[violência sexual] — Mulheres de Mary F Calvert

Eu comecei a escrever 39 vezes sobre essa mulher. Essa insegurança está principalmente no fato de ela tratar de um assunto maior que ela.

Eu nunca sofri estupro. Sobre isso, deixarei que as imagens falem. Mas a temática sempre me deixa mal. Tem que deixar. Com a tomada de consciência diária, venho percebendo como esses abusos de gênero são sutis e permeiam TUDO. Desde uma pequena discussão em que somos interrompidas com um “shhh” masculino, passando pelo salário menor que a gente ganha, pelo maravilhoso “vá arrumar umas roupas pra lavar”, até os impunes planos para nossos orifícios ditos para quem quer ouvir na rua, nas redes sociais, no nosso ouvido.

Muito nova na fotografia, eu já sei mais sobre o que não quero fazer do que o que certamente irei fazer. E por mais que me sinta a garota mais covarde de minhas três décadas — pelo menos desde que me mudei para SP — , eu ainda tenho esperança que minha antiga coragem e determinação me alcancem novamente e eu volte ao que considerava “normal”. Esta esperança aflora com a existência de pessoas como a fotojornalista Mary F. Calvert.

“Eu me tornei jornalista para contar as histórias daqueles com pouca voz.” — Mary F Calvert

A primeira vez que vi o trabalho da Mary era uma madrugada insone em que comecei a passear pelas fotos da worldpressphoto no Instagram. Em um “take over” intenso, eu via fotos de leitos de um hospital compartilhados por mulheres que sofriam dentre os traumas emocionais, psicológicos e físicos, de fístulas traumáticas. Fístulas traumáticas são comuns em partos naturais mais difíceis, como distócicos ou com enlaçamento por cordão umbilical. Os hospitais especializados nesse tipo de problema são obstétricos. Na República Democrática do Congo — RDC — , como Calvert registrou, o hospital destinado a esses cuidados se tornou refúgio para as mulheres vítimas de violência sexual, muito comum no país.

O nome desse projeto é Congo War on Women.

Placa de conscientização contra violência sexual em RDC. Foto: Mary F Calvert
Imagens do Hospital Panzi em Bukavu no sul de Kivu. O hospital foi criado para apoio às vítimas da guerra, mas se tornou principal apoio para tratamento e recuperação das mulheres da RDC. Fotos: Mary F Calvert

Na RDC há cerca de 67 milhões de habitantes, dos quais as Nações Unidas estipulam 200.000 mulheres estupradas na última década, um terço destas sofreram os abusos pelos soldados do próprio exército congolês e 40 são estupradas diariamente no sul de Kivu, uma região e antiga província no leste do país. É um trabalho que me fez questionar sobre o quão distantes as mulheres do restante do mundo estão desse tipo de violência.

Aqui abro um pequeno parênteses para falar mais francamente. Você, leitor homem, qual o seu maior medo quando sai na rua?

O de uma mulher é este.

Quantas garotas eu já ouvi falarem que quando saem na rua têm que fechar a cara para não dar abertura pros caras. Quantas já ouvi contarem sobre como eram seguidas quando respondiam às cantadas com um fora (já aconteceu comigo umas 2 vezes)? Quantas vezes perguntei em sala para um professor, quando contava sobre suas viagens aventureiras ao interior para fotografar, se era o tipo de viagem que uma mulher poderia fazer sozinha e ouvi um “não” depois de uma longa pausa. Quantas frustrações compartilho com colegas quando chegamos ao ponto de não saírmos pra fotografar sozinhas na rua, aqui pela cidade mesmo, por medo. Um medo maior do que a perda da câmera. É mais que covardia, eu penso.

Mesmo assim, a Mary F Calvert existe. Que a determinação pela verdade seja maior que o medo.

Mas aqui temos a RDC: um país gigante, segundo maior da África, praticamente do tamanho do Leste Europeu, com proporcionalmente pouquíssimos habitantes mas ainda assim o mais populoso do continente, predominantemente rural, muito subdesenvolvido (para o sistema capitalista), ainda em caos político da muito recente independência da Bélgica (1940) e em eterna guerra civil, considerada a maior e mais sangrenta desde a segunda guerra mundial. Aqui, o maior inimigo é a impunidade, como diz a oficial de polícia Honorine Munyole, que fundou mais de 30 unidades contra violência sexual:

“Atualmente, eles sabem que não serão pegos. E até que a impunidade desapareça, não há nada que os faça parar.” — Oficial Munyole

Mas a impunidade não mora somente nas profundezas de um país desmantelado. Um dos mais recentes trabalhos da Mary se chama The Battle Within: Sexual Violence In America’s Military.

Melissa Bania segura seu banner que conta sua história de violência sexual no exército. Foto: Mary F Calvert.

O trabalho trata sobre mulheres militares norte-americanas que sofreram violência sexual por outros militares, geralmente superiores, às vezes colegas e amigos, dentro das instalações do exército. Muitos abusos passam anos sem serem reportados por medo verdadeiro de represálias por parte dos colegas e muitas vezes pelo próprio abusador que vai impune. A estimativa é que 26 mil abusos sexuais e estupros aconteceram somente ano passado no exército dos EUA.

Mary divide esse trabalho em “the survivors” e “the hearings”, que retrata, respectivamente, as vítimas de modo mais próximo, íntimo e de certa forma caseiro, e as audiências na justiça, muitas vezes vazias, com pouca visibilidade, e geralmente infrutíferas.

Britanny Fintel, serviu na marinha norte-americana, com seu cão de serviço para Transtorno por Estresse Pós-traumático (TEPT). Foto: Mary F Calvert.

“Eles expulsam a vítima. A vítima é mais fodida da cabeça do que aparentemente o estuprador.” — Britanny Fintel.

Sag. Jennifer Norris é consolada ao desabar após testemunhar na audiência do comitê de serviços das forças armadas. Foto: Mary F Calvert.

Além desses dois eixos, também retratou as veteranas que se tornaram moradoras de rua por causa das consequências da violência sexual sofrida durante o serviço militar, “Missing in Action: Homeless Women Vecterans”.

Darlene Mathews mora em um carro há 3 anos. Ela entrou nas forças armadas em 1976 e está aguardando os benefícios de veterana. Foto Mary F Calvert.

“Eu ia entrar para um pelotão só de mulheres porque assim não haveria problemas sexuais, mas ai eu entrei e lá estavam os problemas sexuais. Toda a atmosfera era abusiva.” — Darlene Mathews

Enquanto você pesquisa sobre essas coisa você acaba se deparando com muito material em outros formatos. Um documentário de 2015 fala sobre os abusos sexuais em universidades nos EUA que são encobertos pelas administrações das faculdades que muitas vezes culpam a vítima. Muitas dessas universidades são da chamada Ivy League (Liga da Hera), ou seja, as universidades mais prestigiadas dos EUA, e muitas vezes do mundo. A impunidade também é moderna, rica e desenvolvida. Aqui vai o trailer do filme The Hunting Ground:

Não achei legendado em português. :(

E aí, no meio das pesquisas você acha esse tipo de coisa acontecendo do lado de casa:

Enfim, não sou a primeira e provavelmente não serei a última a falar da Mary. Ela certamente tem um trabalho extremamente relevante dentro da temática e nos estimula tanto a fotografar quanto a falar sobre isso.

Mas o importante, acima da própria fotógrafa, são as realidades tratadas, as histórias dessas vítimas e a maneira como nós mulheres podemos nos empoderar diante disso.

Aos homens, recomendo a desconstrução com relação às discriminações de gênero, que são reais sim.

Fato é: seja na República Democrática do Congo, seja nos “maravilhosos” Estados Unidos da América, há homens como esse aqui:

sipius, Ft Lauderdale, United States, 2 years ago:

Absolute rubbish and a continuation of the left wing-nuts, false narrative that is the so called war on women.

(Lixo completo e uma continuação da loucura de esquerda, falsa narrativa que é chamado de “guerra contra as mulheres”)

Parece familiar?

Foda.

Vertentes

Coleção criativa de referências, conceitos & ideias

Maria Clara Feitosa

Written by

Em busca de prioridades visuais.

Vertentes

Vertentes

Coleção criativa de referências, conceitos & ideias