De cabelo curtinho

Cortei o cabelo recentemente. Precisava, não só porque tenho uma mania incessante de mudar — não sou do tipo que gosta de mesmice — mas também porque me encaixo no perfil de mulher moderna. É fato, não tenho muito tempo para cuidar de cabelo, porém, não aceito sair de casa desarrumada, padrão meu, depois de muitos anos de insegurança na autoestima. Enfim, passei a tesoura e há dias desfruto da facilidade que é ter um cabelo pixie.

Em meio aos elogios que recebi, uma pergunta me fez ficar confusa. Eis ela: “E o seu namorado deixou você fazer isso com o seu cabelo? ”. Fiquei perplexa. Não me entendam mal, mas estamos em pleno século XXI e me aparece um ser humano com uma pergunta dessas? Mas o que mais me espantou foi a reação a minha simples e, para mim, natural resposta, “Ele não tem que deixar, afinal o cabelo é meu e a escolha é minha, não é? ”.

O olhar assustado daquele que fez a pergunta me fez lembrar do meu assumido feminismo e que a realidade é essa. Muitos ainda acham que nós mulheres temos que reportar ou pedir aprovação para aquilo que vamos fazer, aprovação masculina, diga-se de passagem. Tratava-se também de um olhar de censura, de quem achava que eu estava pecando contra o meu namorado, que estava sendo egoísta por não levar em conta a sua opinião ou por não pensar em agradá-lo. A minha opinião que fosse às favas, o meu bem-estar e a minha escolha que ficassem em segundo plano.

Por acaso, o dia em que desfilei pela primeira vez meu corte novo — e recebi a tal pergunta — foi o dia em que a revista Veja publicou sua matéria sobre a possível nova primeira-dama, Marcela Temer. Moça bonita, no alto de sua juventude, classificada, segundo a reportagem, como “bela, recatada e do lar”. Em suma, tratava-se de um texto enaltecendo as qualidades de Marcela como mulher que cuidava do marido, do filho e de sua casa. Uma verdadeira mulher do lar, alguém que escolheu viver para o seu esposo.

Analisando a matéria como um todo, uma produção bem anos 50, onde os valores da mulher da casa eram grandes atributos, percebi que não devia ter me espantado tanto ao ser questionada sobre meu cabelo, afinal Temer é “um homem de sorte”, pois sua esposa escolheu viver à sua sombra e cuidar dele em detrimento de si.

Antes do julgamento de que estou sendo hipócrita como feminista que defende o direito de escolha da mulher, já venho dizer que não estou condenando a escolha de Marcela, mesmo que “viver à sombra” pareça uma crítica. Ela tem total direito de optar por ser uma mulher tradicional, do lar e que se dedica a cuidar integralmente dos filhos e marido. Posso até dizer que a admiro, pois essa não é mais uma das grandes escolhas de nós mulheres e acho que não deve ser lá tão fácil como muitos julgam. Marcela é feliz com sua opção de vida e deve continuar sendo, não tem motivo para o contrário. A grande questão é: somente mulheres que fazem jus ao ditado “atrás de um grande homem vive uma grande mulher” é que possuem valor? Quer dizer que eu sou cruel e sem coração por colocar a minha felicidade e as minhas escolhas em primeiro lugar ao invés das do meu parceiro?

Não é de hoje que venho notando que as pessoas ainda não se acostumaram com mulheres fazendo suas próprias escolhas. Não querer ter filhos, não querer casar, focar 100% na carreira profissional ainda são motivos de julgamentos e de grandes discussões, seja entre amigos, pelas redes sociais ou no almoço de domingo com a família. Mulher que não é casada é “sapata” (o que não faz nenhum sentido, visto que mulheres homossexuais se casam e vivem felizes obrigada!), mulher que não quer ter filho não é mulher de verdade, e assim seguem os rótulos.

O problema não é ser apenas rotulada ou julgada, lidamos com isso desde que me lembro. O problema é quando a política resolve permear nossas escolhas e reduzi-las àquilo que o patriarcado e a família tradicional brasileira determinam. Veja-se pela criação da nova comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, que não pretende abordar nenhuma das pautas de discussão feminina como direitos reprodutivos, o aborto, igualdade de salários e outras tantas que buscamos e trabalhamos constantemente. Ou seja, criada para que?

O empoderamento feminino assusta, causa desconforto e a fúria de quem quer que a sociedade continue sendo construída com bases patriarcais. Nós feministas somos o alvo, descendentes das bruxas da inquisição. Nós não somos “mulheres de verdade”, somos as mal-amadas, gordas, feias e peludas. O velho discurso de quem prefere ofender a dar ouvidos. Enquanto isso, a escolha diante de meu corpo ainda está nas mãos de quem governa, de quem coloca a religião à frente do Estado laico, majoritariamente homens que não me representam e que reforçam o preconceito, o julgamento e impedem minhas escolhas de vida.

Uma coisa é certa, continuaremos lutando. É utópico pensar que chegaremos a uma sociedade onde o machismo e o patriarcado não estarão presentes, mas iremos permanecer tentando e até lá, meu corpo, minhas regras, meus pelos e minhas escolhas. E não há quem me impeça de ser bela, recatada e dona da minha vida! Ah, e com meu cabelo pixie…

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