Pai Brasil

Encontro-me diante de uma encruzilhada e não sei para que lado vou. Sinto que esta ou aquela escolha pode ser errada. Chamo o Pai Brasil para me dar um corretivo, para falar grosso, para na sova me pôr nos eixos.

A liberdade me assusta e confunde e basta que ela me dê chance de um deslize para eu pedir:

— Pai Brasil, vem me dar pôr na linha.

Nos almoços de Domingo reina a nostalgia. Bons tempos aquele em que Pai Brasil não se escondia. Dava porrada à luz do dia, sol à pino, sob aplausos.

E quando sou eu que Pai Brasil esbofeteia, penso como boa filha:

“Mereci.”

Penso como boa filha:

“Não morri.”

Penso como boa filha:

“O que não mata engorda, que mal tem? Vai ver faz até bem.”

Pai Brasil está na cabeceira da mesa.

Pai Brasil pede silêncio quando chega em casa.

Pai Brasil dá ordem a pedidos.

— Me dá ordem, me manda, Pai Brasil.

Bate seu cetro no chão, e ai de quem der um pio.

Se o corpo tá fluido, a gente quer que ele informe. Se a voz tá melíflua, a gente quer que ele engesse. Se tem descampado, a gente que que ele calce. E se ele adormece, a gente pede que acorde e estale o chicote.

Até ser a nossa a pele que arde, aí é:

— Para!

Aí já é tarde.