
Sobre burocracia, morte e afins
Por Estéfani Martins
Para o amigo e leitor Humberto Costa.
“Da morte apenas/ Nascemos, imensamente.” (Vinicius de Moraes)
Parte 1
Alberto, cabisbaixo, digita mais uma das milhares de certidões que fez em 39 anos e mais alguns documentais meses de cartório. Mais tempo que o necessário talvez, no entanto, em 10 dias……….a aposentadoria.
Dia quente de inverno, escaldante, mesmo para os invernos sufocantes e secos daquela região remota e hostil do cerrado. A camisa molhada parecia roupa para secar num varal dessas casas de subúrbio, colava transparente no corpo, tornava salientes as axilas e os mamilos, alguns cabelos do peito do funcionário clichê-possível já pareciam grosseiramente eriçados para alguns daqueles que, de fora, só queriam sair rapidamente daquela quente e angustiante espera por um papel. Pessoas recostavam-se nas paredes para suportar a longa espera por um papel que confirma legalmente o que a morte, o nascimento, a circunstância ou o acaso já decretou. Burocrática ironia, os homens pensam saber menos do que os olhos, do que a ausência, daí suplicam ao papel para confirmar o óbvio de suas incertezas, neste caso específico da desventura porvir, o ocaso dos corpos, o fim iminente e definitivo sempre, sempre à espreita.
Mais um dia, desses bem medíocres esvai-se e acaba num sóbrio botequim de vila, daqueles que vendem de tudo e cerveja e cigarro e um tipo de paz remota e inútil. Alberto encosta-se num confim do balcão e pede uma cerveja e um cigarro picado. Toma aquela que é a estranhamente única e primeira cerveja de todos os seus dias, porém fuma o terceiro cigarro do dia com uma regularidade espantosa para um ser com livre-arbítrio. Acha o sabor da cerveja quase bom, mas não combina com o cigarro, mais… ela atrapalha o caminho sinuoso do sabor da fumaça tão conhecida, tão habitual, tão desejada.
Vai para casa, onde uma duplamente balzaquiana o espera, sem muito esperar, com o jantar já pronto a ser mastigado entre silêncios por aquele casal tão simpático à indiferença, ao comum, ao regular, à regra. O jornal das oito é a despedida do dia, é um momento de estranha sintonia entre marido e mulher. Nesse momento, eles compartilham interesses pela vida alheia no que ela tem de mais anônimo, grotesco, escatológico e vulgar, evidentemente um não sabe do outro, daí parecem disputar a autoria da ideia na qual são obrigados a ver aquelas mazelas pela imposição do outro ou mesmo imaginam que irritam o cônjuge com essa dependência televisiva, soa como vingança, mas não é…é autoflagelação matrimonial. Uma espécie estranha de imolação em que um joga combustível em si mesmo, mas ateia fogo no outro enquanto o abraça.
Naquele dia, a energia faltou, um garoto de 15 anos pegou o carro com o consentimento dos pais e se matou num poste nas imediações, imperícia e inconsequência atrapalham o jornal das oito, seria uma boa manchete para um jornal que aquele simpático casal comprasse, parece improvável, porque eles não soavam ser tão letrados assim, eles tinham a bem dos fatos uma distância e uma artificialidade comuns aos âncoras enamorados de muitos dos canais de televisão daquele tempo, não precisam da solidão independente das notícias impressas, ao menos naquele tempo de agora. Dormir, a hora é senhora, ou vejo a novela, não é possível, a treva domina tudo… dormir é mais seguro.
Mais uma manhã qualquer, daquelas bem comuns, ordinárias e avassaladoras como tudo que é sadicamente repetido num casamento, que faz tudo na vida imaginada a dois, na realidade ter um gosto seco e insípido de papel, de contrato, de beijo entre advogados num tribunal vazio. No quintal. Primeiro cigarro do dia. Dejejum. Pão e manteiga e café de bule, margarina e qualquer modernidade aliada ao café são profanos na sua intensão pueril de atrapalhar a perfeição. Cigarro, café, pão com manteiga, café, pão com manteiga, café…..café. Entre goles, tragadas e mordidas, inicia-se mais um dia.
Às oito horas e três minutos, Alberto chegou ao cartório, atrasado como poucas vezes ocorreu. Qual a razão? Nenhuma aparente. Talvez ele tenha caminhado mais devagar, talvez tenha se embaraçado nas roupas, talvez o café tomado em mais goles…
Suposições que a concentração espartana no trabalho não lhe permitia fazer. Aos colegas nada participou, e nada foi perguntado a ele. Como de costume, só lhe falavam quando era essencial, crucial, imprescindível e capital fazê-lo. Não era popular. Não era amigável. Não era simpático. Nem sempre fui assim. Um pouco antes do almoço, o movimento começou a ficar frenético, as pessoas danaram a nascer e a morrer sem respeito por aqueles pobres funcionários precários como tudo mais que existia por ali. Principiou-se até certo tumulto, reclamavam os cidadãos, daquele funcionário lento e meticuloso, que atendia um enquanto os colegas atendiam três. Não entendiam… O tempo nada importava a Alberto, o que importava era o trabalho, a precisão, a meticulosidade, a infalibilidade verdadeira, não a papal, porque essa era forjada numa rotina maquiada de provações que poucos homens submeteram-se ou se submeterão. Esse era o prazer desse clássico, dessa ode ao pragmatismo, que prezava as máquinas de escrever, os carimbos, os selos de autenticação, os grampeadores famintos; e abominava o computador e a miríade de equipamentos eletrônicos que há algum tempo teimavam em acompanhá-lo, não porque lhe faltava domínio sobre esses demônios impostos pela modernidade e pelo culto à velocidade que tirou parte da beleza da burocracia, mas porque esses adventos aproximavam seu trabalho ímpar ao daqueles jovens recém-contratados — inaptos e eternos universitários sem outra alternativa — que, segundo os pensamentos de Alberto censurados por ele mesmo, eram as responsáveis por dar mérito ao medíocre e ao incapaz.
Nesse inferno improvável da burocracia, Alberto errou ao fazer uma certidão de óbito, leu equivocadamente o nome da defunta na cédula de identidade — falhou — e pior, seu erro só foi percebido pela mãe ainda em lágrimas por causa da filha perdida há alguns dias, que — para bem além do esperado — eram intensificadas por um contrassenso natural — geralmente filhos enterram pais, e não o contrário. Tudo por causa daquele funcionário antipaticamente comum e antiquado que errara o nome tão bem e desgraçadamente impresso pelo maquinário do hospital. Era aparentada do dono do cartório, daí a pressa e o desrespeito aos dias normais de espera para que se fizesse tão completo documento. De toda forma, mesmo que resultado do afogadilho, aquilo era um acinte, nem tanto pelo teor dos xingamentos da mãe, que foi atendida por outro funcionário, mas pela existência do papel que comprovava o erro, a falha desse herói do pragmatismo, dos relógios e das catracas, estava logo ali, em cima do balcão entre canetas e papeis que ninguém queria. O documento úmido e manchado pelas lágrimas maternas de tristeza e indignação fixou-se durante todo final da manhã no mesmo lugar do balcão como se tivesse o escolhido como túmulo.
Alberto dividia-se entre os afazeres de agente burocrata e a observação obsessiva daquele pedaço imóvel de papel, que, por obra de um masoquismo sem paralelo na sua existência ordinária, corroía Alberto sem misericórdia. A prova do seu pecado capital e profissional estava ali, ignorada por todos os cidadãos que ali passavam, menos por ele e por alguns outros funcionários que olhavam para aquela folha de papel como se olhassem para um corpo lascivo enovelando-se sobre o seu próprio sexo ou para um prato voluptuoso feito pela mais inspirada e poderosa cozinheira. Era o delírio e a glória da juventude frente ao abismo rouco e profundo da velhice.
Pensavam: serão os olhos que traem nosso velhinho nada simpático, será o ódio nutrido contra os computadores que pregaram uma peça no ancião da burocracia? Não importa, o importante é o prazer de ver a sua angústia e a sua vergonha.
Finada a manhã, o papel continuava lá, prova irrefutável da falibilidade do nosso? Meu? Seu? Herói. Agônico, no limite, sem nenhuma discrição ou polidez, pegou o papel e foi almoçar num botequim decadente do centro da cidade. Sem perceber, quebrava anos de uma rotina infalível e regiamente executada de um homem ordinariamente comum que saiu para almoçar pela primeira vez em décadas antes da hora exata ditada pelo relógio que carregava no pulso, sempre mais confiável — segundo ele — que qualquer outro. Segundo cigarro do dia queimava entre passos e fumaça vinda da fornalha que o peito de Alberto transformara-se desde o acontecido. Na espelunca, entre garfadas mastigava um plano para livrar-se do peso desse erro público em todos os sentidos, a não ser pelo fato de ninguém, provavelmente, lembrar qual o nome errado que ele escreveu no fatídico e funéreo documento, que tomou o cuidado normativo de também apagar do sistema depois de um envergonhado momento de explicações para o tabelião do cartório, que consentiu e entendeu sem se preocupar muito com o ocorrido, por mais que fosse incomum, mas ele confiava em Alberto e nas décadas de dedicação desde a época do falecido avô também tabelião e “fundador” daquele cartório. Comeu rápido o PF farto e gorduroso de todos os dias, mas desta vez não fez uso da pimenta malagueta que tanto apreciava em generosas quantidades.
A cada vez que Alberto pensava sobre o acontecido, uma dor narcisista apontava no seu coração. Por que eu? Tantos ineptos no cartório…………. Tantos!
Na caminhada de volta ao trabalho, pensou em algo reconfortante… E se a pessoa “criada” por ele não existisse? E se fosse um nome sem corpo? Um espectro sem rosto? Porque, se a mulher “morta” por mim não existir, isso faz com que eu não tenha emitido documento algum, já que a pessoa que dá vida (ou morte) ao papel não existia, logo o papel passava a condição de lixo e eu, a alvo de complô infrutífero do acaso para me denegrir. Mas, para tanto, era necessário conferir se aquele nome realmente existia. No cartório, numa conferência rápida pelos arquivos, viu que nada existia que ratificasse em carne e osso o seu erro, por breves momentos, gozou da tranquilidade dos justos, mas lembrou-se que naquela pequena cidade havia outro cartório de registro civil… e, por um momento, figurou um pensamento mordaz nas suas conjecturas. E se o morto de véspera não fosse daquela cidade? E se fosse de outras paragens? Como ter certeza sobre a existência dessa defunta tão viva ou inexistente? E se um canto do mundo fosse a morada desse erro? Entre angústias e meias certezas, resolveu limitar seu mundo à região torta, seca e resiliente onde morava.
Alberto recorreu a um membro influente da ordem para tentar resolver essa pendência. Mentiu ao nobre colega sobre suas intenções e inclusive também mentiu sobre seu afastamento das reuniões. Disse ao crédulo companheiro que procurava por uma parente perdida da esposa, que há muito trazia tristeza para o coração da pobre e envelhecida mãe dela, duplamente penalizada também por conta do mal que desenvolvera. Diante de tão tocante história, um sentimento cristão reforçou as intenções iniciais de nosso crédulo homem da ordem, que disse a Alberto que faria a pesquisa nos cartórios de toda região por meio de um influente membro da ordem. Ouviu ainda que devia um favor ao amigo. Pensou, na verdade devo um favor filial, ao amigo do amigo. Devo duas vezes, devo à Ordem, devo a Deus, devo a minha esposa. Sou devedor em cada espaço do meu corpo.
Passaram-se seis morosos dias, cheios de previsibilidades horárias e circunstanciais como tanto gostava Alberto. Numa manhã com um sol meio besta, desses dias que a luz parece letárgica, chegou o crédulo no cartório. Alberto, calmo e seguro da resposta negativa do colega de ordem, viu sua tão meticulosa e arquitetada vida ruir. A não-defunta burocrática existia, e existia ali perto, aparentemente jovem e incólume a famigerada, numa cidade a menos de 100 km. Ainda se conformando com a situação insólita, despediu-se e agradeceu ao crédulo. Que saiu, a bem da verdade, bem desconfiado do nosso Alberto, já que ele pareceu estarrecido com a notícia, e não feliz por realizar um desejo de uma quase moribunda sogra e de sua esposa, que a todos parecia tanto amar e respeitar.
Para além dos novos meneios torpes de sua vida, Alberto reafirmava dentro de si a repulsa por nomes emprestados da ignorância sobre o idioma filho da mãe lusitana, que num afã ufanista resolveu aportuguesar justo naquele dia, naquele momento, contra aquela dor desconhecida de uma mãe que deu um nome à filha sem a segurança razoável de saber pronunciá-lo. Uma infância e adolescência de leituras numa casa de pais nada convencionais, professores e politizados, cobravam o seu tributo do nada jovem e muito amargo Alberto.
Segue o dia e os tormentos de nosso herói, o que fazer diante disso? Ele se perguntava de forma obsessiva. Passaram-se dias breves, a aposentadoria chegou agora de repente, recebeu uma caixa de vinho barato da família do dono do cartório e uma caixa com jogos dos “colegas” com ludo, dois baralhos e dominó. Pareciam mais provocações do que presentes, vinho ele não tomava, aliás nada de álcool em momento nenhum da vida até dias atrás, menos ainda a esposa. Os jogos eram mais do que provocações, eram uma agressão para uma mente lógica ganhar jogos dominados pela sorte e pelo acaso. Quase conseguiu ver nos colegas as risadas de regozijo pela sua ausência e pela última piada mordaz daqueles ineptos. Da família que controlava o cartório, nem raiva, pois eles realmente pensavam que aquele era um presente interessante, mesmo que não procurassem saber se o presenteado gostava de vinho ou mesmo se bebia. Não houve festa, não houve despedida emocionada, foi um fim de dia muito igual à maioria dos outros de sua vida, a não ser pelo fato de ter voltado para casa de táxi, já que ele ficou constrangido demais com os presentes, mas mais ainda em deixá-los. Levou todos para casa. Terceiro cigarro do dia entre presentes provocações. Passam-se semanas angustiantes diante dos olhos ociosos do agora e para sempre aposentado, até que o inevitável aconteceu… Homem tão afeito ao método e ao rigor das ações não poderia ser imobilizado por tal situação, eis a solução dessa pendência: confirmar o que, de certa forma, o papel prescrevera — teria que matar a pessoa “morta” pela burocracia.
Continua na próxima semana.

