostrado em Halo 2 e Halo 3: ODST. Considero o segundo jogo da franquia possui o melhor enredo dentre todos, por mostrar um personagem muito mais carismático e profundo: O Árbitro, da raça Sangheili ou Elite.

Seguindo o tom de Halo 2, este livro traz o ponto de vista de raças que costumamos enfrentar nos jogos, algo que nos remete a dobradinha de filmes Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra, ambos dirigidos por Clint Eastwood. Existem duas linhas temporais distantes que dividem o livro em duas partes. Não vou revelar detalhes, mas existem muitas tramas políticas, traições e dissidências. E Broken Circle, o que seria? Também não falarei sobre, mas posso adiantar que é o ponto de convergência da trama, quem jogou Halo sabe que as relíquias e construções Forerunner que dão liga à história.

Dentro dos capítulos, de forma semelhante ao que ocorre nas HQs, somos apresentados à: A Era da Reconciliação (850 AEC), A Era da Recuperação (2552 EC), A Era da Reclamação (2553 EC) e até mesmo Uma Era Ainda Não Nomeada (2553 EC), como se fosse uma brincadeira com a própria linguagem e narrativa do livro. Observação: o que tem de diferentes significados atribuídos a estas siglas internet afora, não é brincadeira! Vou considerar aqui “EC” como “Era Comum”, o “A” seria “Antes”.

Temos algumas peculiaridades, como o problema genético enfrentado pelos San’Shyuum, que me fez lembrar do filme francês Rios Vermelhos, por conta da Endogamia [casamento entre pessoas da mesma família]. Algo que acaba resultando em soluções polêmicas, como a Eugenia retratada pelo Rol dos Celibatos. Tal fato explica a fragilidade dos seus corpos e a necessidade do uso de cadeiras e cintos antigravitacionais. Isso também traz uma boa especulação sobre a colonização espacial, como a gravidade reduzida ou ausente pode contribuir negativamente para nossa constituição física.

Os Sangheili também possuem características interessantes, como cada um deles possuir dois corações (algo que é retratado tanto de forma física, em cenas violentas, quanto de forma poética). O que não dizer do equivalente a “bater palmas”, que fazem com as mandíbulas? Também gostei muito de um elemento cultural deles, que é a floatfight: uma espécie de “Cúpula do Trovão” em gravidade zero (imagine poças de sangue… no ar!).

Gostaria também de contar uma experiência interessante que tive durante a leitura, o que chamo de “LEGO Effect” (ou “Efeito LEGO”). Basicamente, consiste no seguinte: fazer a leitura de um livro depois de já ter assistido alguma adaptação para o Cinema. Isso ocorreu pela primeira vez com Blade Runner (Ridley Scott) e Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (Philip K. Dick). Chamo de “LEGO Effect” porque peguei elementos visuais conhecidos e “construí” com eles uma cena totalmente diferente. Aliás, esse lance de LEGO, de certa forma, tem uma certa relação com a história… ;-)

Neste caso, sei que o livro é uma adaptação do jogo, mas a ideia é a mesma: em diversos momentos são citados objetos, armas e raças existentes nos jogos, o que tornou os momentos de ação extremamente empolgantes. Por falar em ação, o livro traz uma dose de tensão e violência sem precedentes. As descrições dos combates e tortura são bem explícitos, esteja avisado! Aliás, nestes trechos você irá reconhecer as raças dos jogos mesmo que não se lembre dos nomes, basta prestar atenção na cor do sangue!

Em suma, Halo: Broken Circle traz uma ótima história que, provavelmente, agradará fãs do jogo e tem grande potencial para cair no gosto de leitores de ficção científica. Também dá ensejo para a produção de um novo jogo com o mesmo espírito de Halo 2, mas dando um passo a mais: desapegando e descartando Master Chief e a UNSC, para que possamos controlar e conhecer melhor outros personagens e raças. Falta apenas coragem por parte da Microsoft que, desde Halo 4, fez com que a história da franquia, dentro dos jogos, perdesse o rumo.

Sobre a edição brasileiro para Kindle, está muito boa, apesar de alguns (poucos) erros em algumas partes, basicamente, duas palavras grudadas aparecendo. Nada que impeça a leitura.

Após uma furiosa batalha, o planeta Colheita foi submetido a um bombardeio de plasma e vitrificado, não antes que muitos humanos pudessem escapar.

Quanto à tradução, existe um problema complicado de se contornar: o que traduzir e o que manter? No exemplo acima, “Colheita” seria a colônia “Harvest”. Em outra passagem, “Alcance” seria “Reach”. Acho que poderiam manter estes nomes em inglês até mesmo para facilitar as referências presentes dos games, inclusive em seus títulos (Halo Reach). Mas falando da tradução do livro, de maneira geral, não tenho do que reclamar, pelo contrário: só tenho a agradecer por disponibilizarem esta obra por aqui. Que venham mais e, quem sabe, The Fall of Reach!

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