Quando o Messias vier nos salvar de nós mesmos, quem O salvará?

O Homem que caiu na Terra (Walter Tevis)

FrankCastle
Jan 10, 2017 · 6 min read
capa da edição brasileira lançada pela Darkside

Thomas Jerome Newton é o nome adotado pelo visitante do espaço ao chegar à Terra. Para sua empreitada, treinou corpo e mente durante muitos anos, recebendo as informações, basicamente, através das transmissões de TV da Terra.

Ainda que os antheanos possuam maior inteligência e tecnologia mais avançada, devido a escassez de recursos naturais, tudo o que conseguem é o envio de apenas uma nave, com uma pessoa para a Terra, com combustível suficiente apenas para viagem de ida.

Newton tem o desafio de levantar tanto o capital financeiro quanto humano, para levar a cabo o projeto de construir uma nave espacial capaz de fazer uma viagem de ida e volta para Anthea, a fim de resgatar os últimos habitantes e salvar sua raça da extinção. Para tanto, irá utilizar seu conhecimento para criar patentes de tecnologia avançada para diversos setores. Tudo isso sem deixar, em momento algum, que a sua verdadeira identidade seja revelada.

***

Não me recordo, quando e como tomei conhecimento desta obra. Mas uma coisa é certa: foi a primeira vez que um livro da Darkside me chamou mais atenção pelo conteúdo do que pela forma.

Para quem não sabe, a editora é conhecida por dar atenção especial à apresentação de seus livros: capa dura, texturas, belas ilustrações, marcador de páginas em tecido/estilizado etc. Contudo, o catálogo composto, basicamente, por novelizações e livros dos quais já havia assistido as respectivas adaptações para o cinema não me atraía muito.

Tudo mudou quando li sinopse de um livro de ficção científica que, apesar de contar com adaptação para o cinema, nem mesmo sabia da existência de ambos. Fiquei ainda mais intrigado com os comentários de que o protagonista carregava grandes semelhanças com David Bowie fazendo, inclusive, que sua escolha para o papel principal caísse como uma luva.

o motorista era muito bom, foi escolhido por sua suavidade, sua habilidade de manter uma velocidade constante e por evitar movimentos bruscos.

Em outro capítulo, Newton se queixa dos solavancos: ele possui uma constituição física bem frágil, devido a baixa gravidade de seu planeta natal. É bem legal o tato que o autor possui para estes pequenos detalhes, que são pontuados ao longo da trama. Isso me faz lembrar do transporte público, mais especificamente dos ônibus.

Quem os utiliza sabe do problema dos solavancos causados pela aceleração e desaceleração repentinos (até mesmo o risco de se machucar por conta disso). Claro que há um conflito entre o conforto/segurança versus a velocidade que proporciona o menor tempo de chegada ao destino/compromisso.

Ao menos quando há uma gestante ou pessoa com criança de colo, costuma-se permanecer com o ônibus parado no ponto, até o momento em que a pessoa chega ao assento em segurança. A condição de Newton nos convida a um exercício de empatia, mostrando que algo banal para nós e para maioria das pessoas pode ser mais difícil e doloroso para outras.

[…] hoje em dia, desde a época em que grande mudança de nomenclatura transformou todos os vendedores em representantes de campo e todos os faxineiros em zeladores. Essa mudança demorou um pouco mais para alcançar as universidades, mas o tempo chegou e hoje em dia não há mais secretárias, apenas assistentes e auxiliares administrativos; não existem mais chefes, apenas coordenadores.

Há mais de 50 anos, Walter Tevis já alfinetava o uso de eufemismos e o que viria a ser a chegada do Raio Gourmetizador.

O homem que caiu na Terra traz uma perspectiva um pouco diferente da que estamos habituados: o ponto de vista de um extraterreno visitando um mundo que já conhecemos, tentando assimilar nossa cultura.

Será que Newton estava procurando uma razão ─ procurando qualquer razão que fosse que desse a um homem são em um mundo insano uma razão para não estar bêbado pela manhã?

Em determinados momentos, o autor parece usar Newton para questionar sobre a natureza humana, vícios, solidão, crise existencial etc. E, de maneira metafórica, como nós, humanos, usamos máscaras no convívio social, seja por necessidade ou conveniência. Mas chega uma hora em que precisamos encarar nós mesmos. Quando essa hora chegar, será que seremos capazes de reconhecer a imagem no espelho?

Ele gostava dos felinos grandes e insolentes, em especial as panteras; ela gostava dos pássaros, principalmente os de cores fortes. Ele ficou agradecido e feliz que ela se importava tão pouco com os macacos quanto ele ─ que achava que eram criaturinhas obscenas ─, porque teria ficado decepcionado se ela, como muitas mulheres, os achasse bonitinhos e engraçados. Ele nunca tinha visto graça nenhuma em macacos. […] Viram os outros peixes, mas não houve nenhum de que gostaram mais do que o velho bagre.

De maneira sutil, o autor traz algumas metáforas que nos convida à reflexão. Da mesma maneira que desdenhamos criaturas menos evoluídas, como os macacos, será que não estaríamos neste mesmo patamar aos olhos de uma raça alienígena mais avançada? E a preferência por algo fora dos moldes, fora dos padrões estabelecidos.

Claramente, a obra aprofunda-se nas questões de cunho psicológico, mas temos algumas pinceladas sobre astronomia e também interessantes descrições acerca dos produtos resultantes das patentes criadas por Newton. A exemplo de um filme para câmera fotográfica, que se revela automaticamente, dentro de seu próprio cilindro.

Tal invento, desperta atenção de um engenheiro químico, que fica intrigado com a tecnologia utilizada e inicia uma busca obstinada pelo seu criador, enquanto presencia o lançamento de outros produtos: TVs 3-D, álbuns musicais armazenados em esferas metálicas etc.

foi ao refrigerador e pegou um pouco de gelo da cesta. Por uma das poucas vezes em sua vida ele se sentiu grato pela tecnologia avançada; graças a Deus, não precisava mais lutar com o gelo emperrado em bandejas.

O livro foi escrito em 1963. Estou em 2017 e continuo tendo exatamente o mesmo problema! Brasil: país futuro, ou talvez eu seja apenas pobre demais para ter um refrigerador mais avançado :-)

O homem que caiu na Terra, escrito em plena Guerra Fria, traz uma reflexão sobre o universo individual, no âmbito psicológico, mas também na esfera coletiva, alertando sobre o uso de armas de destruição em massa e o esgotamento dos recursos naturais, por mais abundantes que sejam, um dia chegaremos (ou já chegamos?!) a um ponto sem retorno.

A humanidade precisa de um salvador? Ainda que necessite (será que ela quer um?), merece ser salva ou ser deixada à própria sorte, mesmo sob o risco da extinção, para que possa aprender com seus próprios erros e evoluir?

Ficha Técnica:

Título: O homem que caiu na Terra
Autor: Walter Tevis
Tradução: Taissa Reis
Edição: 1ª
Editora: Darkside
Título original: The Man Who Fell to Earth
Ano: 2016
ISBN: 978–85–9454–005–8

Ouvindo:

Abaixo, algumas fotos do livro, mostrando que Darkside, realmente, capricha no aspecto físico de suas edições:

Ver mais… Textão!

Menos Mouse, Mais Teclado: Ensaios e Resenhas com mais de 4 linhas e acima de 140 caracteres. *Descobri o recurso “Publications” no Medium recentemente, preciso linkar algumas histórias. Mas vai ficar mais ou menos assim mesmo.

FrankCastle

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